22 de fev. de 2022

Sobre tempos de manga

 Por Milton Rezende 

Quando em meu peito rebentar-se a
Que o espírito enlaça à dor vivente. 
Álvares de Azevedo (1831-1852) 

História concisa 

O poeta dobra a esquina
com uma sacola de plástico:
pão, bife de hambúrguer e solidão.
Não vale a pena chorar por ele:
se fez as opções erradas,
se tombou pelo caminho,
nada fica além do fato
de um dia ter existido
e comido aquele sanduíche
barato.

 

Gêneros 

O anátema
A abusão      
O apêndice
A gênese      
O telefonema
A aluvião
O decalque
A ênfase
O teorema
A análise
O eclipse
A entorse
O trema
A cataplasma
O eczema
A decalcomania
O edema
A dinamite
O gengibre
A apendicite
O dó
A alface
O eclipse
A comichão
O sósia
A matinê
O guaraná
A couve-flor
O lança perfume
A aguardente
O fibroma
A derme
O estratagema
A omoplata
O grama
A usucapião
O ágape
A bacanal
O caudal
A libido
O champanha
A sentinela
O alvará
A hélice
O formicida
A laje
O plasma
A cal
O clã. 

Do livro Uma Escada que Deságua no Silêncio (Multifoco,  2009), esgotado. 

Tempo de manga 

Contemplo os pomares 
em fruta e flor
no tecido das folhas
e nas fibras da tua roupa.
Saudade e manga temporã.
 
Nas árvores as frutas
estão ainda verdes,
mas maduras em tua boca
escorrem o caldo espesso
de manga amor maduro.
 
Na porta de uma loja
que dá para o quintal
de minha vida, de mãos
dadas com os sonhos
antigos e sob a chuva. 

Do livro Inventário de Sombras (Multifoco, 2012), esgotado.


Milton Rezende nasceu em Ervália (MG). Viveu parte da sua vida em Juiz de Fora (MG), onde foi estudante de Letras na UFJF. Funcionário público aposentado, atualmente reside em Campinas (SP). Sua obra consiste em treze livros publicados, entre os quais Inventário de Sombras (Multifoco, 2012), A Magia e a Arte dos Cemitérios (Penalux, 2014), Mais uma xícara de café (Penalux, 2017), O jardim simultâneo (Penalux, 2013) e Anímica (Penalux, 2022). Site: www.miltoncarlosrezende.com.br.

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