24 de fev. de 2022

‘Sobre seres que bradam luz’ – um inventário metafórico das deficiências afetivas e espirituais da humanidade

 

Por Krishnamurti Góes dos Anjos 

Sobre seres que bradam luz, do escritor e editor Rogers Silva, é livro que deveria ser lido e relido por todos aqueles que desejam ter uma compreensão mais alargada do que aconteceu no Brasil nos últimos duzentos anos. De como, aos trancos e barrancos, chegamos até aqui. Mas não é só isso, há mais, muito mais. A obra em suporte e-book, presenteia o leitor com quatro contos relativamente curtos e uma novela. Positivamente estamos a lidar com textos que, embora estejam dispostos como peças literárias estruturalmente independentes entre si, conservam estreita ligação entre fatos, acontecimentos e personagens. É como um desdobramento ou iluminações momentâneas de determinados aspectos e preocupações do autor. 

Basta que foquemos um olhar mais apurado na novela que abrange ou sintetiza de modo brilhante todo o livro. Depois dos contos breves, como “Uma viagem ruim”, que narra a ruína existencial de um jovem, via solidão e drogas, lemos “O mundo desencantado de Desseres”, um inventário metafórico de todas e tantas deficiências físicas e espirituais da humanidade. Interessante notar a habilidade do autor ao nos fazer ver que não importa a situação, todos estamos ligados uns aos outros por laços nem sempre visíveis. 

A seguir, o leitor se depara com “O espelho”, texto que possui, e não por acaso, o mesmo título de um conto de Machado de Assis, publicado pela primeira vez em 8 de setembro de 1882 na Gazeta de Notícias, que nitidamente serve de inspiração para a novela de mesmo título de Rogers Silva. O conto de Machado tem um subtítulo: “Esboço de uma nova teoria da alma humana”. Nesse, um espelho que pertencera a uma das fidalgas vindas em 1808 com a corte de D. João VI serve de elemento para, na trama contística, revelar as nuances do que Machado discute sobre a dualidade da alma humana. “Cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro...” 

Silva toma o mote do espelho e leva a metafísica jocosa de Machado a outras dimensões, sobretudo a histórica. Mais uma vez, como fez em “Uma viagem ruim”, lança mão da personificação, ou prosopopeia, recurso estilístico em que empresta características humanas a entes não humanos, atribuindo-lhes pensamentos e ações tipicamente humanas. O mesmo espelho torna-se personagem ativo a atravessar os últimos dois séculos. Acompanhamos a história do espelho desde sua fabricação em Lisboa, o transporte às pressas para o Brasil durante a fuga da Corte Portuguesa das tropas de Napoleão, e as várias residências onde ele foi parar, acompanhando o cotidiano de inúmeras famílias. Entretanto, a história não se dá de maneira uniforme. A cronologia da vida do espelho vai se alternando com outra história de olhos que o miram (ou se miram) na atualidade. Em resumo, ocorre uma sutil (segunda) história na vida do objeto que vai se descortinando aos poucos: a história de uns sofridos “olhos verdes” que fitam o espelho à medida que o tempo passa aqui e agora. 

E temos então o desfiar de eventos e influências internas e externas que foram moldando o tempo e o caráter brasileiro, desde meados do século XIX. A novela é exemplo vivo da capacidade que tem o autor de concentrar tantos dados aparentemente difusos, criar atmosferas ficcionais rarefeitas e, apesar disso, sugerir, inquietar. Questões como a escravidão, dissidências políticas, revoltas reprimidas pelo Império, a corrupção do Estado, interesses ingleses e o ciclo do café, vão sendo pontilhadas no cotidiano de uma família. Por volta de 1858, há no decurso do texto uma frase do espelho que sintetiza em boa medida a história brasileira: “Em segundo plano, atrás, pedras e gritos voavam de mãos e bocas raivosas, e sarcasmos e risos.” Não é tudo. O espelho assiste plácida e silenciosamente, também, a seduções sutis e traições amorosas. Nesse ponto, é digna de registro e aplausos a criatividade do autor na cena em que decorrem tais acontecimentos. O espelho é posto em uma sala da casa de um casal, de frente para uma pintura a representar o Cristo crucificado. Isto propicia a inclusão de elementos transcendentes à vida terrena, o que adensa profundamente a narrativa, fazendo-a ganhar densidade quando o espelho passa a refletir sobre Jesus, sua história e as interligações, sobretudo éticas e morais, que ocorrem entre esta e a própria narrativa. 

O tempo segue, as gerações se sucedem, mortes e nascimentos ocorrem, novos personagens entram em cena, e o espelho passa às mãos de outros parentes da família, vai parar na casa do escritor Machado de Assis, até que o tempo paralelo da história entra no século XX.  Chegamos a 1994. A cena em casa de Geisel, um menino de olhos verdes que se desespera ao ver pela TV o acidente que culminou na morte do piloto Ayrton Senna, é significativa. Ele exclama: “Meu pai morreu”. Imagine que doideira. Que desvio de referências, que ausência mesmo de referências!  1996. Um relato sintético dos despautérios humanos, desde ataques neonazistas na Alemanha, passando por terrorismos na Síria, Líbia, Zaire, Espanha, França, EUA. O terrorismo e as violências abertas, francas, generalizadas como ocorreu no massacre de Eldorado de Carajás, entram em cena. Tudo intercalado com um “imaginário” (?) diálogo de saudade e amor profundo entre Machado de Assis e sua esposa Carolina. O espelho está lá. Assiste a tudo. Ou melhor, reflete tudo. 

Então e afinal, o texto entra abertamente em um sentido filosófico misturando tempos, sentimentos e situações como viagens em uma máquina do tempo criada por Klaus Hoffman na Alemanha hitlerista de 1933. Instaura-se a narrativa do fantástico absoluto na novela. O prosador está sempre a introduzir elementos de lirismo, dramaticidade e sugestão que fazem a história adensar-se e transbordar de significados. A novela escapa das contingências do texto e adquire dimensão incorpórea e fugidia, quando envereda pelo maravilhoso ou o fantástico. E vê-se então que esse fantástico/maravilhoso contém ameaças. Assistimos à viagem acelerada no tempo que inclui moribundos, suicidas, muita filosofia, guerras e assassinatos. Vemos a tal da ditadura militar no Brasil dos anos 1960, e o clima de repressão sistemática que se seguiu, uma verdadeira viagem no tempo na qual o autor, mineiro de Uberlândia, às vezes parece estar a um passo do terror. Mas não o dá, prefere sugerir e aliciar o leitor, ao qual propõe enigmas existenciais sob uma ótica quase sempre pessimista. 

“Uma viagem estática” nos remete ao primeiro conto do volume ao relatar, sob uma perspectiva de extremo sofrimento, o pensamento da mãe daquele adolescente de “Uma viagem ruim”. Logo depois, o leitor se depara e se assombra com “A última revolta de Jesus Cristo”, que relata os últimos instantes de Jesus (o homem carnal) na cruz. Sobre este último, que cada leitor tire suas conclusões. 

Rogers Silva é daqueles raríssimos autores que não se conformam com uma única história, talvez por ser adepto da ideia de que tudo se sequencia e interliga. Revisita temas e os amplia.  Parece nos alertar de que nossas decisões e atos têm impactos que não damos sequer conta de imaginar. Ou por outras palavras, os processos deliberativos envolvidos nas mais banais das ações estão agora, e cada vez mais, entrelaçados com questões últimas acerca do destino da vida na Terra. E, somente através das projeções da imaginação e do sentimento – veja-se e reflita-se nas intertextualidades entre autores como Machado de Assis e Lima Barreto, por exemplo, para ficar em um só exemplo – é que poderemos levantar o véu que nos cega e impede a fulguração dos seres que bradam luz que somos. Quem sabe assim, e afinal, possamos perceber que nos hospedamos à beira do precipício no qual transformamos o planeta. 

 

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Krishnamurti Góes dos Anjos é baiano de Salvador. Escritor, pesquisador e crítico literário, é autor de Il Crime dei Caminho Novo (romance histórico), Gato de Telhado (contos), À flor da pele (contos), Embriagado Intelecto e Outros Contos e Doze Contos & Meio Poema. Possui textos publicados em revistas no Brasil, Argentina, Chile, Peru, Venezuela, Panamá, México e Espanha. Seu último livro, O Touro do Rebanho (romance histórico), obteve o primeiro lugar no Prêmio José de Alencar, do Concurso Internacional de Literatura da União Brasileira de Escritores (UBE).

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