27 de fev. de 2022

O pedestre

Por Krishnamurti Góes dos Anjos 

Acontece em São Paulo, na Avenida Paulista. Entretanto, com poucas variantes, poderia estar ocorrendo agora mesmo nas ruas de Buenos Aires, demorar-se numa fração de segundos em Santiago, durar o tempo de um piscar de lâmpada amarela de alerta em Lima, voar no mesmo quase instante a Manágua naquele aglomerar de gente na calçada, irritar motoristas atrasados na Cidade do México, servir a mais um monótono registro para as câmeras que monitoram o trânsito de Washington e, enfim, concluir sua órbita de simultaneidade circular interminável, na mesma urgente Avenida Paulista, a poucos passos de seus edifícios populosos. 

7h45 min. Semáforo. Sinal fechado para a multidão de pedestres. Em 40 segundos, centenas de pernas irão movimentar-se automáticas, misturando corpos anônimos, desconhecidos. Sobre suas próprias pernas, um dos anônimos aguarda também o sinal fechar. 

“Tanto faz se os outros sabem ou não!... Eu sei, e isso é o que importa. Quanto tempo vai durar esta infelicidade mortal? Dá-me vontade de me esticar no meio da rua e berrar! Não, não é coisa que se faça. Ou travessar correndo a pista sem esperar que o sinal vermelho feche... Não. E virar mais um corpo espatifado? Ao menos seria uma solução... Incrível as tolices que levam a gente a matar-se... A morte... Penso pouco nesse negócio, não lhe dou a menor importância...” 

O som estridente da buzina de uma carreta-cegonha, colada no fundo de um motoqueiro, desvia as atenções e, quem sabe, por sugestão visual, afrouxam mais ainda os mecanismos de estabilidade psicológica do pedestre. 

“Quem são aquelas pessoas do outro lado? Trabalhadores, negociantes, uma mãe carregando no ombro o filho adormecido, o retirante nordestino vendendo barbeadores, canetas... um guarda de trânsito com a cartucheira vazia, um adolescente com a bermuda no joelho e brinco na orelha, um menino mirrado de seis, sete anos, provavelmente habitante de um sombrio barraco de favela, uma gatinha de vestido preto, tanta gente... E naquele meio, também, bêbados, vagabundos, ladrões, putas, ou, como eu estou me sentindo, uma merda à toa, largada no mundo. 

Não, espera aí. Parece que... Será que estão todos a me olhar? Por que é que essa gente está me olhando? Será que há algo errado com o meu terno? Não, está como sempre... Por que é que aquele sujeito não para de me fitar? Terá observado que estou aborrecendo-me e quer me sacanear? Ah... Se eu não tivesse esquecido os óculos escuros... Poderia observar tudo sem que se saiba que eu estou vendo... Estão me olhando mesmo, ou não? Se soubessem... Se soubessem!... Ai de mim, antes uma bala na cabeça. Seria o melhor. O melhor? Tolice! Ninguém sabe de nada, ninguém sabe de nada! Há por aí muita gente a quem sucederam coisa piores... O que importa é sangue frio... O que será que aquele guarda ali está pensando? Parece que ele também está me olhando... Todos estarão me olhando? Até aquela mulher de vestido de lycra preto já me dirigiu um olhar que não durou mais de um segundo, mas foi certeiro e pontiagudo... Esse semáforo não abre mais não? Vai ver que está desregulado... E eles ali, me olhando paralíticos, silenciosos, ameaçadores... De onde me vem de repente esse doido bater de coração? Calma. Calma. Feitas as contas, estou calmo. Aliás, sempre soube: se um dia as coisas chegassem a tal ponto, estaria calmo, calmíssimo... 

Que impertinência! Um sujeito como aquele ter a coragem de dizer semelhante desaforo na minha cara... Ah... Acho que se tivesse uma arma comigo daria um aperto no gatilho. Num segundo tudo estaria acabado... Sinto um suor frio nas mãos... Uma espécie de náusea existencial em relação a mim mesmo, em relação a essa massa humana lá do outro lado... E eu fiquei lá feito um idiota, a ouvir sem dizer nada, como se alguém me houvesse dado uma cacetada na cabeça... Fiquei de bico calado, sim, de bico calado... Quanta humilhação... Quem sabe se não estou louco e tudo não passa de um delírio? Alto lá! Estarei tão calmo que imagino que não estou ainda obrigado a fazer a coisa? Sim, estou obrigado, estou! Não, obrigado não estou, mas preciso fazê-la! Mas com calma... Não devo trair-me, ninguém poderá notar que estou praticamente fa... Não, devo conter-me nos argumentos... Oh céus, se tivesse alguém com quem trocar duas palavras... Devo ter o rosto como fogo... É horrível, é insuportável... Mas nada dura para sempre... Um dia, é meu sonho, hei de livrar-me de todo esse sufoco, dessa opressão das aparências. É meu sonho. Ah. Enfim! O sinal abriu para mim, vamos lá.” 

Deu os últimos passos em direção ao meio-fio oposto, cruzando com os últimos olhos que o fitavam (?), e arriscou um último olhar para trás, buscando aquelas apressadas e bonitas pernas metidas num vestido de lycra preto. Mas era a hora do rush, em que os segundos são escassos, e ele ainda precisava tornar a tentar o que fizera exaustivamente e sem sucesso, no dia anterior. Levantar um urgentíssimo empréstimo bancário. Então ouviu atrás de si a sinfonia polifônica de motores acelerando e buzinas frenéticas invadindo-lhe o cérebro, num entorpecimento que já o impedia de continuar urdindo sonhos libertários. 

 

Krishnamurti Góes dos Anjos é baiano de Salvador. Escritor, pesquisador e crítico literário, é autor de Il Crime dei Caminho Novo (romance histórico), Gato de Telhado (contos), À flor da pele (contos), Embriagado Intelecto e Outros Contos e Doze Contos & Meio Poema. Possui textos publicados em revistas no Brasil, Argentina, Chile, Peru, Venezuela, Panamá, México e Espanha. Seu último livro, O Touro do Rebanho (romance histórico), obteve o primeiro lugar no Prêmio José de Alencar, do Concurso Internacional de Literatura da União Brasileira de Escritores (UBE).

Um comentário:

Anônimo disse...

Mais um conto perfeito!
Parabéns K. Góes.

Lilian Reis