8 de jan. de 2022

Expurgai-vos

Por Cynthia Beatrice Costa

Com seu lançamento mais recente, a franquia The Purge tem o mérito de nos lembrar de que o absurdo pode se tornar real           

É Ano Novo. Hora de expurgarmos as velhas feridas de 2021 e nos prepararmos para as novas, que certamente serão abertas em 2022 – ano de eleição. Estamos em um país dividido, tal qual os Estados Unidos de Uma Noite de Crime 3, com o título alternativo de 12 Horas para Sobreviver – O Ano da Eleição, filme de 2016 da franquia “Uma Noite de Crime”. Criada por James DeMonaco e coproduzida pela Blumhouse, constituída até agora por cinco filmes e uma série, “The Purge” (algo como O Expurgo, A Purificação ou A Purga, como foi traduzido em Portugal) vem faturando um bom dinheiro desde 2013 com uma ideia ótima repetida à exaustão de forma meio boba. 

Boba, mas não sem mérito. Em um futuro distópico, incomodamente parecido com a atualidade, o governo totalitário dos Novos Pais Fundadores da América (NFFA, na sigla em inglês) sanciona o Expurgo: um feriado nacional constituído por 12 horas livres para cometer o crime que você quiser, como assassinato, tortura e estupro. Com a suposta bênção de Deus, os governantes defendem que essa noite para liberar os demônios que existem em todos nós funciona como uma descarga anual de todos os males, tornando os outros 364,5 dias um passeio pela terra dos Ursinhos Carinhosos. 

Iniciada em 2013 com Uma Noite de Crime, estrelado por Ethan Hawke, a franquia de filmes seguiu com: Uma Noite de Crime: Anarquia (2014), o preferido dos fãs; Uma Noite de Crime 3 (2016); A Primeira Noite de Crime (2018); e, em 2021, Uma Noite de Crime – A Fronteira (em inglês, The Forever Purge, isto é, O Expurgo Eterno, ou Expurgo Para Sempre). A este último, voltaremos daqui a pouco. Antes, retomemos nosso ano de eleição. 

Vale a pena voltar a Uma Noite de Crime 3, nem que seja somente para rever os primeiros e os últimos 10 minutos. Nos primeiros, é delineada a situação política. Nos últimos, há a resolução. No meio, violência gráfica, discursos tolos, mais violência gráfica. Por mais tolinhos que sejam, porém, os discursos refletem uma preocupante realidade: desde que seguindo a devida receita, governantes são capazes de convencer a população dos mais loucos absurdos. Promessas de sacrifício (dos outros, é claro) e de riqueza material estão entre os ingredientes mais vitoriosos. Alguém duvida que, dada a oportunidade, não haveria adeptos do Expurgo na vida real? Adeptos, não; defensores. Argumentando sem dor na consciência em favor de torturas e assassinatos em nome do suposto bem geral da nação. O Expurgo, afinal, atrai até investimento estrangeiro – por meio do chamado “turismo de assassinato”. 

Pois bem. Em Uma Noite de Crime 3, a senadora Charlie Roan (Elizabeth Mitchell, da série Lost) aponta para o fato de que a festinha malvada glorifica a indústria armamentista e aniquila pobres e minorias, sempre os mais afetados por políticas sádicas. Isso se prova ainda mais palpável no filme mais recente, Uma Noite de Crime – A Fronteira, que um tanto de gente odiou por julgá-lo demagógico demais. Não mais uma fantasia pseudopolitizada, esse último episódio tem um tom declaradamente ativista. Em detrimento da diversão de alguns, em benefício do engajamento de outros. 

Passado em sua maior parte no Texas, com uma pitada de Mad Max e outra de faroeste, Uma Noite de Crime – A Fronteira quebra com o pano de fundo urbanoide dos outros filmes. Dessa vez, supremacistas brancos, neonazistas e afins decidem que o Expurgo deve continuar para além das 12 horas permitidas, de modo a purificar o país da presença de imigrantes e reparar injustiças sociais contra brancos pobres, reconstituindo assim a “América americana”. Acompanhamos um grupo de mexicanos e fazendeiros brancos, ajudados por indígenas, que lutam para cruzar a fronteira mexicana. Isso mesmo: estadunidenses estão sendo acolhidos como refugiados no México e no Canadá. De resto, é a carnificina de sempre pra cá, diálogos simplórios pra lá. E uma fotografia surpreendentemente caprichada. 

Como um todo, a franquia está longe de ser aquela proeza cinematográfica. É evidentemente influenciada pelos trabalhos de John Carpenter, como Fuga de Nova York (1981) e Os Aventureiros do Bairro Proibido (1986), devendo a eles inclusive aquele charme de filme B-candidato-a-cult. Nada da refinada estilização de Laranja Mecânica (1971), de Stanley Kubrick, nem do vazio pungente dos Funny Games (1997 e 2007), de Michael Haneke. Interpretações amadoras, edição tropeçante, ausência completa de sutileza, clichês para dar e vender... As “noites de crime” são um banho sangrento de tudo que já vimos mil vezes no território terror-ação. Não se pode negar, entretanto, que há algo de visceral na ideia de partida. E que alguns dos temas sugeridos merecem atenção. 

Em seu artigo “Violence, crime dystopia and the dialectics of (dis)order in The Purge films” (“Violência, distopia criminal e as dialéticas da (des)ordem nos filmes Uma Noite de Crime”), Liviu Alexandrescu sugere que, apesar da crítica óbvia ao ultraconservadorismo, a franquia também pode ser lida como um ataque ao liberalismo, com seu belicismo disfarçado na forma de liberdade individual e livre competição. Basicamente, a filosofia do “matar ou morrer” praticada em sua versão extrema. Recorrendo ao conceito de carnavalização de Mikhail Bakhtin e de carnavalesco criminal de Mike Presdee, Alexandrescu também analisa como a descarga ilimitada de pulsões agressivas no Expurgo justifica os outros dias mais castradores; caso não houvesse essa válvula de escape, talvez a hostilidade se espalhasse pelo resto do tempo. Portanto, algo semelhante ao que ocorre com o Carnaval, cujos excessos são logo “corrigidos” pela Quaresma, e tudo volta ao seu controlado normal até o ano que vem – ou até o próximo Carnaval fora de época. 

Somadas à violência diversificada, máscaras e fantasias usadas por assassinos à solta durante a data comemorativa – sim, o Expurgo é considerado uma celebração – constituem outro aspecto carnavalesco e talvez sejam as principais responsáveis pelo efeito de “arrepiar” dos filmes. Estes, porém, foram tendendo cada vez mais à ação do que ao suspense e ao horror. Além dessa mudança gradativa, o viés coletivista do último filme parece bem diferente do intimismo lá de 2013, quando vimos Hawke tentando salvar sua família rica das garras de invasores mal-intencionados. “Que fantasia macabra”, pensamos, “o que será que faríamos no lugar deles”. Agora, à luz de tudo que o Ocidente viveu nos últimos oito anos, Uma Noite de Crime – A Fronteira mal parece distópico. Das duas, uma: ou The Purge deu voltas e já está quase realista, ou nós é que demos voltas e já estamos quase distópicos. Enfim. 

É possível ver os quatro primeiros filmes em plataformas de streaming. No momento, Uma Noite de Crime – A Fronteira pode ser alugado on-line, mas logo estará disponível também.

Um comentário:

Unknown disse...

Como sempre,as análises da Cynthia são muito boas,o seu conhecimento sobre filmes,nós dá uma visão muito mais abrangente e profunda,como nesse filme,que considero particularmente horroroso,mas infelizmente,um retrato muito real,do mundo que estamos vivendo.