28 de jan. de 2022

Mãos, flores e brinquedos

Por Irineu Barreto 

Levo minha filha ao colégio. Seguimos a breve viagem de mãos dadas.  As mãos são capazes de empurrar, puxar, bater, segurar e carregar. E também de fazer gestos e sinais, como acenar e apontar. Mas no trajeto à escola, nossas mãos permanecem quietas, pousadas uma sobre a outra, para anular, sem movimento, o tempo e o espaço, cujas vagas invisíveis e incessantes, ameaçam separar-nos a cada minuto, a cada passo. 

Deixo-a à porta da escola, após um beijo e um abraço, meu olhar segue sua figura pequena e magra, que, não obstante a fragilidade, caminha perfeita a um lugar oculto aos meus olhos. E à medida que ela avança, eu recuo, estático e com medo da minha própria imaginação que me inquieta ao vê-la cruzar o portal da escola, como se fora uma ilusão: como se eu, não estando realmente lá, não pudesse garantir que ela chegara a entrar... 

Porque quando ela se afasta de mim, não posso mais segurar sua mão e à minha volta uma sombra me cinge – a treva de minha memória da história desta cidade em que se pode arrancar impunemente as mãos de uma menina para depois oferecer-lhe flores e brinquedos. 

 

Irineu Barreto é poeta e ensaísta. Nasceu em Belém do Pará, e reside em Brasília. É diplomata de carreira e já serviu em Montevidéu e em Lisboa. Em 2004, publicou sua primeira coletânea de poemas, Páginas Poluídas (Editora Scortecci).  Sua segunda coletânea, Rancor de Verão, está sendo finalizada para publicação.

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