22 de jan. de 2022

Carnaval, Bandeira e eu & outros poemas

Por Milton Rezende 

Carnaval, Bandeira e eu

Quero banhar-me nas águas sujas
Quero banhar-me nas águas sórdidas
Sou a mais solitária das criaturas 
Me sinto só.
 
Confiei às mulheres os meus amores
Caí de quatro pelas sarjetas
Cobri minha alma de decepções
Valei-me Manuel Bandeira.
 
Vozes da morte contai a história
Da pessoa boa que sempre fui
E eu dormia ouvindo o ruído calmo
Do bambuzal 


Geração 

Atravessa nossas
vidas a ideia
de fracasso. Como
um Rei Midas ao avesso
transformamos em merda
tudo o que tocamos.
 
Acalentamos nossos
sonhos como quem
(inocente) acalenta
um monstro, apesar
da ternura que temos
com o que não somos.
 
Já sentimos tudo
sem ter vivido nada
e percorremos o mundo
sem sair do lugar. 

Na ausência de um lar 


Um corredor sombrio

que se estreita
e através do qual
venho retrocedendo.

Uma única lâmpada
tenta iluminar
meus passos dentro
da mais absurda solidão.

É carga demais
e as decepções
criando sulcos
de sangue no caminho.
 
O tempo míngua
enquanto a noite desce
e ainda faltam 9 poemas
para eu terminar meu livro. 


Passado a limpo 

Não se deve fazer
poesia assim como eu faço.
 
A poesia não deve
ser nunca um desenlace,
uma saída para o impasse.
 
Não se deve fazer
poesia assim como eu faço.
Poesia é certeza de conceitos,
de imagens e eu não sei
de nada, apenas acho.
 
Não se deve fazer
poesia assim como eu faço.
Não convém só falar
de si mesmo, o tempo todo.
O mundo, eles dizem,
é muito vário e vasto.
 
Não se deve fazer
poesia assim como eu faço.
A poesia, eles ensinam,
deve ser rápida e concisa
e não derrame verborrágico.
 
Não se deve fazer
poesia assim como eu faço.
Se situar no tempo e no espaço,
fazer versos de memória e resgate.
Nada que seja residual porque
poesia não é inventário e se
assemelha à realidade virtual.
 
Não se deve fazer
poesia assim como eu faço.
 
A poesia não deve
ser nunca uma
alternativa ao suicídio.

Eu sei,
e faço.
 

【Do livro A Sentinela em fuga e outras ausências (Multifoco, 2011), esgotado

Milton Rezende nasceu em Ervália (MG). Viveu parte da sua vida em Juiz de Fora (MG), onde foi estudante de Letras na UFJF. Funcionário público aposentado, atualmente reside em Campinas (SP). Sua obra consiste em treze livros publicados, entre os quais Uma Escada que Deságua no Silêncio (Multifoco, 2009), Inventário de Sombras (Multifoco, 2012), A Magia e a Arte dos Cemitérios (Penalux, 2014) e Anímica (Penalux, 2022, no prelo). Possui o site www.miltoncarlosrezende.com.br.

13 de jan. de 2022

‘Geometria do Acaso’, de Luciano Lanzillotti

 

120 poemas divididos em quatro capítulos/figuras geométricas buscam erigir possível matemática da vida. Perpassando por diversos assuntos/caminhos: indo da infância às desigualdades sociais; do amor ao tempo; da morte à destruição da natureza: dos corriqueiros costumes sociais ao inusitado de uma existência em que a busca de sentido esbarra na total falta de respostas.  

"É como um útero cinza que habito:
ar, água, vias de sangue
circulam entre mim e sonhos." (Cidade)

 "A culpa não é do relógio,
máquina indefesa:
parafusos e molas." (Molas)
 
"A rua da minha infância
vai desaparecendo com o fim dos moradores." (Rua)
 
"Carrega três filhos no carrinho,
em busca de reciclados." (Rocinante)
 
"É uma vida sem viço:
como se tanto fizesse ao ser urbano,
ficar ou partir
dessa insensível jornada." (Insensível jornada) 

O livro está à venda em versão impressa e e-book nas principais lojas e plataformas do Brasil e estrangeiras, como Amazon, Americanas,  Submarino, Mercado Livre, e no site da Editora Dialética. 


Fortuna Crítica:

"Li e reli Geometria do Acaso, Luciano. Um belo livro, muito importante neste momento da literatura brasileira, principalmente da poesia. Você está de parabéns – e nós também, por recebermos seu presente que é uma iluminação em meio a tanta mediocridade que nos costuma cercar e sufocar." (Ruy Espinheira Filho) 

"Impossível, ainda, não relacionar a obra de Lanzillotti ao último livro de Álvaro Pacheco, Geometria dos ventos, e ao famoso poema de Raquel de Queiroz em sua homenagem. Deste último, um de seus versos pode se encaixar perfeitamente na tarefa de retratar esta obra tão sensível e bela que agora ganha o mundo: “Eis que temos aqui a Poesia, a grande Poesia”." (Leonardo Valente) 

"possui o vigor das obras perenes, feitas para enfrentar a ferrugem da banalidade" (Leal Kostav). 

"(...) o poeta e a poesia não podem se preocupar em desmanchar tudo, provocar estragos" (Rose Calza). 

"Lanzillotti produziu um livro “redondo” e importante, cuja leitura recomendo fortemente" (Mário Baggio). 


Luciano Lanzillotti nasceu no Rio de Janeiro em 1975. Licenciado em Letras (UNISUAM), Mestre e Doutor em Literatura Brasileira pela UFRJ, com pesquisas orientadas por Eucanaã Ferraz e Dau Bastos sobre as poéticas de Manuel Bandeira e Ruy Espinheira Filho. Fez parte de antologias especializadas em literatura contemporânea em mídias impressas e digitais. Edita o blog Orelha de Papel. Autor de Geometria do Acaso, Editora Dialética, 2021.

12 de jan. de 2022

Quando eu crescer quero ser misógino igual ao senhor

Por Giulia Nogueira 

Papai,  

Quando eu crescer quero ser misógino igual ao senhor. Às vezes quando olho para a mamãe enquanto ela amarra meus cadarços ou varre o chão da cozinha penso que ela pode ser uma pessoa. Mas daí basta ouvir o vozeirão do senhor a chamando de burra incompetente que me lembro do quanto vovó Adélia realmente cuidava muito melhor de mim e da nossa casa! Tudo pela paixão maluca que ela tinha pelo vovô Ayrton, né pai? Ele bem que deve ter dado um trato nela! Mas com a mamãe é diferente. Toda noite eu a escuto discutindo com o senhor e não entendo por que ela teima em não fazer o que é pelo bem dela… Fico triste porque acho que ela está ficando histérica igual a tia Letrúcia... A Letrúcia, pai! Aquela que foi largada pelo marido e acabou indo parar no hospício de tanto engolir remédio para dormir, sabe? Mamãe contava mais sobre ela na época em que o senhor ainda tolerava ouvir noticiazinhas sobre aquela cidadezinha que elas nasceram. Ai… Tá vendo como é difícil? Não posso nem descuidar um pouco que já começo a colocar palavras no diminutivo igual a uma bichinha. Eu bem que devia ter lhe ouvido quando o senhor disse que não se pode confiar nas mulheres. Mas confesso que fraquejei num dia em que mamãe tentou me explicar que não gostou de abandonar a cidade em que nasceu para vir morar aqui com o senhor. Por favor, não tenha vergonha de mim, papai! Eu juro que não lhe dei ouvidos! Afinal, o que poderia fazer qualquer mulher feliz que não o casamento com um homem tão prestigiado como o senhor? Isso porque ela deu sorte que o senhor gosta de loiras, que apesar de serem pouco avantajadas no cérebro compensam por outras coisas. Coisas que não sei, mas espero que o senhor possa me ensinar… Bem, por hoje é só. Mamãe saiu de casa ontem pela noite e agora que amanheceu o senhor acabou de sair também, para ir atrás dela. É melhor eu ir dormir! 

Até amanhã. 


Giulia Nogueira é artista, acompanhante terapêutica e psicóloga em formação. Da São Paulo de 1999, foi criada entre a metrópole e o litoral paulistas. Seu trabalho mais costumeiro mescla poesia nas artes plásticas, sendo reconhecido por “giubicidades” = “coisas-da-giubi”. Atualmente compõe a galeria Cobracolis junto de outres jovens artistas e o coletivo Escreviventes junto de outras mulheres escritoras.

10 de jan. de 2022

Particularismo

 Por Milton Rezende

Estabelecemos um conceito
de verdade tão maleável
e tão ajustável à nossa
necessidade de algo que
nos dê respaldo e que nos
justifique, que é como se
a palavra (e o significado)
de verdade nunca tivesse
existido e como se a nossa
existência, por si só, já
determinasse o sentido
de viver. Como se, existindo
apenas, já fôssemos nós e já
estivéssemos credenciados à vida.

Do livro Inventáriode Sombras (Multifoco, 2012), esgotado.

8 de jan. de 2022

Expurgai-vos

Por Cynthia Beatrice Costa

Com seu lançamento mais recente, a franquia The Purge tem o mérito de nos lembrar de que o absurdo pode se tornar real           

É Ano Novo. Hora de expurgarmos as velhas feridas de 2021 e nos prepararmos para as novas, que certamente serão abertas em 2022 – ano de eleição. Estamos em um país dividido, tal qual os Estados Unidos de Uma Noite de Crime 3, com o título alternativo de 12 Horas para Sobreviver – O Ano da Eleição, filme de 2016 da franquia “Uma Noite de Crime”. Criada por James DeMonaco e coproduzida pela Blumhouse, constituída até agora por cinco filmes e uma série, “The Purge” (algo como O Expurgo, A Purificação ou A Purga, como foi traduzido em Portugal) vem faturando um bom dinheiro desde 2013 com uma ideia ótima repetida à exaustão de forma meio boba. 

Boba, mas não sem mérito. Em um futuro distópico, incomodamente parecido com a atualidade, o governo totalitário dos Novos Pais Fundadores da América (NFFA, na sigla em inglês) sanciona o Expurgo: um feriado nacional constituído por 12 horas livres para cometer o crime que você quiser, como assassinato, tortura e estupro. Com a suposta bênção de Deus, os governantes defendem que essa noite para liberar os demônios que existem em todos nós funciona como uma descarga anual de todos os males, tornando os outros 364,5 dias um passeio pela terra dos Ursinhos Carinhosos. 

Iniciada em 2013 com Uma Noite de Crime, estrelado por Ethan Hawke, a franquia de filmes seguiu com: Uma Noite de Crime: Anarquia (2014), o preferido dos fãs; Uma Noite de Crime 3 (2016); A Primeira Noite de Crime (2018); e, em 2021, Uma Noite de Crime – A Fronteira (em inglês, The Forever Purge, isto é, O Expurgo Eterno, ou Expurgo Para Sempre). A este último, voltaremos daqui a pouco. Antes, retomemos nosso ano de eleição. 

Vale a pena voltar a Uma Noite de Crime 3, nem que seja somente para rever os primeiros e os últimos 10 minutos. Nos primeiros, é delineada a situação política. Nos últimos, há a resolução. No meio, violência gráfica, discursos tolos, mais violência gráfica. Por mais tolinhos que sejam, porém, os discursos refletem uma preocupante realidade: desde que seguindo a devida receita, governantes são capazes de convencer a população dos mais loucos absurdos. Promessas de sacrifício (dos outros, é claro) e de riqueza material estão entre os ingredientes mais vitoriosos. Alguém duvida que, dada a oportunidade, não haveria adeptos do Expurgo na vida real? Adeptos, não; defensores. Argumentando sem dor na consciência em favor de torturas e assassinatos em nome do suposto bem geral da nação. O Expurgo, afinal, atrai até investimento estrangeiro – por meio do chamado “turismo de assassinato”. 

Pois bem. Em Uma Noite de Crime 3, a senadora Charlie Roan (Elizabeth Mitchell, da série Lost) aponta para o fato de que a festinha malvada glorifica a indústria armamentista e aniquila pobres e minorias, sempre os mais afetados por políticas sádicas. Isso se prova ainda mais palpável no filme mais recente, Uma Noite de Crime – A Fronteira, que um tanto de gente odiou por julgá-lo demagógico demais. Não mais uma fantasia pseudopolitizada, esse último episódio tem um tom declaradamente ativista. Em detrimento da diversão de alguns, em benefício do engajamento de outros. 

Passado em sua maior parte no Texas, com uma pitada de Mad Max e outra de faroeste, Uma Noite de Crime – A Fronteira quebra com o pano de fundo urbanoide dos outros filmes. Dessa vez, supremacistas brancos, neonazistas e afins decidem que o Expurgo deve continuar para além das 12 horas permitidas, de modo a purificar o país da presença de imigrantes e reparar injustiças sociais contra brancos pobres, reconstituindo assim a “América americana”. Acompanhamos um grupo de mexicanos e fazendeiros brancos, ajudados por indígenas, que lutam para cruzar a fronteira mexicana. Isso mesmo: estadunidenses estão sendo acolhidos como refugiados no México e no Canadá. De resto, é a carnificina de sempre pra cá, diálogos simplórios pra lá. E uma fotografia surpreendentemente caprichada. 

Como um todo, a franquia está longe de ser aquela proeza cinematográfica. É evidentemente influenciada pelos trabalhos de John Carpenter, como Fuga de Nova York (1981) e Os Aventureiros do Bairro Proibido (1986), devendo a eles inclusive aquele charme de filme B-candidato-a-cult. Nada da refinada estilização de Laranja Mecânica (1971), de Stanley Kubrick, nem do vazio pungente dos Funny Games (1997 e 2007), de Michael Haneke. Interpretações amadoras, edição tropeçante, ausência completa de sutileza, clichês para dar e vender... As “noites de crime” são um banho sangrento de tudo que já vimos mil vezes no território terror-ação. Não se pode negar, entretanto, que há algo de visceral na ideia de partida. E que alguns dos temas sugeridos merecem atenção. 

Em seu artigo “Violence, crime dystopia and the dialectics of (dis)order in The Purge films” (“Violência, distopia criminal e as dialéticas da (des)ordem nos filmes Uma Noite de Crime”), Liviu Alexandrescu sugere que, apesar da crítica óbvia ao ultraconservadorismo, a franquia também pode ser lida como um ataque ao liberalismo, com seu belicismo disfarçado na forma de liberdade individual e livre competição. Basicamente, a filosofia do “matar ou morrer” praticada em sua versão extrema. Recorrendo ao conceito de carnavalização de Mikhail Bakhtin e de carnavalesco criminal de Mike Presdee, Alexandrescu também analisa como a descarga ilimitada de pulsões agressivas no Expurgo justifica os outros dias mais castradores; caso não houvesse essa válvula de escape, talvez a hostilidade se espalhasse pelo resto do tempo. Portanto, algo semelhante ao que ocorre com o Carnaval, cujos excessos são logo “corrigidos” pela Quaresma, e tudo volta ao seu controlado normal até o ano que vem – ou até o próximo Carnaval fora de época. 

Somadas à violência diversificada, máscaras e fantasias usadas por assassinos à solta durante a data comemorativa – sim, o Expurgo é considerado uma celebração – constituem outro aspecto carnavalesco e talvez sejam as principais responsáveis pelo efeito de “arrepiar” dos filmes. Estes, porém, foram tendendo cada vez mais à ação do que ao suspense e ao horror. Além dessa mudança gradativa, o viés coletivista do último filme parece bem diferente do intimismo lá de 2013, quando vimos Hawke tentando salvar sua família rica das garras de invasores mal-intencionados. “Que fantasia macabra”, pensamos, “o que será que faríamos no lugar deles”. Agora, à luz de tudo que o Ocidente viveu nos últimos oito anos, Uma Noite de Crime – A Fronteira mal parece distópico. Das duas, uma: ou The Purge deu voltas e já está quase realista, ou nós é que demos voltas e já estamos quase distópicos. Enfim. 

É possível ver os quatro primeiros filmes em plataformas de streaming. No momento, Uma Noite de Crime – A Fronteira pode ser alugado on-line, mas logo estará disponível também.

4 de jan. de 2022

Uma viagem estática

 

Por Rogers Silva 

Aurora,
entretanto eu te diviso, ainda tímida,
inexperiente das luzes que vais acender
e dos bens que repartirás com todos os homens. 
(A noite dissolve os homens, CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE)  

I –   

Um azul fosco se mistura a um laranja rosado. É o crepúsculo caindo lá, longe. O dia, timidamente, oferece seu lugar à noite. Eis o aniquilamento da claridade do dia 27 de maio. Outono. Nada se compara à beleza do crepúsculo deste instante. Veja.


O encanto que o horizonte proporciona agora, às dezoito horas, vai cedendo lugar ao desencanto que esta noite proporcionará. O sol já não se mostra mais. Somente seus raios saindo, distantes, de algum lugar do universo. Os raios não são como aqueles, límpidos, do meio da tarde. São raios alaranjados. Rosados. Bonitos. Mas não intensos como os da tarde.

Aqui fora, sim, avista-se essa bela imagem. E dentro daquela casa, bem em frente, de cor amarela, com três portões de um dourado-velho, uma pequena árvore no meio da calçada; e ali dentro, como estará? Vamos lá?

Atravessamos a rua e passamos pelo portão menor, entrada exclusiva para pessoas. Sem abri-la, entramos pela porta e passamos embaixo do sobrearco arredondado de vidros coloridos. Finalmente chegamos à sala principal, onde vemos, além de uma mulher mediana, pele clara, cabelos negros, longos, anelados, uma televisão de 29 polegadas, último modelo; um jogo de sofás, num dos quais a mulher se encontra; uma estante de madeira mogno; um quadro (em sua gravura, uma linda floresta, densa e lúgubre). Cobrindo toda a parede da janela, uma cortina marrom.

A mulher está ali, com seus quarenta anos, olhos tristes em direção à trama primária da telenovela. Vagos. Sem brilho.

__ O Gilberto já deveria ter chegado. Já são seis e quarenta – pensa Pérola.


Gilberto, neste instante, está abraçado a Júlia, sua amante. Ingênua, acha que ele, homem bem estruturado, familiar e financeiramente, vai abandonar seu lar, sua prestativa esposa, para ficar com ela, moça bonita, morena, olhos verdes, corpo escultural, mas tola – às vezes o próprio Gilberto a julga. Dá um beijo na face esquerda, macia de Júlia e se despede:

__ Tenho que ir. Costumo chegar em casa às seis horas. Minha esposa pode desconfiar.

__ Que dia você vai largar a outra pra ficar comigo? – pergunta a amante, sorrindo e pegando as mãos do homem, que desconversa:

__ Temos que nos encontrar em outro lugar. De tempos em tempos poderíamos mudar de local. Que tal? – sugere, terminando de fechar o último botão da camisa de mangas longas, azul-clara, que pactua com o azul intenso de seus olhos, intensificando assim, com as sobrancelhas escuras e bem delineadas, sua beleza madura.


Júlia, então sozinha: Ô quarentão lindo. E bem de vida! – exclama. Mas ela não nos interessa. Vamos ao Gilberto, agora dentro do seu Vectra GLS. Velho – às vezes ele pondera. – Tenho que trocá-lo.

Gilberto aprecia pela janela o azul escuro do anoitecer, que contrasta com o verde das árvores da avenida por onde passa. Em quinze minutos chega em sua casa, no bairro Tabajaras.


__ Já são sete e cinco. Por que demorou tanto assim? – pergunta Pérola, sem raiva na entoação e no semblante.

__ Tive que fazer uma análise de uns papéis da empresa – responde desinteressado.

Gilberto, aparentemente cansado, indaga:

__ Cadê o meu filho?

__ O nosso filho?

__ Sim. Onde ele está?

__ Fingindo que se importa com ele?

__ Ah, não enche! É claro que eu me preocupo com ele. Dou tudo que está ao meu alcance para aquele menino.

__ Esse é o seu problema, Gilberto. Você dá coisas que dependem de dinheiro: cursos, aparelhos eletrônicos, presentes, dinheiro... toda vez que ele pede. Mas...

O outro interrompe:

__ E nem sabe aproveitar esses cursos que eu tô pagando pra ele. Computação, Inglês, Piano, Violão... Fica ouvindo essas porcarias dentro desse quarto o dia inteiro – e sai.

Passa pela sala, copa, corredor e, após tirar a camisa no quarto, entra no banheiro. Mais do que eu dou pra esse menino. Impossível...

Essas conversas com Gilberto são tão inúteis. Ele nunca entende. Sempre foge – reflete Pérola, professora de Geografia do ensino médio. Senta-se no sofá e volta a assistir à televisão: outra telenovela. Não gosta muito de telenovelas. Acha-as fúteis, repetitivas, moralistas. Bestas. Fica ali por não ter muito o que fazer nesse horário. Às vezes faz planos de aula, mas as aulas de amanhã estão todas planejadas.

Os minutos vão passando e ela, no mesmo lugar, sentada, pouco interessada na programação da TV, o semblante triste. De uma tristeza acostumada com a vida, a rotina, o mau relacionamento (nos últimos três anos) com o marido. Nos últimos tempos, com a distância adquirida, lenta mas progressivamente, do único filho. Pensa no filho. Tão rebelde, mas tão carismático! E tão inteligente! Levanta-se, anda. Já faz horas que está aí trancado nesse quarto. E ao passar pelo quarto vê na plaqueta, bem feitinha, escrito: 

Gênio Pensando 

Quase sorri. Relembra de quando ele a colocou na porta do seu quarto. Tinha uns quatorze anos. Tão bonito! E tão parecido com o pai na fisionomia! Os mesmos olhos. Azuis...

Faz tenção de bater na porta. Não. De repente a visão embaçada, pergunta:

__ Brad, por que fica tanto aí nesse quarto, trancado? – escorando na parede, por causa da tonteira. – Por favor, meu filho, fale comigo!

Deixando a mãe mais aliviada, ele responde:

__ Eu estou bem, se preocupa não.

Pérola volta à sala. Antes de sentar-se num dos sofás, para em frente à televisão, intencionada em mudar de canal. Muda. Jornal da Band.

Gilberto, depois do banho, vai à sala assistir aos seus programas, refrescar a cabeça – descansar. Senta-se em outro sofá, o mais distante de Pérola, e mira a TV. Esse jornal é bom. Melhor que aquele outro. Golpista. Manipulador. E ao pensar na palavra “manipulador” relembra o tempo de universidade. O tempo em que era socialista. Idiotice. Sacrifícios em vão. Só depois de velho é que se percebe.

Enquanto Gilberto traz à memória a época de graduação, às vezes deixando escapar um sorriso, sua esposa pensa no filho. Ah, que saudade do tempo em que era criança. Inocente. Daquele sorriso maroto, tímido. Ele era tão tímido! Mas tão lindo! E vai transpassando o tempo, lembrando-se de um grande feito do garoto desde o nascimento até o presente momento. Mãe – chamou, sério, um dia. Estavam na varanda em frente, os dois, olhando a rua (um dos portões grandes se encontrava aberto, assim se via melhor a rua, sem as grades como obstáculos). O quê?

__ Daqui pra frente quero que me chame de Brad.

__ Que isso, meu filho? Que doidice é essa?

__ É isso mesmo. Brad... – repetiu, olhando o horizonte.

__ Com apenas doze anos e já querendo mudar o nome – pensou a mãe.

Pérola não resistia àquele ar pueril de seu filho. Fez sua vontade. Todas as vezes em que os dois estavam sozinhos, Pérola trocava o Júnior costumeiro por Brad. Brad... Até que é bonito. Parece americano... – a mãe sorria. – Brad... – e se acostumou.

Agora Pérola sentia calor. Levanta-se do sofá e vai à janela abri-la. Abrindo-a sente o frescor da noite, o que melhora o seu abatimento. Coloca a cabeça para fora a fim de olhar as estrelas. Olha-as. Esplêndidas. Fecha os olhos.

Gilberto reparava a esposa. Não tinha raiva dela. Talvez pena. Por que está aí nessa janela? Olhando o quê? – se perguntava. Aproveita a ausência espiritual de Pérola e, pelo controle remoto, muda de canal. Eu estraguei tudo. Dávamos tão bem. Esfriou e ela aceitou calada. Eu que arruinei nosso casamento...

Após sentir por um tempo o vento no rosto, Pérola decide ir à cozinha. Ao passar em frente do quarto de seu filho, ouve um dedilhar de violão. Quase imperceptível. Tão novo e toca tão bem!

Depois de ir ao banheiro, se olhar no espelho, ir ao quarto e ficar alguns segundos deitada, se levantar, abrir a geladeira, Pérola para em frente à porta do quarto de Júnior de novo. Maquinalmente coloca um dos ouvidos rente à porta. Tenta ouvir a canção tocada e cantada lá dentro: 

Mama take this badge from me - ee…
I can’t use it anymo - ore
It’s getting dark too dark to seeee…
Feels like I’m knockin’ on heaven’s do - or

Não entendeu. A melodia chegava baixa, abafada, e a música era em inglês. Seu inglês não era muito bom. Pérola, mesmo não entendendo a letra, sua mensagem, achou a canção bonita. Ou era a voz do filho que a fazia tão bela, tão sublime?...

II –

Um céu esbranquiçado: é a aurora reduzida a um acontecimento sem cor, sem vida. O rompimento da madrugada, com tamanho desencanto, se difere do entardecer de ontem, de tanta cor: azul, laranja, rosa. Hoje, isso. O sol, cujos raios custam chegar a Terra, parece querer retornar ao seu lugar de origem. Mas é preciso que os raios, mesmo não coloridos como antes, clareiem o início do dia.

Lá dentro da casa, Pérola acorda, olha para o outro lado da cama e, não vendo ninguém: Gilberto já deve ter ido – pensa. Sete horas e meia... – murmura. Levanta-se, mas o corpo reclama que quer descansar mais. Ai, meus alunos me esperam... – conclui e vai ao banheiro, repentinamente extasiada, com intuito de tomar um banho, escovar os dentes, colocar uma roupa.

Antes de coar o café costumeiro, Pérola vai, por hábito, à garagem ver se o seu Corsa cinza está lá. Ao passar em frente à porta do quarto do filho, estranha a música que vinha, de dentro, muito baixa:

I used to love her
But I had to kill her
I used to love her
But I had to kill her

Por momentos teve dúvidas se essa melodia repetitiva de fato chegava do... Será? Estranho. Esse horário? Talvez seja algum vizinho... Esse horário ele deveria estar na escola. Encontrava-se indecisa se deveria abrir a porta e... Ou... Para se convencer, abriu.

Primeiro, um breve silêncio (do tamanho da eternidade), depois do qual a canção, agora com a porta escancarada, chegou nítida (ainda que baixa) aos ouvidos da mulher.

Deus! – solta um grito cortante. – Deus! Oh! meu Deus! – depois o choro e o desespero.

Pérola, gélida e trêmula, ainda conseguiu pegar o telefone e comunicar o fato ao marido. Gilberto, ao chegar pálido e ver seu filho naquele estado, jogado, aquele objeto ao seu lado, não se segurou e chorou.

Vários telefonemas, ambulância, mais choros

Uma breve arrumação no quarto

Contatos com familiares, amigos, vizinhos

Organização do velório:

flores (naturais ou artificiais?)

fitas (brancas ou coloridas?)

caixão (esse ou aquele?)

local (numa funerária ou em casa?)

– meu Deus.

Às cinco horas da tarde, o triste clímax do dia: a chegada do caixão, colocado na sala de estar. Uma jovem de uns 16 anos, morena, cabelos ondulados, os olhos castanhos direcionados ao nada, se aproxima do corpo. Chora. O olhar baço, Pérola repara a moça: Deve ser alguma namoradinha dele... – e conclui.

III –

__ Mãe...

__ O que é, meu amor?

__ Por que as pessoas são tão injustas?

Recorda de quando Júnior (Brad) veio lhe perguntar, após chegar chorando em casa, depois da aula. Engoliu a seco. Por que está perguntando isso? – pensava, tentando achar uma resposta.

__ Por que está chorando?

__ Por que, mãe?... – com seu jeito dócil.

__ Porque...

__ Por quê?... – interrompeu. – Por que as pessoas são tão injustas?


Tão cedo e já descobrira.

Seus cabelos dispersos entre as madeiras escuras, em cima desse suporte dourado, causam na mãe um incômodo, algo inexprimível. Por quê? Por que, meu Deus? Logo ele, tão doce, tão... Próxima ao caixão, ninguém ouvia seu lamento imperceptível. Ninguém ousou falar “caixão” perto dela ao referir-se à morte de Brad. Ela não aceitava a palavra. Não aceitava o fim irremediável como solução. E o pressentimento de que ele cometera um pecado mortal a perseguia, cobria-a de remorso, de medo, de sentimentos adversos. Mas será que Júnior tinha consciência de que cometia um pecado mortal? – tentava sair do labirinto em que entrara. Por que me enfiaram essa droga de culpa, de pecado? – se atormentava ali, de pé. As pessoas cochichavam sobre a morte. Tão novo... Parece que foi suicídio... Ouvi dizer que não. A mãe diz que não. Mas mãe não aceita mesmo a verdade. Deve ser duro perder um filho desse jeito...

Se soubessem, as pessoas, que nada ajudavam em ficar fofocando nos cantos. Tirando os amigos do garoto, que choravam sentidos, sofrendo, e os parentes próximos, os outros, melhor era não terem vindo. Ficassem em casa com sua falsa preocupação! Não estavam realmente tristes. Foi duro para Pérola ouvir no meio do velório, no canto da copa, de uma vizinha distante, a frase que mais lhe doeu (nunca frase alguma a fizera sofrer tanto): Até parece que a mãe nem tá preocupada com a morte do filho. A vizinha não viu que Pérola passava por perto. O que vocês querem?! Querem que eu me descabele?! Que eu grite?! Vão todos pro inferno! Todos! Como meu filho foi... – e ao pensar nisso sentiu remorsos, um arrebatamento íntimo de dor (que veio das profundezas do seu ser). Será que esse sentimento estará para sempre comigo? Será o meu fardo? A minha sina?

De repente as primeiras lágrimas, visíveis às pessoas, caem dos seus olhos, desordenadas. Mesmo chorando, o semblante continuava sério. E sereno.


Não sei, meu filho. É difícil saber o motivo da injustiça das pessoas – deveria ter começado a falar. Mas no instante da pergunta estava tão abalada quanto o menino. Os motivos eram outros. Não encontrou resposta. Garganta seca, as palavras não saíram.

Apenas quatorze anos e já descobriu isso – Pérola refletia enquanto o levava para o quarto. Ele continuava chorando. Fungava. A mãe pensou, mais uma vez, em perguntar o motivo do choro. Não vou perguntar. Talvez não queira dizer...

Sentou-se, encostando-se na cabeceira da cama. Deitou o filho no colo. Passava as mãos em seus cabelos. Na sua testa. No seu rosto inteiro. Tem olhos tão lindos! Ele continuava chorando. A mãe decidira deixá-lo chorar por um tempo para então começar a lhe falar... Mas o quê? Depois, sim, iria perguntar a causa do choro. Passados uns cinco minutos a mãe...


A mãe, agora, se senta em frente ao caixão. Estava cansada. Fica perto do rosto do filho. De vez em quando passa as mãos sobre suas pálpebras e sobrancelhas. O pai ficava ali, suspirando longamente, no canto, sem mirar o garoto. Mirava o infinito. O vazio. Não chorava. Não por falta de vontade. Recaído num estado lancinante, por breves momentos pensou que iria esmorecer. Os olhos viram tudo lívido. Mas não esmoreceu. Apoiou-se em algum lugar. Onde? Não soube explicar. Aguentou. Continuou em pé. Não chorou. Depois daquele instante em que o vira jogado tão estranhamente no quarto, não chorou mais.


__ Filho?

__ Quê?

__ Nenhuma dor dura para sempre. Sempre pense assim...


E agora, ironicamente, Pérola pensava no que falou: Nenhuma dor dura para sempre... O pior de todos os lugares-comuns. Me falaram isso, os parentes, os amigos, tentando me consolar. De nada adiantou.


Teve a ideia de declamar uma poesia a Brad. Talvez a única de que se lembrava de cor. Lera-a, relera-a e a decorara quando, aos dezoito anos, sofrera por paixão. Terminara o namoro com um rapaz. Lera-a e a achara linda. O menino permanecia em seu colo, a cabeça virada para a parede, talvez a olhando, chorando.


Ela que propôs colocar esse véu branco sobre o corpo dele. Tampou todo o corpo com o véu e as flores brancas, deixando o rosto descoberto. O rosto deveria ficar exposto. O rosto, com seus olhos, boca, nariz, ouvido, era a fonte da vida. Mas não era o coração a fonte da vida? O coração estava dentro do corpo. Então como descobrir o coração? Esse véu branco transmitia um ar de pureza. Inocência.

__ Deitado sobre isso, parece estar dormindo... Apenas dormindo... – um breve silêncio.


__ Vamos, não chores... – pausa ao declamar – A infância está perdida... A mocidade está perdida... Mas a vida não se perdeu...

Parecia declamar o poema a si própria, e não ao filho. Com a cabeça em cima do colo da mãe, ele chorava mais moderadamente. Ante o desencanto da vida, ela também sentia vontade de chorar. Mas tinha que ser forte.

__ O primeiro amor passou... – esquecia. Olhava o garoto, seus cabelos claros e lisos sobre ela se espalhavam.

À medida que ia se lembrando, continuava: Perdeste o melhor amigo...  Mas tens um cão...

Errante, Júnior parecia ir pelo mesmo caminho – às vezes, contemplando-o, refletia.

__ Algumas palavras duras, em voz mansa, te golpearam...  Nun... ca... Nun... ca...  cica... trizam... – e repetiu: Nunca... – se contendo.

Tão bonito. Tão lindo – pensava e, ao pensar, achava que pela simples repetição nunca deixaria de acreditar que era tão bonito.

Está quase dormindo...

__ Mas, e o “humour”? – ficou segundos calada antes de continuar: A injustiça não se resolve – sua mão passando pelos cabelos de Brad – À sombra do mundo errado murmuraste um protesto tímido – delicadamente. – Mas virão outros... – a voz se ouvia mínima.

Tão novo e sofrendo. Já enxergando essa realidade impiedosa. Que injustiça...

__ Tudo somado... Tudo... somado... devias...  precipitar-te – de vez – nas águas... Dorme, meu filho...

Apenas dorme.


__ Profundamente...


Da obra Sobre seres que bradam luz (2021), disponibilizada na Amazon e no Google Play por R$ 1,99 (até 15-01).

30 de dez. de 2021

‘Psicopata Americano’ – uma entrega à vontade de matar

 

Por Iasmim Assunção 

Para Platão, a catarse (do grego kátharsis) aborda a libertação da alma por meio do desprezo do prazer para que o conhecimento verdadeiro seja alcançado por um indivíduo. Já para Aristóteles, a sequela de uma tragédia alivia a alma – também pode ser destacada a expressão “renova a essência” – ao suscitar emoções como terror e piedade. Tendo isso em conta, o filme de horror sátiro Psicopata Americano propõe uma discussão sobre a aguda falta de empatia do protagonista, que se desenvolve em um processo contrário à eliminação de sentimentos ruins através da catarse. 

A obra cinematográfica, dirigida por Mary Harron e estrelada por Christian Bale,  lançada no ano 2000, apresenta em seus minutos iniciais um traço significativo do perfil psicológico de Patrick Bateman, o personagem principal. Em uma cena demorada e detalhada, Patrick dialoga com si mesmo acerca de sua rotina matinal incluindo a preocupação com sua imagem para que se encaixe na normalidade: ele usa máscaras faciais que combatem as marcas do envelhecimento – apesar de estar ainda em seus 27 anos – e pratica exercícios para manter a formosura de seu corpo. O personagem se esconde sob a aparência para que não deixe transparecer que não possui qualquer emoção identificável de um ser social.  

Ex-aluno da prestigiada universidade Harvard e filho do dono da empresa na qual trabalha, Patrick está em posição de privilégio. Branco, rico, bonito e jovem, que em um primeiro momento critica a hipocrisia de seus colegas em seus discursos – usualmente antissemitas e racistas – sobre problemas sociais, mas o próprio assume uma postura desagradável contra as mulheres. Patrick Bateman é consumido por uma idealização de sua superioridade, alimentada pelos ambientes socioeconômicos que frequenta. Seus colegas estão em constante competição pelo materialismo e por exclusividade, então se relacionam por conveniência; o protagonista não é diferente em sua busca agressiva de ter mais e do melhor. Além disso, Patrick se posiciona como dominante sobre as mulheres durante suas relações íntimas – nas quais aproveita para ficar se olhando no espelho – , já que considera o sexo feminino superficial. Ele até mesmo tem uma noiva, tipificada como patricinha e um acessório, que o trai e é traída.  

Durante o desenvolvimento contextual da narrativa, Patrick admite que a façanha que sustentava para aparentar sanidade está resvalando. Enquanto no início do filme Patrick achava vantajoso ser confundido por outra pessoa – tendo em mente que até ali ele era capaz de conduzir suas obrigações sociais –, no meio da trama o protagonista fica zangado ao ser tratado por Paul Allen, um funcionário com maior poder aquisitivo, como se fosse outro homem. Ressalta-se que em múltiplas vezes os personagens masculinos, burgueses na hierarquia da empresa, são indicados como cópias uns dos outros. 

Patrick – movido pela inveja e conhecimento de sua incapacidade de sentir remorso –, então, planeja o primeiro assassinato do filme, cena com a serra elétrica que se tornou uma icônica releitura de Psicose do Hitchcock. O sonho americano – uma variedade de ideais de liberdade incluindo a chance para prosperidade e maior mobilidade social para as famílias, alcançada através de trabalho duro –, estereotipado inicialmente em Patrick Bateman, se corrompeu com seu instinto violento e sua arrogância, incorporados durante o assassinato de Paul Allen, em que Patrick dialogava sobre música clássica e usava uma capa de plástico para proteger seu terno do sangue jorrado. 

Nos momentos seguintes, o desaparecimento de um homem influente como Paul Allen passa a ser investigado por um detetive contratado por sua namorada. O detetive suspeita principalmente das contradições na linha cronológica que Patrick usa para se esquivar, mas ele não possui fácil acesso a Patrick para fazer seu trabalho adequadamente. 

Conforme se entrega à vontade de matar, Patrick esconde os corpos destroçados de suas vítimas, majoritariamente prostitutas, no armário do apartamento sofisticado de Paul Allen. O personagem principal comete execuções em uma sequência descontrolada até que um erro o leva a ser perseguido pela polícia; admitindo ser um homem doente, Patrick confessa em prantos seus crimes à caixa postal de seu advogado. Cortando para o dia seguinte, em que Patrick acorda confuso por não ter sido capturado, ele retorna ao apartamento de Paul Allen e encontra uma surpresa: o lugar, limpo, sendo apresentado por uma corretora para uma família interessada em comprá-lo.  

O Psicopata Americano, preocupado consigo mesmo, encontra seu advogado em uma confraternização junto aos homens da empresa, já que nesta as mulheres eram apenas secretárias. O advogado acreditava que a mensagem de voz fora apenas uma brincadeira, considerando que almoçou com Paul Allen em uma viagem a Londres, onde Paul estava morando. O advogado confunde a identidade de Bateman com o próprio em sua frente, chamando-o de covarde, incapaz de ser um assassino. 

É dessa forma que o espectador capta a fantasia criada pelo enlouquecido Patrick Bateman. O filme termina assim como começou, com seus desejos violentos e desenhos macabros em seu diário. A confissão do psicopata nunca provocou uma catarse.