15 de nov. de 2021

Cores, tambores e cantigas

Por Adrianna Alberti

Sobre ir

Primeiro há uma dispersão momentânea de consciência, é perder um pouco o foco; depois, a onda de calor, às vezes é no meio do peito, em outras, nas pernas. Eu posso tentar segurar, mas, aos poucos, meu esforço vai desvanecer. A tontura e a fraqueza são opcionais, mas tenho ambas e a minha atinge as pernas, quase sempre, o joelho que treme e dobra. Meu fim é o arrepio, que parece percorrer da sola do pé e escala pela coluna até eu fechar meus olhos. Tudo estremece. Então, já não sou eu. Ainda resido na casca, mas não controlo mais a mente. Queria apagar completamente, mas não, fica o estranho do resquício de memória de ações que não são minhas.


Vermelhos e azuis

Na lógica de sua mente infantil, a mãe, que a pariu, vinha na frente da mulher de cabelo loiro tingido, embora elas nunca ficassem assim quando a menina ia se sentar com as crianças. Em uma multidão de pessoas vestidas de branco, ela as queria juntas, para observá-las dançar e cantar e sorrir. Tinha uma certa beleza ver a mãe curvar um pouco o corpo, sacudir os ombros e uma voz forte e suave ecoar nas paredes pintadas do barracão. Odoyá! A outra, no entanto, a assustava e despertava sua curiosidade da mesma medida, o corpo parecia entrar em um frenesi, cabelos aos ventos e passos ligeiros, o grito vinha estridente, para se fazer conhecida presença. Eparrey!

De Reis e Rainhas

Ela cresceu cercada de cores, tambores e cantigas. Porém, o que a fazia sorrir agradável de sua infância eram as histórias de ninar, nada de princesas presas em castelos altos ou príncipes em cavalos brancos. Seu sono vinha embalado na voz da mãe que contava sobre a história de amor da Rainha Guerreira com o Rei que a expulsou; do Caçador que matava com uma flecha; do General que forjava suas armas; da Rainha que cuspia fogo e não aceitava ordem de ninguém; da Senhora da Vida e da Morte que tinha um jardim secreto de espíritos. Seus sonhos vinham em cores vibrantes e histórias terríveis, daqueles que ela recebia um abraço caloroso de quando em quando, que os via dançar de pés descalços e que aprendeu a cuidar.

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