17 de mar. de 2022

[dia duzentos e um]

Por Gabriele Rosa 

dez minutos de friagem no fígado. atrasada. 16h10. ele estava nublado, olhos pequenos e sorriso baixo. acordei com vontade de adiar nosso encontro. chamada por vídeo agora é... encontro? minha energia não estava das melhores. noite dormida a conta gotas. aí veio a mensagem logo cedo, me pareceu ansioso. um afago no meu medo descabido. entramos na fenda. nossas singularidades dançam juntas, as pupilas se procuram. meus pensamentos voavam pela tela, ele os capturava. despertei. a prosa apressada me incomoda, não deu outra: o trabalho queria passar, e passou. uma esboçadora de reações, como eu, deveria se proteger de um virginiano atento. não consigo. ele me atravessa. atinge a pele. justo nesse ano pandêmico, universo? num milissegundo nos imaginei na cozinha, nos devorávamos... num estrato de tempo diverso, gozamos...! atento a todos os meus movimentos, comentou algo que nem ouvi, mas foi o suficiente para me trazer de volta. delírio. presente. silêncio. a neblina dissipou e a fluidez trouxe cor às vozes. famélicos enraizados na palavra. vivemos nossos discursos. curioso. já disse que gosto do jeito que me observa? desliguei querendo ficar. seis minutos depois e lá estava eu, na outra sala. outros olhares. profundos. pragmáticos. laboriosos. quantas horas tem um dia de trabalho em home office? desconectei. já é manhã, esqueci a luz acesa. o sono me aperta a nuca. não vou fácil. ele tenta um abraço sutil. abro a janela. banho quente. alecrim. piscada lenta, pensamentos maratonando o dia. meditei, e a concentração escorreu por entre os cílios, diversas vezes. era a tua voz me chamando pra dentro. externei sem respirar. dilúvio. o primeiro. nosso afeto saliva leveza. raro. estamos. o abraço, daquele tipo que debruçamos os corpos e nos tornamos coalas e nuvens fofinhas... lembras?... só depois da vacina. ‘merece o que sonhas’. bom dia, noite.

 

Gabriele Rosa é autora de Fendas extraordinárias (Patuá, 2019) e coautora de Lavínia é mais Rosa que Espinho (Libertinagem, 2022). Historiadora e dramaturgista, atualmente pesquisa os espaços heterotópicos entre a construção literária e a criação dramatúrgica na peça Memórias de uma Manicure, em produção pela Bonecas Quebradas Teatro. Tem contos e prosas curtas publicados em revistas literárias virtuais e antologias, entre as quais se destaca a coletânea Prêmio Off Flip de Literatura 2021: conto (Selo Off Flip, 2021).

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