12 de fev. de 2022

Gato de telhado

 

Por Krishnamurti Góes dos Anjos 

Ele passeia na cumeeira da casa mais abaixo. Vai e vem numa soberba de fazer inveja. Insônia em noite de lua cheia aguça o meu desejo de um amor distante. Ela vai de uma ponta a outra no seu passo majestoso, sem tropeços. Em algum ponto, uma torneira pinga vagarosamente, cadenciando a agonia da minha solidão. A brasa do cigarro, vez por outra, produz um leve crepitar de fumo seco consumindo a mim e ao fino palitinho branco ao mesmo tempo. Fitamo-nos. Ele continua o seu andar macio, driblando a antena de Tv na qual o rabo negligentemente se enrosca. Parece que espera algo. Peso os poucos momentos passados ao lado dela, e imagino outros tantos, que talvez jamais venham a acontecer. 

De vez em quando, o gato observa as baforadas do cigarro. Então ele para, se agacha um pouco, e vejo o luzir de seus olhos. Ah, amigo gato, tu aí passeando ao luar, e eu cá com meus pensamentos a tirar-me o sono, queimando cigarros e mais cigarros... 

Sopro a fumaça para o espaço, comprimindo os pulmões poluídos com força, na esperança de que ela vá dizer algo a quem tanto quero. Ele, o gato noctívago, semi-abaixado, desdenha de tanto amor especulativo e remexe a cauda como se dissesse: “Teu amor nada vale. Vocês homens não se bastam?”

Não dou curso a essa alucinação noturnal, desfaço-me dela e parto para outra em que estou ao lado dela. Só nós dois caminhando de mãos dadas. Este gato miserável pescou no ar meu mais novo desejo. Estanca o passeio tranquilo pelo telhado, fuzilou-me com aquelas contas brilhantes e sonoriza com gravidade: “Miau, miau, miaauuu”. Traduzi por: besta, besta, bestaaa. Então seu gato vagabundo (ou seria uma gata?), nunca amastes na vida? 

Neste momento, agilmente, ele pula para cima do tanque d’água respondendo-me telepaticamente: “Não vês que sou livre? Que vou aonde bem quero e entendo?”. Calculando a distância, salta sobre si de volta para a cumeeira e retorna ao vai e vem. Vem e vai. Começo a acreditar que espera mesmo algo. Sinto uma picadinha na perna esquerda e dou, no lugar, um tapinha para espantar um mosquito que me quer sugar o sangue. O bichano. Senta-se nas telhas e, com o focinho peludo, coça-se demoradamente. Enfim, algo em comum. Ambos padecemos do ataque de parasitas. 

Acendo o quarto cigarro no ímpeto de afastar o fastio e, quem sabe, fazer chegar o sono. De repente, surge na penumbra do luar uma outra silhueta felina. Vem de outro lado da cumeeira. O primeiro gato, desconfiado, se põe em posição de alerta. Ambos vacilam. Não parece que se conhecem. Contudo, a pequenos avanços, vão se aproximando, se estudando. Compasso mole de caminhar resoluto. Parecem cumprir algum ritual diabólico. O primeiro passa pelo outro esfregando-se nele maciamente, então, velozmente, se volta e pula sobre o dorso da gata. 

Agora posso distinguir bem quem é quem. Ela se deixa dominar miando baixinho. Quase os invejo pela simplicidade dos seus atos espontâneos. Totalmente isentos das convencionices humanas, saciam a necessidade. 

O vento encobre o luar com uma densa nuvem que me subtrai a visão do quadro idílico, restando apenas os sons dos gemidos frenéticos da gata. E se eu fosse um gato? Se fosse um gato... 

A nuvem, rápida como veio, segue o seu caminho e a luz prateada volta a iluminar a cena. Eles na mesma posição. Porém estão inquietos. Parece ter surgido, no breve tempo em que ninguém os observou, algum desagravo. Grunhidos altos, miados escandalosos. Uma aversão mútua os faz entrar em luta, reboando nas telhas cerâmicas um ruído tremendo de pugna selvagem, e viram um bolo disforme de pelos e patas e rugidos e chiados. Rolam telhado abaixo, vindo a estatelar-se em um pátio de cimento. Como os gatos têm sete vidas, partem em desabalada carreira para direções opostas. 

Atirei ao espaço, com um peteleco, a baga do cigarro que já estava no filtro, e fui me deitar resolvido a não abdicar da minha condição de homem. Gato? Ora, isso é que não.


Krishnamurti Góes dos Anjos é baiano de Salvador. Escritor, pesquisador e crítico literário, é autor de Il Crime dei Caminho Novo (romance histórico), Gato de Telhado (contos), À flor da pele (contos), Embriagado Intelecto e Outros Contos e Doze Contos & Meio Poema. Possui textos publicados em revistas no Brasil, Argentina, Chile, Peru, Venezuela, Panamá, México e Espanha. Seu último livro, O Touro do Rebanho (romance histórico), obteve o primeiro lugar no Prêmio José de Alencar, do Concurso Internacional de Literatura da União Brasileira de Escritores (UBE).

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