2 de dez. de 2021

Sobre buscar o caminho de dentro, e encontrar todos os outros: ‘O Livro dos Prazeres’ (2021)

Por Isabel Peixoto 

 

No longa brasileiro O Livro dos Prazeres (2021), adaptação do livro de Clarice Lispector Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres (1969), com direção de Marcela Lordy, vemos a jornada de Lóri (Loreley) no Rio de Janeiro, tentando se distanciar do passado no interior e navegando as águas incertas da vida: solidão, luto, perdas, busca da independência, incerteza e frustração amorosa. 

Lóri, interpretada por Simone Spoladore, está vivendo em um apartamento gigantesco, com vista para o mar, porém, tão grande quanto o apartamento é o vazio que perfura a vida da personagem. O imóvel deixado por sua mãe, que faleceu, guarda um quarto com memórias, cadernos, mapas, uma máquina de escrever, quadros, entre outras coisas. 

Ao longo do filme, Lóri vive uma angústia profunda, é possível identificar uma analogia com o estado do apartamento, a princípio vazio, quase sem mobília, escuro e silencioso. Uma mulher sozinha, professora do ensino fundamental, na casa dos 30, que se deita em seu colchão estendido no chão da sala, e entra e sai do apartamento como se não vivesse realmente ali. 

Entre amantes casuais e a sala de aula, Loreley se vê em um dilema ao começar a se interessar por Ulisses (Javier Drolas), um professor de filosofia argentino, prepotente e intrigante, que a leva a enfrentar a barreira auto-imposta entre a vida que leva e a que deseja levar. 

Uma ambientação na cidade do Rio de Janeiro conta com um silêncio desconcertante, que de maneira geral é incomum para histórias que se passam na calorenta cidade litorânea. Os silêncios, ao que parece, buscam representar as lacunas na vida de Lóri, a falta da mãe, a difícil relação com a família e o passado, a busca por amor-próprio e por uma relação real e verdadeira. 

O irmão de Lóri, Davi (Felipe Rocha), é a figura que representa sua família controladora e a relação distante que possuem. Um homem machista e condescendente, que visita a irmã na capital, julga suas escolhas pessoais e profissionais, enquanto trai sua esposa, que ficou no interior. 

Davi incomoda bastante Lóri ao escolher o apartamento como lugar para trair sua mulher, mas acaba por trazer algumas questões internas da protagonista à tona durante sua visita. O irmão lhe diz que a mãe sempre viveu “no mundo dela com os livros e as pinturas” e “sempre fez o que quis”, visão que contradiz bastante com a da irmã, que achava que a mãe sempre viveu em função da família. 

Enquanto Lóri dorme com diferentes parceiros, em relações rasas e fugazes, vai entendendo o que realmente quer: de maneira dolorida ela escuta de Ulisses que deve decidir como quer viver, e somente quando descobrir é que ela deve procurá-lo. 

Uma mulher que demonstra medo de viver, que revela nunca ter mergulhado no mar quando Ulisses lhe diz que ela tem nome de sereia, que parece ter receio de entrar numa relação realmente significativa, extremamente sozinha e perdida, vai descobrindo à medida que mexe nas lembranças deixadas pela mãe seu próprio valor. 

A atuação de Spoladore é verdadeiramente marcante, sentimos a aflição sufocante de não saber qual caminho tomar, a indecisão entre aquilo que queremos e as coisas que estamos dispostos a abrir mão para conseguir. A jornada de uma mulher é sempre transpassada por outras dores. Na série da BBC, Fleabag, a protagonista escuta, de uma mulher mais velha, uma frase que cabe bem aqui: 

“As mulheres nascem com a dor. É o nosso destino físico: dores menstruais, mamas doloridas, parto, sabe. Levamos dentro de nós ao longo das nossas vidas, os homens. Eles têm que procurar, inventam todos esses deuses e demônios só para se sentirem culpados por coisas, o que é algo que fazemos muito bem sozinhas.” 

Ao longo de sua jornada Lóri descobre que a dor da decisão vale mais a pena do que viver em cima do muro. Amigos rasos, relações voláteis e a mesmice do dia a dia começam a se tornar tão maçantes que a única opção é a mudança. 

(E a partir daqui vou dar spoilers!!! Caso não queira saber o final do filme, corra pra assistir e volte pra terminar de ler!).


 

No final do filme vemos uma nova Lóri, uma mulher que mergulhou no mar sem medo, que escolheu amar de verdade e se entregar por inteiro. Uma professora mais dedicada e feliz, pronta para fazer a diferença na vida de seus alunos. 

A narrativa, que por vezes é incômoda demais, nos leva, assim como a maioria das coisas na vida, a um lugar mais tranquilo. Parece ser o ritmo geral das coisas, em Clarice, e em minha experiência pessoal, o turbilhão de coisas por vezes precede algo melhor. 

É claro que esse não é sempre o caso, finais felizes são difíceis de encontrar no meio da rotina corrida, do trabalho, das responsabilidades. Mas, caso você decida embarcar numa montanha russa de sentimentos por quase duas horas, esse é o filme certo!

Não deixe de ler o livro de Clarice Lispector caso queira se aprofundar um pouco mais na história de Loreley!



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