21 de dez. de 2021

Sobre as novelas de 'O deus das avencas', de Daniel Galera

Por Whisner Fraga 

Daniel Galera (1979) é um escritor e tradutor literário paulistano radicado em Porto Alegre. Autor de, entre outros, Até o dia em que o cão morreu (Livros do Mal, 2003), Mãos de cavalo (Companhia das Letras, 2006)Barba ensopada de sangue (Companhia das Letras, 2012), livro do ano do Prêmio São Paulo de Literatura, Meia-noite e vinte (Companhia das Letras, 2016) 


Este novo livro de Galera é composto por três novelas. Na primeira, intitulada “O deus das avencas”, título extraído da música “Pelos olhos”, de Caetano Veloso, o casal Manuela e Lucas espera um filho. A gestação está na reta final e Manuela deseja um parto humanizado, com a ajuda de doulas, de amigas e do companheiro. A história se passa em Porto Alegre, em 2018, às vésperas da eleição que decidirá o novo presidente da república.  


Manuela é professora de literatura na PUCRS e Lucas é jornalista free lancer, atuando como ghost writer. Enquanto aguardam o aumento da dilatação para se encaminharem ao hospital, decidem desligar a Internet, e, de certa forma, se isolarem dos amigos e familiares até o nascimento da criança. Em meio a esta convivência íntima, de muito diálogo e companheirismoo casal prevê ou fantasia algum tipo de caos social, desastre climático ou rompimento com o estilo de vida urbano.  


Há um clima de medo, de impotência, de desafio nesta novela. Com parágrafos longos, com muitas descrições, o autor cria um ambiente um pouco melancólico, como se a humanidade caminhasse inevitavelmente para a intolerância ou para a extinção, em última análise. O nascimento de uma criança, que poderia significar esperança, também é motivo de angústia para eles, pois se sentem despreparados para tamanha responsabilidade. Esta primeira novela é narrada em terceira pessoa por um narrador onipresente, que sabe de tudo o que acontece. 


Na segunda novela, intitulada “Tóquio”, a trama se passa em um futuro próximo, na cidade de São Paulo. O narrador em primeira pessoa está em uma reunião de um grupo de apoio e carrega a mãe em um dispositivo ovoide. Ou, se não necessariamente a mãe, ao menos a consciência dela, que foi transplantada para o objeto, chamado de pupa. As pessoas ali tentam compreender como será a interação com a memória das pessoas queridas. 


O planeta está devastado, algum tipo de praga contamina tudo, superbactérias matam aqueles que vivem fora de ambientes controlados, há um novo tipo de sociedade, mas ainda sem ter superado as divisões de classes e outras características do passado. O narrador tem uma fazenda urbana, ocupando dois andares de um edifício e lá cultiva hortaliças e cria peixes. Com a escassez de matéria-prima e outras crises, as empresas que prestam este tipo de serviço, de transferência de dados cerebrais, fecham e passam a entregar as cópias destas mentes aos responsáveis legais. 


O projeto inicial de fazer o upload dessas informações em um humanoide, e por consequência atingir a imortalidade, tem de ser abandonadoPor meio de descrições, longos parágrafos, diálogos profundos, há um questionamento sobre o que é a vida (ou o que se tornará), sobre existir ou não, segundo os ensinamentos do filósofo chinês Confúcio ou então do físico austríaco Schroedinger, sobre identidade, configurações de relacionamentos.  


A terceira novela, intitulada “Bugônia”, apresenta ao leitor o planeta em um futuro distante, pós-apocalíptico. O título remete a um antigo ritual mediterrâneo, baseado na crença de que as abelhas foram geradas espontaneamente da carcaça de uma vaca. Narrado em terceira pessoa, conta a história do Organismo, um grupo de indivíduos que vive em simbiose com a natureza. Há uma peste do sangue, neutralizada pelo necromel que abelhas produzem após se alimentarem de cadáveres. O grupo está dividido em crenças aparentemente não antagônicas, há uma líder chamada Velha, que vai perdendo aos poucos o controle e o comando da comunidade. Enquanto isso, a menina Chama vai descobrindo que tem um importante papel nesta nova civilização.  


Em uma linha temporal crescente, em que a primeira novela ocorre no quase-presente, a segunda num futuro próximo e a terceira num futuro mais distante, percebemos que o tema principal do livro é a vida em comunidade e as transformações da sociedade frente a problemas econômicos, políticos e ambientais. É como se as escolhas da primeira novela, o desrespeito com os outros, com os animais, com a natureza, desembocasse no mundo da terceira novela. 


Há uma crescente perda de protagonismo dos homens, ele deixa de ser superior aos outros animais para tentar viver em harmoniaUma trégua precária, pois os acordos não são mantidos para sempre, como se acreditava que deviam ser. Há um fracasso nos planejamentos diante do menor imprevisto, ainda que essas mudanças de rotas sejam apenas para beneficiar o próprio homem, em primeira instância. Importante notar que, mesmo essas sociedades do futuro, não conseguem romper com padrões da civilização anterior, há sempre heranças de outros tempos, num claro recado de que o presente não está deslocado na história. 


Daniel Galera constrói uma metáfora poderosa da encruzilhada em que a humanidade se encontra: ou compreende que faz parte de um ecossistema e não é superior a ele nem manda nele ou caminhará para o inevitável aniquilamento. Para mim, este é um livro de um autor maduro, que dá continuidade a um projeto literário muito bem arquitetado desde a primeira obra.

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