20 de fev. de 2021

‘Aldeia dos mortos’, de Adriana Vieira Lomar

Por Krishnamurti Góes dos Anjos

Uma grata surpresa descobrirmos obras que comportem considerações prévias antes de adentrarmos propriamente em suas páginas para análise de seus objetivos e meios. Quer a afirmativa anterior explicitar que, um texto em tais condições, propicia adicionais reflexões que não só desenvolvem ainda mais a mensagem textual, como provocam a ampliação do universo discursivo de seus autores. Isto, a nosso ver, contribui para a consecução de um dos maiores e mais nobres objetivos finais da Literatura: provocar o pensamento reflexivo.

Quando encontramos, então, uma obra que escapa aos padrões usuais de ficcionalização, melhor ainda, pois além de demonstrar a força criativa do autor, faz-nos lembrar de Umberto Eco em Seis passeios pelo bosque da ficção: “Se os mundos ficcionais são tão pequenos e ilusoriamente confortáveis, por que não criar mundos ficcionais tão complexos, contraditórios e provocantes quanto o mundo real?”.

Ao abrir as páginas de um romance, o leitor firma com o texto literário um contrato de consideração do ficcional, a fim de encontrar as verdades organizadas no cerne da obra, pois sabe que se trata de uma dada visão de mundo. É então que se estabelece o acordo tácito entre obra e leitor, com a mediação do autor – por meio da linguagem –, no trabalho contínuo de construção ficcional na porosidade com o real, ora na sua ampliação, ora no seu desvelamento. A transgressão da realidade que é o texto ficcional, cria uma sensibilidade do “estar no mundo” por meio do universo construído: sem, contudo, negligenciar a realidade da qual parte o texto literário.

Desta condição reflexiva é que o livro se torna uma verdade em si que – não sendo absoluta – incide na percepção do leitor para além das páginas. São esses toques e trocas entre ficção e realidade, de fulcral importância para assinalar o encontro entre leitor e obra, que, claro, parte do mundo tal qual vemos para construir um “admirável mundo novo”, em linguagem, sem adentrar, todavia, naquilo que poderia se compreender apenas como imitação do real. Dá-se o encanto porque a obra literária é um mundo em que cabe o que está neste, o que não se compreende ou se teme compreender, ou o que ainda não se disse sobre este.

Um admirável mundo novo se descortina ao leitor do romance Aldeia dos mortos, de Adriana Vieira Lomar, que nos apresenta um narrador em um estágio evolutivo que conhecemos como feto humano! Trata-se de uma obra complexa e permeada de provocações. Provocações muito, muito oportunas neste momento que vivemos. Partindo da premissa de que o feto tem consciência de si e dos outros – o que implica a preexistência da alma ou do espírito, como queiram –, que há vínculos indissolúveis entre ele e sua ancestralidade via experiências pretéritas, e de que a memória lhe está parcialmente obliterada, mas ainda assim sente e pensa, ainda que em graus variados de nitidez que vão se afinando ao longo do tempo de refúgio no útero materno, a autora abala consciências, certezas e crenças. Subverte de partida a condição do pensamento materialista, e segue demolindo noções cartesianas de tempo e espaço sem, no entanto, impor verdades. Sugere-as de tal modo e com uma habilidade narrativa que encanta o leitor, planta sementes de outras possibilidades de consciência quanto à questão da existência humana. 

O feto vai à princípio tomando consciência de si e começa a perceber cada vez com mais nitidez a ambiência onde está e na qual se desenvolve materialmente. Sente cheiros e os toques carinhosos da mãe, até que um belo dia “um peso abala a estrutura” de onde está, porque sente os efeitos do sofrimento da mãe quando esta diz que o irmão dela foi assassinado.

Compreensível que aquele ser fique boa parte do tempo "inconsciente", porque o órgão de manifestação dessa consciência – o cérebro – está em processo de formação e, assim sendo, dorme em pesada letargia, mas sonha, e nesses momentos, toda uma história paralela se desenvolve porque consegue aos poucos reaver recordações do passado e sua mente vai paulatinamente provendo-se de conceitos e pensamentos acerca de si. E quem poderá provar por A mais B que assim não é de fato na vida humana? Conseguimos que um astronauta russo chegasse ao espaço em 12/04/1961 (como está referenciado no livro) e, no entanto, o homem permanece interiormente esse desconhecido.

Com a ajuda de uma misteriosa mulher que vê sentada “no banco de algum lugar”, o feto em sonho retoma a herança de si mesmo, mas já dentro da estrutura psicológica em que se encontra, reavendo o patrimônio das realizações e das dúvidas que acumulou, a se lhe regravarem no ser, em forma de tendências inatas, e passa a reencontrar as pessoas e as circunstâncias, as simpatias e as aversões, as vantagens e as dificuldades, com as quais se acha afinizado. Ou simplesmente acompanha a história de seus antepassados, história essa que a criatividade da autora moldou dentro de datas simbólicas que oscilam entre 13/10/1968 – data em que falece o poeta Manuel Bandeira – e 16/12/1976, quando ocorre uma chacina na Lapa em São Paulo. Temos aí a ancoragem no real que nos situa bem em cheio na época que passou a história brasileira, como a época nebulosa da ditadura militar no Brasil. E toda essa circunstância está de alguma forma ligada ao assassinato de seu tio. Este fato norteará as suas preocupações de descobrir como aconteceu e, veja-se o nível de consciência, se poderia fazer algo para evitar aquele acontecimento nefasto.    

A “Aldeia dos mortos” passa a existir, em última instância, não no casarão de número 89 no alto da íngreme ladeira dos martírios. É, em verdade, uma grande metáfora de nosso país e do nefasto período de uma sociedade enfraquecida na base, pela falta de sólidos fundamentos morais, de que é exemplo gritante o capítulo “o casamento de tio Arthur” (p. 130), que desvela a tônica social, permeada de jogos de interesses e de relações de poder no daquele tempo. Vejamos por quê. Entenda-se que há um recuo no tempo em que o feto presencia esses acontecimentos. Tio Arthur, irmão de sua mãe, vai se casar. Lia, a governanta do casarão, “prepara suco de maracujá para Bernadete: Bastante açúcar e meio litro do frasco de suco de maracujá com alface. Ela adormece com cara de anjo e a festa prossegue.”  Anote-se que Bernadete é filha de uma empregada doméstica, uma deserdada da sorte sem pai, sem mãe, que foi afinal adotada por Vó do Caco – a matriarca da família. E Bernadete é o que popularmente conhecemos como ‘chave de cadeia”, um ser completamente desajustado e revoltado que precisa de controle a todo custo. Resultado? Tome-lhe suco de maracujá goela abaixo. Mais adiante encontramos “na mesa principal, Vó do Caco com as tias endinheiradas com seus maridos e filhos”. Mais adiante; “hoje é um dia memorável. Eles dançam. O ritmo de suas pernas se contrapõe ao que ocorre fora daqui. Os militares marcham com pés rígidos e opressores.” Lemos na sequência lembranças de uma das convivas, conversando com uma de suas irmãs sobre o pai:

“__ Ele falava de tudo. Lembra quando você se apaixonou e o que ele disse?

__ Que eu ficaria molhada. Agora vê, ela nunca falou de sexo conosco. E ele achava a coisa mais natural do mundo. Naquela época, e até hoje em dia, isso seria um espanto.”

E finalmente, o capítulo se encerra com: “Muda, Vó do Caco fica na querência; não insiste. Quem sabe Padre Nelson não consegue convencê-la, pensa. Já já ele chega. A esta altura, está proferindo o sermão.”

Temos aí o quadro perfeito de nossa sociedade de então. Os deserdados da ‘sorte’ amansados na base de suquinho de maracujá para que a festa dos ricos seja possível, estes indiferentes a curtir suas vidas mesquinhas, sexualidade desorientada, pés rígidos e opressores a marchar e, finalmente, o sermão da igreja! Que beleza! Tudo em apenas quatro páginas de um capítulo!

Cabem mais algumas observações finais a essa obra de desfecho surpreendente. A porosidade que a autora estabelece entre a ficção e a realidade deve ser observada do ponto de vista contextual e flexível, de modo a construir um maior refinamento de nossa percepção tanto no que diz respeito à história da sociedade como um todo, quanto às questões existenciais do feto que afinal sabemos tratar-se de uma mulher.

Esta circunstância não exclui a capacidade de contemplação crítica da obra porque não se trata de uma ação en passant, de modo que o leitor aceite todas as colocações do texto como verdade legítima ao mundo empírico. O leitor encontrará ecos de provocações e de ampliação do nosso entorno social ainda hoje, posto que, como função possível do texto ficcional, pode-se listar a de desvelar as práticas que orientam – em linguagem – as ações humanas. Uma leitura de mundo que vai além deste, pois amplia nossa capacidade de reflexão do “estar” no mundo. A obra tem – entre tantos outros fitos – o fito de construir a ampliação acerca de ‘verdades’ circunscritas nas práticas sociais referenciadas. E positivamente, é o que acontece neste belíssimo romance.


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