12 de jan. de 2022

Quando eu crescer quero ser misógino igual ao senhor

Por Giulia Nogueira 

Papai,  

Quando eu crescer quero ser misógino igual ao senhor. Às vezes quando olho para a mamãe enquanto ela amarra meus cadarços ou varre o chão da cozinha penso que ela pode ser uma pessoa. Mas daí basta ouvir o vozeirão do senhor a chamando de burra incompetente que me lembro do quanto vovó Adélia realmente cuidava muito melhor de mim e da nossa casa! Tudo pela paixão maluca que ela tinha pelo vovô Ayrton, né pai? Ele bem que deve ter dado um trato nela! Mas com a mamãe é diferente. Toda noite eu a escuto discutindo com o senhor e não entendo por que ela teima em não fazer o que é pelo bem dela… Fico triste porque acho que ela está ficando histérica igual a tia Letrúcia... A Letrúcia, pai! Aquela que foi largada pelo marido e acabou indo parar no hospício de tanto engolir remédio para dormir, sabe? Mamãe contava mais sobre ela na época em que o senhor ainda tolerava ouvir noticiazinhas sobre aquela cidadezinha que elas nasceram. Ai… Tá vendo como é difícil? Não posso nem descuidar um pouco que já começo a colocar palavras no diminutivo igual a uma bichinha. Eu bem que devia ter lhe ouvido quando o senhor disse que não se pode confiar nas mulheres. Mas confesso que fraquejei num dia em que mamãe tentou me explicar que não gostou de abandonar a cidade em que nasceu para vir morar aqui com o senhor. Por favor, não tenha vergonha de mim, papai! Eu juro que não lhe dei ouvidos! Afinal, o que poderia fazer qualquer mulher feliz que não o casamento com um homem tão prestigiado como o senhor? Isso porque ela deu sorte que o senhor gosta de loiras, que apesar de serem pouco avantajadas no cérebro compensam por outras coisas. Coisas que não sei, mas espero que o senhor possa me ensinar… Bem, por hoje é só. Mamãe saiu de casa ontem pela noite e agora que amanheceu o senhor acabou de sair também, para ir atrás dela. É melhor eu ir dormir! 

Até amanhã. 


Giulia Nogueira é artista, acompanhante terapêutica e psicóloga em formação. Da São Paulo de 1999, foi criada entre a metrópole e o litoral paulistas. Seu trabalho mais costumeiro mescla poesia nas artes plásticas, sendo reconhecido por “giubicidades” = “coisas-da-giubi”. Atualmente compõe a galeria Cobracolis junto de outres jovens artistas e o coletivo Escreviventes junto de outras mulheres escritoras.

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