19 de mar. de 2022

Viagens fantásticas na pandemia

Por Carolina Schettini 

Janeiro 

Um presente: caderninho com doze páginas coloridas. Que engraçado, escrever diário depois de velha! Só sei que esse ano quero viajar bastante, fazer todas as viagens possíveis e imagináveis.

Vou a todo lugar do planeta.

Menos na China. Parece que criaram um vírus. Como lá eu já fui, posso riscar da minha lista. 

Fevereiro 

Que viagem! Praia, praia, praia. Sol, sol, sol. Car-na-val! Aguardo os próximos feriados.

E o tal do vírus? Já virou epidemia. Estamos na metade do mês, ainda não desceu para nosso país tropical. 

Março 

Agora é oficial, todo mundo obrigado a ficar em casa.

Pandemia. Mundo inteiro isolado por causa de uma coisica minúscula.

Já que vou ficar aqui e vai sobrar um tempinho, vou continuar escrevendo linhas curtas, resumidas, mensais, um pouco dessa realidade, que parece uma viagem turbulenta. Sozinha, em família, em casa, mas viajando, ainda que em pensamento. 

Abril 

Fechou academia, fechou tudo. Vou começar a fazer ioga pelo Youtube. Vai ser bom começar algo novo, zen. Mudança de hábitos, a essa altura da vida, só pode ser boa coisa.

Se fosse uma viagem de verdade, estaria indo para uma cachoeira, algum ecoturismo chique, mas ecoturismo. 

Maio 

Fui colocada no grupo de risco do trabalho. Vou trabalhar de casa. Os colegas ficaram com raiva! Com raiva por eu ter um problema de saúde. Com inveja. Brigaram também com as pessoas idosas. Os jovens brigando porque queriam ser velhos. Mal sabem eles que ser idoso não é vantagem.

E virei professora particular de homeschooling. Na verdade, voltei a estudar. Aprendi a fazer maquetes, coisas de reciclável. Verdadeira viagem de intercâmbio no ensino fundamental. 

Junho 

Nada de festa junina, fogueira, quentão, nada. Em março, pensei que junho fosse mês distante, que poderia viajar, marquei férias, comprei passagens, tudo remarcado ou cancelado.

A ioga não durou. Tirei a ergométrica debaixo das roupas sujas e pedalo assistindo séries na televisão. Já vi tudo, em todas as línguas, todas as histórias, ninguém pode falar que não sou eclética. Série de faroeste!? Me internem!

Museus pela internet, voltei a ler os clássicos. Uma viagem cultural. 

Julho 

“Tudo como antes na terra de Abrantes”. Estou de férias. Férias isolada dentro de casa. Só serve para acalmar o grupo de whatsapp do serviço. Param de falar mal de mim, vão falar mal só dos outros.

Dizem que o grupo de risco “finge” estar no grupo de risco e fica por aí, passeando no shopping.

Compras?  Pela internet. Me tornei uma viajante consumista. Finjo que estou num hotel e pergunto a meu marido, como se ele fosse o recepcionista, se chegou alguma caixa para mim. 

Agosto

Isso não acaba nunca? Todos os dias em casa. Todos os dias em casa. Todos os dias em casa.

Comecei com ioga. Cansei. Pedalei na ergométrica. Cansei. Agora, me distraio dando a volta a pé no quarteirão. Sempre detestei andar na rua. A pé, então, um castigo.

Vou no horário que ninguém me vê, de máscara, mal conseguindo respirar.

Um dia, começo por cima, no outro, começo por baixo e assim os dias vão passando. Me imagino em uma viagem de aventura. Sou aventureira, explorando as flores e pedras que vejo pelo caminho.

Sempre tiro uma foto para registrar meu grande feito, escolho um canteiro de capim dos pampas, aquele capim alto, com folhas que parecem plumas, saídas de escola de samba.

Ontem, quando passei por lá, haviam cortado tudo. Só restaram tocos de madeira no chão. Maior tristeza! Será que olharam na câmera de segurança e viram que eu tirava fotos ali quase todos os dias?  Até que ponto vai a maldade humana?!

Por pouco não entrei em depressão. Por causa de um capim! Um monte de capim! 

Setembro 

É primavera! Vou florescer como aquela planta que floresce dentro de casa: Árvore da Felicidade. Quem lhe deu esse nome, só podia estar de brincadeira. Quando acabar esse suplício, só vou comprar planta que fica do lado de fora. Lado de dentro nunca mais.

Estou viciada em reprise de novela. Se já assisti tudo da primeira vez, por que será que não me lembro de quase nada?

Deve ser isso que os cientistas dizem ser memória seletiva.

Por falar em memória seletiva, me lembrei que sei cozinhar. Muito bem, por sinal. Fingi por anos não saber nem fritar um ovo e falta pouco para eu tirar um diploma do le cordon bleu.

Estou uma viagem gastronômica, toda semana preparo um prato diferente, uma comida exótica de algum país do mundo. 

Outubro

E essa pandemia que não acaba, remarquei aquelas passagens de julho para outubro e precisei remarcar novamente para abril do ano que vem. Pensei que ano que vem estivesse longe, será que vão deixar eu remarcar de graça mais uma vez? Ou duas? Ou três?

Outubro tem tanto feriado, seriam ótimas viagens românticas. O jeito é abrir um vinho e beber até não saber onde se está. 

Novembro 

Quanta coisa a gente perde por ficar dentro de casa! Quantas festas, casamentos, até batizado! Eu era arroz de festa, virei caruncho!

Era uma viajante festeira, virei uma viajante num retiro espiritual. 

Dezembro 

Passei por todas as viagens durante esse ano. Fui todo tipo de viajante. E não importa qual eu prefira, a verdade é que a esperança é o que define o meu futuro.

É a esperança que me mantém alerta. Esperança, palavra derivada do verbo esperar. Espero a vacina, espero que passe, espero que possa viajar de novo, que possa aglomerar, que possa ver a pessoa amada chegar de longe.

É a esperança que me impede de adoecer.  Não de covid, já que não saio de casa, mas de virar hikikomori, um recluso social.

É a esperança que me faz fazer planos, montar árvore de Natal, comprar presentes, escrever metas no papel.

É o que me faz esperar pela próxima viagem. Se esse ano consegui criar viagens fantásticas, imagino ano que vem! 

 

Carolina Schettini não podia viajar por causa da pandemia. Aproveita, então, para mostrar seus textos ao mundo. Participa de antologias de crônicas, contos e poesia e publica livros infantis: No céu e no Mar (Páginas Editora) e Bem (independente) e romances: Re(a)mar (Páginas Editora) e O Quarto Coração (Kindle). Volta a estudar em oficinas literárias e se torna bastante assídua no Instagram e no site www.voandovou.com.br, onde publica minitextos e interage com leitores e amigos.

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