20 de mar. de 2022

Pedro e o gato

Por Israel Peixoto 

O gato angorá de pelo rajado aconchegou-se próximo ao rosto de Pedro. A imensa barriga do bichano o impediu de respirar, então ele acordou. Encarou o pobre animal com olhos ainda sonolentos e o amaldiçoou por acordá-lo de um sonho em que fazia amor com Lana Del Rey; ela dizia num português perfeito o quanto o amava.  

Por um momento pensou em como, dentro de sua mente, havia um mundo feito sob medida para ele. Bem, Pedro gostaria de estar naquele mundo agora.  

Olhou em volta, dormiria no chão da sala como na noite anterior.  Um grupo de moscas voava sobre a mancha de vinho no carpete branco. Na televisão, a jornalista vestida num terno preto bem cortado, atualizava seus telespectadores a respeito dos novos contágios de COVID-19.  

__ Já sei, mais gente morreu. – disse ele, indiferente, depois desligou o aparelho. – Sai Sansão...  

Sansão prontamente se acomodou em cima do sofá. Pedro foi para o banheiro. Durante o percurso ele perguntou se era realmente importante manter certos hábitos de higiene na quarentena já que morava num apartamento sozinho. Não! Hoje era dia de reunião online da empresa, seria importante manter uma aparência minimamente decente.  

No cubículo que mal cabia uma pessoa, ele se pôs em frente ao espelho. Aquele reflexo não pertencia a Pedro. Havia um homem de olhos verdes, cujas córneas estavam prestes a saltar para fora; Pedro era careca, mas tinha uma barba loura e volumosa que começava a mostrar sinais de descuido. Os músculos, aos poucos, se desfaziam em banha.  

Depois do banho, Pedro vestiu uma camiseta azul anil, na parte de baixo apenas uma cueca nova. Prostrou-se em frente ao computador. A reunião estava prestes a começar.  

Uma jovem de olhos agateados e cachos pretos volumosos o chamava, ele rapidamente a atendeu. Ela estava tão linda quanto na foto. Aquela era Sabrina, sua chefe e ex-namorada. 

__ Oi... tá me vendo bem? Tá meio ruim a conexão.  

__ Te entendo perfeitamente, Bina. – Silêncio. Ela arregalou os olhos como forma de corrigi-lo. – Sabrina! Te entendo perfeitamente. 

__ Eu vou colocar o Eduardo na chamada.  

Eduardo era um homem magro, de cabelos castanhos que usava óculos, não era próximo a Pedro, mas trabalhavam no mesmo setor.  

__ Ei, pessoal, boa tarde! Ou melhor, boa noite, Sabrina. Que horas são aí na Inglaterra?  

__ São quase oito da noite. Então, vamos começar?  

A conversa sobre estratégias de marketing durante a pandemia durou aproximadamente duas horas. Ao fim da reunião Eduardo foi o primeiro a desligar. Sabrina fez um pedido a Pedro: 

__ Eu posso ver o Sansão, eu sinto falta dele.  

__ Claro! – Pedro chamou o gato e bateu na ponta da mesa três vezes.  

Sansão atendeu ao chamado e pulou no colo dele, Pedro o envolveu com as mãos e colocou em frente à câmera. Enquanto Sabrina falava com a bola de pelos felpuda, ele grunhia, indiferente.  

__ Meu Deus! Ele tá mais gordo do que eu me lembrava. – disse Sabrina, sorrindo.  

__ Bem, eu não posso reclamar. – Pedro passou a mão na própria barriga. Eles riram juntos. Silêncio. – Eu deveria ter ido pra Londres com você.  

Sabrina encerrou a chamada.  

Nas horas que sucederam, Pedro pensou no quão estúpida fora aquela frase. Ele era estúpido! Estava convivendo consigo há duas semanas, 24 horas por dia. E na sua mente vazia, Satanás trabalhava incansavelmente relembrando-lhe momentos os quais quis pensar que aconteceram em outra vida. 

O relacionamento com Sabrina era um filme clichê de comédia romântica; eles gostavam das mesmas coisas, sexo bom, vida estável. Então eles terminaram. Terminaram por quê? Pedro não conseguia se lembrar... foi algo sobre não estar preparado para construir uma vida a dois numa terra onde as pessoas misturam chá no leite. De qualquer modo, os efeitos do término de 2 anos cobravam seu preço agora. Os bons momentos vividos ao lado dela tornaram-se instrumentos de tortura e automutilação psicológica.  

Para livrar-se daquela ressaca de amor temporal, desbloqueou o celular e ligou para o primeiro contato que surgiu na tela. Ligou para a mãe.  

Quando se deu conta de que a última vez que falara com ela foi há 9 anos, no enterro do pai, era tarde demais. Ela já estava na linha:  

__ Alô... – Ouve-se uma voz cansada e rouca. – Quem é?  

__ Shirley... sou eu, Pedro. – Sua voz era trêmula e quase inaudível.  – Eu só liguei pra saber como estão as coisas na casa de repouso.  Estão cuidando bem de você?  

__ Estamos todos trancados, ninguém pode sair ou entrar, as enfermeiras se vestem como astronautas. Pouca coisa mudou, não faz diferença. Por que você me ligou?  

Shirley sequer fez questão de esconder sua insatisfação, uma viúva de quase 70 anos que, deixada para morrer num lugar desconhecido, não tinha que se dar ao trabalho de censurar seus sentimentos.  

__ Eu só queria saber se você estava bem... – Pedro suspirou fundo, talvez fosse melhor simplesmente desligar o telefone.  

__ Eu estava bem, Pedro. Eu estava ótima até o desgraçado do seu pai chegar em casa com uma criança de 6 anos nos braços dizendo que tinha uma amante, dizendo que ela o havia abandonado e que eu teria que cuidar do filho bastardo dos dois. E tudo isso porque eu não fui boa o suficiente para dar o filho que ele tanto quis... desde então minha vida tem sido um verdadeiro inferno!  

Pedro atirou o celular contra a parede. Shirley o fez lembrar por que se mantinha distante, não apenas dela, mas de qualquer relacionamento complexo o bastante para gerar expectativas e decepções. Pedro não conhecia nada além da culpa. Era carente o suficiente para querer alguém sempre por perto, mas tinha medo, pois sabia que jamais faria ninguém feliz.  

Ele foi até a geladeira, pegou a última garrafa de vinho, seguiu para a varanda e sentou-se no chão para contemplar o pôr-do-sol.  Sentiu a brisa que trazia um leve cheiro de poluição. O sol começava a se esconder por trás dos grandes arranha-céus de São Paulo, as cores dançavam no céu como numa tela de aquarela, elas iam do mais profundo negro até um púrpura suave. 

Sansão aconchegou-se no seu colo, miava, queria afeto. Pedro lhe acariciou o pescoço e a barriga. Entre um gole e outro direto da garrafa, disse:  

__ Sabe, Sansão, a relação que nós temos é perfeita. 

__ E mesmo assim, sinto que não sou devidamente valorizado! – ponderou o gato.

 

Israel Peixoto tem 24 anos, é técnico em agropecuária formado pelo Instituto Federal de educação, ciências e tecnologia Baiano. Escritor e poeta, teve seu primeiro poema publicado na Antologia Poética Bardos Baianos Médio Sudeste. Administra a página Ritma Poesia, onde posta seus poemas. Sonha em seguir carreira jornalística e pretende publicar seu primeiro livro em breve.

3 comentários:

Carine Gurunga disse...

Que conto forte e ao mesmo tempo tão real. Pesado mas é exatamente assim que é a vida, e tudo que a gente pode fazer é ir levando, entendo quais relações fazem bem ou não! As que não fazem, melhor evitar! Parabéns Israel!!

Lorena Durval disse...

Que conto maravilhoso, real e bem escrito. Dá para entender os sentimentos do personagem e até conseguir imaginar as cenas acontecendo. Parabéns, Israel. Que venham muito mais!

Aileen disse...

Conto bastante impactante, com nuances da psiquê humana e cheio de sutilezas, com direito a uma xalapada do gato hahaha. Amei, Israel! Sua sensibilidade é admirável 💓