24 de jan. de 2022

‘Não me empurre para os perdidos’ – polifonia a serviço da trama

 

Por Whisner Fraga 

Maurício Melo Júnior (1961) é um escritor, jornalista, crítico literário e documentarista pernambucano, conhecido por apresentar o programa Leituras, da TV Senado. É autor de, entre outros, A revolta dos cascudos (Bagaço, 1992), O palhaço que perdeu o riso (Bagaço, 1993), A cidade encantada de Jericoacoara (Bagaço, 1995), É doce viver no mar (Bagaço, 2008), Viva o cordão encarnado! Viva o cordão azul! (Bagaço, 2012), Noites simultâneas (Bagaço, 2017). Não me empurre para os perdidos (CEPE, 2020) foi finalista do Prêmio SESC de Literatura em 2017. 

Este romance tem quatro eixos narrativos ou quatro vozes distintas. Max, a primeira, dialoga com um escritor, de quem recebe um pacote assinado por F. Nesta encomenda se encontra um caderno pautado, em cuja capa está escrito somente 1924, o ano em que se passa a história. Ali estão um diário de F. e uma novela, um folhetim chamado “Dois soldados e uma guerra”. 

Nesta novela dentro de um romance, um rei divide seu reino em três partes, sendo que fica com uma e dá as outras duas aos dois filhos, tentando evitar brigas futuras. É claro que isso não acontece e, assim que o pai morre, um dos irmãos reclama para si todo o império. Tem início então uma guerra.

O tema principal de Kafka é retratado nesta ficção: o conflito familiar, principalmente entre pai e filho. Estão presentes também a alienação, as missões absurdas, a redenção, e o próprio estilo de Kafka é emulado. É uma narrativa engajada, um manifesto de censura à guerra, mas escrito com elegância, segundo os preceitos literários e se encaixa perfeitamente no contexto deste Não me empurre para os perdidos. 

F. está em Recife, onde trabalha como tradutor do alemão para o português em uma empresa de importação e exportação. Durante nove dias convive com intelectuais (Gilberto Freyre, José Lins do Rego, Joaquim Cardoso, Joaquim Inojosa): em longas e calorosas discussões, apresenta uma visão europeia sobre a literatura, sobre o modernismo e sobre a arte em geral. O leitor poderá perceber que há um modernismo pernambucano em contraponto ao modernismo paulista e mesmo ao modernismo europeu. Algo inédito, grandioso, estava sendo gestado pelos brasileiros, com a ajuda do estrangeiro. 

O grupo de pensadores é coeso desde o início, como se não houvesse se formado há tão pouco tempo e este recurso dá um tom onírico à trama e convida o leitor a relacionar F. com Franz Kafka. Apenas o sobrenatural para justificar esse encontro improvável, essa harmonia inimaginável, dadas as diferenças culturais e mesmo conceituais dos integrantes do que o leitor pode imaginar ser um movimento, obviamente em contraponto àquele da Semana de 1922. 

Biógrafos de Kafka defendem que, logo após sua morte, em 1924, o corpo do escritor tcheco levou nove dias para chegar ao seu destino final. E se ele tivesse despachado um pacote antes de falecer, contendo um diário e uma novela? E se, em uma jogada surreal, não houvesse falecimento nenhum e ele, na verdade, tivesse vindo para Pernambuco a fim de dar uma ajuda a uma turma que não aceitava a hegemonia de pensamento gestada no Sudeste? O autor usa todos estes dados para construir um personagem interessante, um fantasma de Franz Kafka que só quer continuar vivendo por meio de seu amor à literatura. 

A preocupação de Maurício Melo Júnior com a construção dos personagens é uma lição para escritores e críticos. Exemplo disso é o protagonista da obra: F. é um autor que escreve em alemão, mas procura dominar a língua portuguesa, lendo os clássicos de nossa literatura. Só assim ele próprio poderá arriscar a produzir algo válido em um novo idioma. 

Esse exame de alguém de fora, que testemunhou o Modernismo na Europa, com a capacidade, portanto, de opinar sobre este nosso pensamento, é fundamental para as incursões sobre a função social da arte, sem o compromisso de se chegar a qualquer conclusão definitiva. Na Europa, a polêmica andava muito à frente e versava sobre a arte politicamente engajada. A literatura, na esteira desse pensamento, deveria cuidar de temas do momento e o escritor tinha a obrigação de se posicionar. Não há grandes problemas nesta abordagem, desde que o resultado final fosse uma composição artística e não um panfleto edificante e vazio. No romance de Maurício Melo Júnior, Gilberto Freyre defende que a arte deve ser a prioridade do artista, seja engajada ou não. 

Ao final, o leitor se deparará com um último narrador, onipresente, que fecha o livro, elucidando pontos que ficaram abertos. Neste ponto, é importante ressaltar o trabalho impecável na construção das diferentes vozes, que jamais se confundem. O autor soube criar com sucesso um tom para cada narrador, tarefa nada trivial. 

Outros destaques da obra são os diálogos, os pontos de vista sobre o fazer literário, sobre a utilidade da arte, sobre as responsabilidades do artista. O romance é muito bem construído, amarrado, nada fica para trás, não há excessos nem economias. Maurício Melo Júnior mostra pleno domínio da arte e oferece ao leitor um romance polifônico, que privilegia não apenas uma trama bem urdida, mas também a linguagem, transgressora e precisa.

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