29 de jan. de 2022

Uma pausa sobre as imagens irreais de Abbas Kiarostami em ‘Onde fica a casa do meu amigo?’ (1987)

 Por Keyme Gomes Lourenço 

O filme Onde fica a casa do meu amigo? (1987), dirigido por Abbas Kiarostami, é uma obra construída principalmente com não-atores e gravada no vilarejo de Koker, no Irã. Conta sobre uma criança que precisa devolver o caderno de seu amigo que, por engano, havia levado consigo para casa. Há em Ahmed muito medo da troca, pois seu professor ameaçara expulsar seu colega de sala, caso não fizesse o dever de casa novamente. Mas como ele o faria após aquele momento sem seu caderno? 

Logo que o desatento com os cadernos é percebido pelo personagem principal, Ahmed, uma ansiedade instaura no filme: a vontade de encontrar o amigo. No primeiro plano sequência que tal ação é desenvolvida: Ahmed corre até outro vilarejo vizinho ao seu, Poshteh, com desejo de devolver o caderno ao seu amigo de escola. Ahmed vai passando pelas pobres construções de Koker e, conforme as casas passam, sua velocidade aumenta e a criança chega a uma estrada zig-zag com uma árvore no topo, e por esse caminho continua a correr para alcançar o outro lado. 

O tempo que Ahmed demora em subir esse caminho, com vegetação arbustiva seca, árida, até alcançar o outro lado foi alongado por edição pelo diretor Kiarostami. Ahmed demora mais tempo que levaria, “normalmente”, para percorrer o caminho, talvez por isso o motivo da célebre frase “Caminhos de Kiarostami”, tão levantada nos estudos sobre o diretor. 

Esse alongamento de tempo neste bloco de imagem-tempo faz bifurcar conflitos, já que a vontade de Ahmed é acelerar para o quanto antes chegar para o outro lado. Dessa intensidade, distinta porém simultânea, algo deve surgir. Kiarostami, com sua maquinaria cinematográfica, modifica também o movimento do trançar de pernas de Ahmed na corrida até Poshted. As pernas correm num tempo inventado, e por isso parece que nunca dará tempo de chegar ao outro lado e conseguir entregar o caderno. É como se cada passo de Ahmed esticasse o espaço-tempo, fazendo a árvore no fim ficar cada vez mais longe e inalcançável. 

A natureza nessa cena aparece como a grande protagonista na corrida do pequenino Ahmed, e daí surge uma paisagem que se afigura nas relações entre Koker e Poshteh, entre o dever de casa e o caderno, entre a casa de Ahmed e a casa do seu amigo. Nesse sentido, a maquinaria de Kiarostami mistura-se com a paisagem e dela surge uma imagem-tempo direta: o cinema moderno. 

Após Ahmed passar pela subida zig-zag, Kiarostami nos mostra o outro lado. Há mais árvores, e entre elas Ahmed continua correndo. Há um pouco de ansiedade para ver a casa de seu amigo, o outro vilarejo, porém as árvores não param de passar. O tempo passa, mas a distância parece que não. 

Neste filme, uma provocação cinética nos espectadores é a proposta de Kiarostami. Como o desejo inicial de Ahmed era chegar logo na casa de seu amigo, entregar o caderno e voltar sem que seus pais desconfiem, quem assiste o filme fica esperando que isso ocorra até que novas coordenadas da narrativa surjam. Esse desejo do personagem conflita com a paisagem local que suscita uma demora maior, uma espera e até mesmo o exílio. 

No filme, já era noite, Ahmed havia passado o dia todo no vilarejo e a narrativa sugere, para quem assiste, que em algum momento ele deveria voltar. O garoto tinha que atravessar um longo caminho sozinho e no escuro? Além disso, havia a criança conseguido comprar o pão que a mãe lhe pediu, no início do plano sequência deste estudo? Por que ele desiste de fazer a entrega do caderno e salvar seu amigo das broncas do professor? 

A cena retorna na sala de aula, e os estudantes estão se organizando nas carteiras enquanto o professor, como prometido, verificava quem fez ou não o dever de casa. Em sequência, Ahmed chega atrasado ao encontro e se senta ao lado de seu amigo, que no dia anterior tanto procurou. 

A criança questiona o amigo sobre o dever e anuncia que fez para ele a avaliação, a conversa ocorre enquanto o professor chega às carteiras dos garotos para fazer a correção dos cadernos. Enquanto o professor folheia o exercício feito por Ahmed para Nematzadeh, a câmera de Kiarostami foca uma flor, eternizada entre as folhas do caderno, entregue por um velho que o garoto Ahmed havia encontrado durante a busca pelo amigo. A cena e o filme acabam aí. 

A flor que estava na cena em Poshteh, que tanto irritou e atrasou Ahmed em sua busca, é um testemunho no caderno do seu amigo de uma busca que não teve fim. Mais uma vez, entre as cenas do filme de Abbas a paisagem se dá na simplicidade, no que é íntimo: a flor que ganhou em Poshteh e que provocou seu atraso. 

Um comentário:

Junior disse...

Texto muito potente! No íntimo entre as flores, os caminhos e desencontros, a paisagem afeta.