18 de mar. de 2022

Dias de pandemia

Por André Giusti

 

Aquele homem enterrou o filho ontem

Na semana passada havia sido a mãe.

Qual dos seus tios morreu hoje?

É o pai de quem que tem pouca chance

E precisa de corrente e oração?

2ª feira foi a Lila,

Nossa colega de escola

O marido postou na rede social,

Obituário moderno

Dessa modernidade coxa, de atraso e negação.

Aqui e ali um vizinho se despede da esposa

Quando mal acabou de perder o irmão.

Acordo assustado de madrugada

O mero pigarro me apavora

e subir no elevador

dividir 1 metro com o semelhante

é jogar em uma loteria às avessas.

Lá fora, tudo certo

Tudo normal

tudo festa pagode descontração.

Nesse país que se recusa a ser grande

os idiotas riem feito chacais feito hienas

na massa imbecilizada da aglomeração.

 

 

André Giusti nasceu em maio de 1968 na cidade do Rio de Janeiro e mora em Brasília desde o final dos anos 1990. Tem nove livros publicados entre contos, crônicas e poemas. O mais recente é a coletânea de poemas De Tanto Bater com o Osso, a Dor Vira Anestesia, pela Editora Penalux. Espera lançar este ano seu primeiro romance, Só Vale a Pena se Houver Encanto.

5 comentários:

GILBSON ALENCAR disse...

Excelente poema! Forte, como exige o tema✍🏻 Parabéns pela verve poética André Giusti 👏🏻👏🏻👏🏻

Agatha disse...

Muito bom!

Agatha disse...

Muito bom, traduz bem o que senti e ainda sinto.

Sandra Modesto disse...

Muito bom!

André Giusti disse...

Obrigado pelo carinho com meu trabalho.