19 de mar. de 2022

A dor da gente

Por Sandra Modesto 

Um nó no peito em dó maior.
Depois os exames. Não tem mais jeito.
Cenário inesperado...
O sono profundo que enterra. Encerra.
Não há despedidas. Solidão.
Desnorteada. Sem velórios.
Dor de verdade não cabe num noticiário.
Não cabem nos jornais, os choros, gritos, a soma certa.
A estrada infinita do estranho mundo.
Valas. Não há vagas. Há marcas. Rimas perdidas.
Tudo vai passar? A dor de toda a gente, não.
O governo. O desmazelo com o povo.
Nada. O povo é nada.
A dor do mundo não cabe numa poesia.
E daí?
Daí o espasmo.
Nos próximos domingos
E todos os dias...
Quantas mães mortas?
Quantas mães arrumando o quarto...
Do filho que já morreu.
Tudo isso eu rasgo em lágrimas.
Eu vou silenciar o presidente.
Deixar de seguir o presidente.
Bloquear o presidente.
E daí? Eu me entrego ao acalanto de um amor: 
_ Mãe, perdão. Ele não sabe nada de dor. A gente sabe.

Sandra Modesto tem 61 anos. Nasceu e mora em Ituiutaba, MG. Graduada em Letras, pós-graduada em Educação, professora aposentada. Três livros publicados: Era sábado (Kotter Editorial, 2022), Tudo em mim é prosa e rima (Editora Autografia, 2019), Acenda a Luz, prosa poética (Editora Kazuá, 2015). Publicou textos nas antologias Elas e as letras (Editora Versejar, 2019), Ruínas (Editora Patuá, 2020), Parem as máquinas (Selo Off Flip, 2020). Publicou textos em várias revistas digitais e impressas.

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