3 de fev. de 2022

Os colunistas d’O Bule entrevistam Cesar Bravo

Cesar Bravo nasceu em Monte Alto, São Paulo, em 1977. Fã de histórias de terror desde criança, começou a escrever profissionalmente na internet. Em 2011, entrou no C.L.A.E., um grupo de escritores do Facebook, onde começou a publicar alguns de seus textos, o que lhe garantiu audiência. Em 2012 lançou sua primeira publicação com a Editora Multifoco. Na plataforma de publicações independentes da Amazon, Cesar Bravo publicou uma coletânea de contos, Calafrios da NoiteAlém da CarneCaverna de Ossos e Ouça o que eu Digo. Em 2013, ganhou o Prêmio FNAC Novos Talentos da Literatura, resultando em uma publicação pela Editora Novo Século. Em 2016, publicou o livro Ultra Carnen, pela DarkSide Books. Em 2019, publicou VHS: Verdadeiras Histórias de Sangue e, em 2020, a sequência DVD: Devoção Verdadeira a D..

 

 

Cynthia Costa BeatriceSobre Ultra Carnem: o livro estabelece diálogos com o pop e o imaginário ocidental, citando Bob Dylan, AC/CD, Greenpeace e variados filmes hollywoodianos, boa parte de terror. Você poderia comentar sobre essa intertextualidade? Além disso: você sente que seus leitores reconhecem essas referências? Elas podem enriquecer a experiência de leitura?

Cesar Bravo – Eu escrevo o que gostaria de ler, então creio que seja um processo fluido, muito orgânico, até certo ponto, pouco ou nada pré-calculado no ato da escrita. Com a globalização atual, acredito que referências do universo pop habitam todos ou a maioria dos lares dos leitores. Hoje não existe muita gente com o hábito da leitura que não tenha ouvido falar, mesmo que de raspão, de bandas como AC/CD, Metallica, Black Sabbath ou programas de Tv como “Twilight Zone” (no Brasil, “Além da Imaginação”), Black Mirror ou Walking Dead. Eu adiciono esses bônus nos meus livros por três motivos: diversão, um certo grau de pertencimento ou homenagem aos citados e transgressão. A maior parte dessas citações possivelmente não vai agradar imediatamente a todos os leitores, então, é sempre uma maneira de fazê-los experimentar novos sabores. 

 

Whisner FragaEm seu livro VHS – Verdadeiras Histórias de Sangue, no conto “Firestar Videolocadora”, as pessoas alugam, em uma videolocadora, fitas descartadas por quem as gravou – são aniversários, casamentos, velórios, todo tipo de lembrança. É uma bonita metáfora sobre o quanto a história pode ser descartável. Há também o interesse na banalidade da vida dos outros. Neste sentido, como a Internet e, consequentemente, os novos meios de comunicação influenciaram sua obra?

Cesar Bravo – Bem pouco. Eu consumo internet principalmente por questões técnicas (sabe como é… “como fazer pão de alho”, “como consertar o condensador da geladeira”, “como montar um mini reator nuclear) e trabalho (pesquisa, propaganda em redes sociais, parcerias). VHS faz justamente o caminho inverso, ele repudia de certa forma a internet e a modernidade corrosiva, manipuladora e tóxica dos dias atuais. VHS é minha tentativa de levar os leitores a uma realidade bem mais acalentadora e interessante. Não quero tirar os leitores do Twitter e colocá-los em um Twitter dentro das páginas, minha intenção é colocá-los em um Opala em 1988 ou em um disco voador em 2850.  

 

Rogers SilvaEnxergo uma certa influência de Stephen King em suas histórias, em especial nas narrativas de VHS– Verdadeiras Histórias de Sangue: uma chuva vermelha, oleosa e persistente caindo sobre uma cidade; gente morta voltando para se vingar de pessoas ruins; uma moça morta que invade banheiros de uma escola e mata um garoto; um portal por um onde um caminhão surge, estraçalha um taxista e depois desaparece; etc. Há, de fato, essa influência? Independente se sim ou se não, qual livro do Stephen King você recomendaria a um leitor em potencial? Ou, se preferir, quais livros dos autores que mais influenciaram sua obra, você recomendaria a esse quase-leitor?

Cesar Bravo – Qualquer escritor moderno que se aventurar no horror irá esbarrar em uma história de Stephen King. Falamos de um escritor extremamente imagético e prolífico, que compilou dezenas de quilos de páginas escritas sob a temática do medo, que visitou todos esses lugares assustadores. É natural que qualquer escritor acabe bebendo da mesma fonte, falando de assuntos parecidos, usando metáforas que se comunicam. A minha diferença para o resto de nós é que eu fico lisonjeado quando surge alguma comparação com o Steve. King é o rei. Não me importo em pertencer à sua corte. Além disso, lendas urbanas, crimes, loucura e assombrações (e litros e litros e litros de sangue) são o material de base para qualquer obra que pretenda ser reconhecida na temática do horror. Uma das passagens que você citou, que por acaso é de um taxista que passa por um muro e despenca em outra realidade, aconteceu em Belo Horizonte (segundo o motorista do táxi), saiu nos jornais inclusive. Se King também imaginou e tropeçou na realidade como eu, tem ainda mais do meu respeito. Se existe a influência de King em meu trabalho? Não só na escrita. King me orienta na maneira como eu me conduzo profissionalmente. 

Como livros, eu citaria a série “A Torre Negra” do King, a série “Livros de Sangue” de Clive Barker, e o que mais o leitor encontrar de Lovecraft e Edgar Allan Poe. É um bom começo. De King, eu indicaria algo leve como Cujo ou mesmo Carrie. Dos modernos, Revival é muito interessante. 

 

Keyme LourençoA cidade Três Rios é algo que me intriga muito nas suas obras. Creio que para uma série de leitores, assim como eu, há uma intenção e vontade em imaginar a geografia de Três Rios, os limites, as estradas, a arquitetura. Porém, algumas referências nas obras vão dando algumas pistas do que cabe no território da cidade. Seria possível estipular uma geografia, uma cartografia de Três Rios? Você já pensou na possibilidade de uma escrita destinada a essa finalidade? Ou até mesmo um ensaio com um artista plástico sobre como poderia se materializar o espaço da cidade, mas para uma linguagem visual?

Cesar Bravo – Eu fiz algo parecido nas páginas de VHS e DVD. No início do livro, existe um mapa com a região toda, existe um “Wiki” específico da cidade, enfim, está tudo ali. Território, habitantes, economia, algumas curiosidades sobre o clima e hidrografia da cidade. 

Já aqui dentro, em meus pensamentos, eu gostaria que tudo isso fosse imaginado para o audiovisual. Uma série, um filme, eu adoraria ver Três Rios se materializando em nossas Tvs. Aliás, muito obrigado pela pergunta e por me permitir sonhar por aqui. Eu gostaria de erguer essa cidade com vocês. Vamos? 

 

Whisner Fraga – Ao mesmo tempo em que você trabalha com a identidade e com a memória, por meio de ricas citações em todas as suas obras, as suas personagens parecem valorizar apenas o momento, como se não fossem fruto de uma época. A maior parte dos seus leitores mal ouviu falar de fitas cassetes, vinis, fitas VHS, CD e, mesmo assim, curte esse resgate. Como é essa experiência e sua interação com o seu público?

Cesar Bravo – Para falar disso, podemos voltar um pouco mais. Nos anos 1980-1990, houve um tempo em que eu consumia tudo dos anos 1960. Eu nunca vivi aqueles anos, mas pensar nas músicas, nos bailes, nos Beatles, em um passeio em um Thunderbird!, sempre me fizeram sorrir. Escrevi muitos textos ouvindo Chuck Berry, Fats Domino, Roy Orbison, Rolling Stones e The Animals. 

No fundo, todos querem um pedaço do passado para chamar de seu, e os anos 1980 forneceram algo difícil de se repetir. Havia novidade, mas também havia inocência, havia irresponsabilidade e inovação tecnológica; são anos que realmente merecem uma visita. Eu acho que VHS e DVD são verdadeiras máquinas do tempo, e todo mundo está adorando fazer um passeio. Até eu me surpreendo em como a galera mais jovem se encantou e engajou nos dois livros. Minha interação com eles é família, papo de boteco, um grupo de amigos jogando conversa fora na calçada. Meus leitores são meus grandes amigos. Eles me ajudaram a continuar respirando. 

 

Rogers Silva – A capa, a diagramação, a impressão e, sobretudo, o projeto gráfico de um livro são preocupações claras da DarkSide, a editora pela qual você publicou Ultra Carnem, VHS: Verdadeiras Histórias de Sangue e DVD: Devoção a D. Essas questões também são uma preocupação sua enquanto autor, seja durante a escrita ou durante o processo de edição de um livro?

Cesar Bravo – Eu crio de uma forma muito sensorial. Sempre tenho música por perto, estou cercado por quadros e estatuetas de horror, sem perceber, acabo tomando direções parecidas com as escolhas dos designers. Minha preocupação na escrita é só mesmo a escrita (e a diversão), essa é a parte que está na minha mão. A etapa seguinte vem do time de artistas da Darkside, que traduz e ressignifica o que expressei em meus manuscritos. Eu participo muito do processo de edição também, nos “extras” do livro, mas não da parte gráfica propriamente dita. 

Algumas vezes, como em Ultra Carnem, o resultado é chocante até mesmo para mim. Mas estamos aqui pra isso, não é mesmo? Pra assustar e preparar vocês para as experiências mais traumatizantes possível. 

 

Cynthia Costa Beatrice – Stephen King gosta de ser adaptado para o cinema (há pouco tempo, declarou no Twitter que é "totally cool"). Você, que claramente tem uma proximidade com o cinema, gostaria de ter sua obra adaptada? Se sim, como imagina que seria seu envolvimento com a produção?

Cesar Bravo – Eu não só gostaria, como venho trabalhando para isso. Ultra Carnem já passou pela análise de alguns diretores e players, e possivelmente esteja participando de rodadas de negócio nesse momento. VHS e DVD também já receberam propostas, mas tratar o horror no Brasil é um assunto delicado. É preciso encontrar a voz certa e a motivação certa, do contrário, o processo não caminha. O horror exige uma linguagem muito particular, uma escolha assertiva de sons e cores, de atores, principalmente de direção. Não é um mercado que se possa entrar de qualquer maneira, errando em fórmulas que o resto do mundo acerta. O horror exige conhecimento técnico e paixão, na mesma medida. 

Eu gostaria de atuar em qualquer parte do processo, mas talvez me saia melhor na revisão de roteiros ou mesmo nas etapas mais avançadas de produção. Enfim: minha única exigência é aparecer em algum frame do filme. "totally cool"!! 

 

Rogers Silva – Dada a importância de aspectos extraliterários em sua obra, como ilustrações, capa, folha de rosto, projeto gráfico em geral, mapas, marcadores de página, a relação entre a cor preta e a branca, fac-símile de jornais, classificados (que dialogam com as histórias), etc., você crê que a experiência com o e-book será a mesma do que a com o livro impresso? Como você enxerga a leitura da sua obra em formato digital?

Cesar Bravo – Eu acredito que cada geração faz suas próprias escolhas. Talvez a próxima atualização da raça humana acabe se enamorando pelos digitais, quem sabe? Particularmente, leio muito mais em Tablets e Kindles do que de outra forma. É prático, economiza espaço, não amassa! E também particularmente, eu ainda amo desesperadamente os livros físicos (risos). 

Olhando ao meu redor, aqui mesmo no escritório, eu ouço música nesse momento em minha Alexa. Ao lado dela, existe um CD do Black Sabbath. Na minha extrema direita, tenho um Sony de 1990 com toca discos e, à minha extrema esquerda, uma prateleira com vinis e CDs. Entende onde eu quero chegar? O importante é ouvir a música, e a escolha do veículo fica de acordo com as preferências de cada um. Em um mundo perfeito, ainda teríamos livros, e-books e mídias holográficas convivendo em harmonia, mas esse ainda é o planeta Terra. Com isso em mente, meu desejo mais forte é que a experiência de leitura continue sendo enriquecida a cada nova edição, para que as novas gerações não precisem de uma máquina do tempo.

“Mas o livro tem o cheiro, Cesar!”. Tem sim. Tem o cheiro, tem o tato, tem o encanto. Acho que essas características são as mais difíceis de emular. Assim como vocês, eu reconheço a praticidade de visitar o Museu do Louvre pelo notebook, mas não abriria mão de ficar frente à frente com as melhores obras de arte.

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