22 de jan. de 2022

Carnaval, Bandeira e eu & outros poemas

Por Milton Rezende 

Carnaval, Bandeira e eu

Quero banhar-me nas águas sujas
Quero banhar-me nas águas sórdidas
Sou a mais solitária das criaturas 
Me sinto só.
 
Confiei às mulheres os meus amores
Caí de quatro pelas sarjetas
Cobri minha alma de decepções
Valei-me Manuel Bandeira.
 
Vozes da morte contai a história
Da pessoa boa que sempre fui
E eu dormia ouvindo o ruído calmo
Do bambuzal 


Geração 

Atravessa nossas
vidas a ideia
de fracasso. Como
um Rei Midas ao avesso
transformamos em merda
tudo o que tocamos.
 
Acalentamos nossos
sonhos como quem
(inocente) acalenta
um monstro, apesar
da ternura que temos
com o que não somos.
 
Já sentimos tudo
sem ter vivido nada
e percorremos o mundo
sem sair do lugar. 

Na ausência de um lar 


Um corredor sombrio

que se estreita
e através do qual
venho retrocedendo.

Uma única lâmpada
tenta iluminar
meus passos dentro
da mais absurda solidão.

É carga demais
e as decepções
criando sulcos
de sangue no caminho.
 
O tempo míngua
enquanto a noite desce
e ainda faltam 9 poemas
para eu terminar meu livro. 


Passado a limpo 

Não se deve fazer
poesia assim como eu faço.
 
A poesia não deve
ser nunca um desenlace,
uma saída para o impasse.
 
Não se deve fazer
poesia assim como eu faço.
Poesia é certeza de conceitos,
de imagens e eu não sei
de nada, apenas acho.
 
Não se deve fazer
poesia assim como eu faço.
Não convém só falar
de si mesmo, o tempo todo.
O mundo, eles dizem,
é muito vário e vasto.
 
Não se deve fazer
poesia assim como eu faço.
A poesia, eles ensinam,
deve ser rápida e concisa
e não derrame verborrágico.
 
Não se deve fazer
poesia assim como eu faço.
Se situar no tempo e no espaço,
fazer versos de memória e resgate.
Nada que seja residual porque
poesia não é inventário e se
assemelha à realidade virtual.
 
Não se deve fazer
poesia assim como eu faço.
 
A poesia não deve
ser nunca uma
alternativa ao suicídio.

Eu sei,
e faço.
 

【Do livro A Sentinela em fuga e outras ausências (Multifoco, 2011), esgotado

Milton Rezende nasceu em Ervália (MG). Viveu parte da sua vida em Juiz de Fora (MG), onde foi estudante de Letras na UFJF. Funcionário público aposentado, atualmente reside em Campinas (SP). Sua obra consiste em treze livros publicados, entre os quais Uma Escada que Deságua no Silêncio (Multifoco, 2009), Inventário de Sombras (Multifoco, 2012), A Magia e a Arte dos Cemitérios (Penalux, 2014) e Anímica (Penalux, 2022, no prelo). Possui o site www.miltoncarlosrezende.com.br.

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