30 de dez. de 2021

‘Psicopata Americano’ – uma entrega à vontade de matar

 

Por Iasmim Assunção 

Para Platão, a catarse (do grego kátharsis) aborda a libertação da alma por meio do desprezo do prazer para que o conhecimento verdadeiro seja alcançado por um indivíduo. Já para Aristóteles, a sequela de uma tragédia alivia a alma – também pode ser destacada a expressão “renova a essência” – ao suscitar emoções como terror e piedade. Tendo isso em conta, o filme de horror sátiro Psicopata Americano propõe uma discussão sobre a aguda falta de empatia do protagonista, que se desenvolve em um processo contrário à eliminação de sentimentos ruins através da catarse. 

A obra cinematográfica, dirigida por Mary Harron e estrelada por Christian Bale,  lançada no ano 2000, apresenta em seus minutos iniciais um traço significativo do perfil psicológico de Patrick Bateman, o personagem principal. Em uma cena demorada e detalhada, Patrick dialoga com si mesmo acerca de sua rotina matinal incluindo a preocupação com sua imagem para que se encaixe na normalidade: ele usa máscaras faciais que combatem as marcas do envelhecimento – apesar de estar ainda em seus 27 anos – e pratica exercícios para manter a formosura de seu corpo. O personagem se esconde sob a aparência para que não deixe transparecer que não possui qualquer emoção identificável de um ser social.  

Ex-aluno da prestigiada universidade Harvard e filho do dono da empresa na qual trabalha, Patrick está em posição de privilégio. Branco, rico, bonito e jovem, que em um primeiro momento critica a hipocrisia de seus colegas em seus discursos – usualmente antissemitas e racistas – sobre problemas sociais, mas o próprio assume uma postura desagradável contra as mulheres. Patrick Bateman é consumido por uma idealização de sua superioridade, alimentada pelos ambientes socioeconômicos que frequenta. Seus colegas estão em constante competição pelo materialismo e por exclusividade, então se relacionam por conveniência; o protagonista não é diferente em sua busca agressiva de ter mais e do melhor. Além disso, Patrick se posiciona como dominante sobre as mulheres durante suas relações íntimas – nas quais aproveita para ficar se olhando no espelho – , já que considera o sexo feminino superficial. Ele até mesmo tem uma noiva, tipificada como patricinha e um acessório, que o trai e é traída.  

Durante o desenvolvimento contextual da narrativa, Patrick admite que a façanha que sustentava para aparentar sanidade está resvalando. Enquanto no início do filme Patrick achava vantajoso ser confundido por outra pessoa – tendo em mente que até ali ele era capaz de conduzir suas obrigações sociais –, no meio da trama o protagonista fica zangado ao ser tratado por Paul Allen, um funcionário com maior poder aquisitivo, como se fosse outro homem. Ressalta-se que em múltiplas vezes os personagens masculinos, burgueses na hierarquia da empresa, são indicados como cópias uns dos outros. 

Patrick – movido pela inveja e conhecimento de sua incapacidade de sentir remorso –, então, planeja o primeiro assassinato do filme, cena com a serra elétrica que se tornou uma icônica releitura de Psicose do Hitchcock. O sonho americano – uma variedade de ideais de liberdade incluindo a chance para prosperidade e maior mobilidade social para as famílias, alcançada através de trabalho duro –, estereotipado inicialmente em Patrick Bateman, se corrompeu com seu instinto violento e sua arrogância, incorporados durante o assassinato de Paul Allen, em que Patrick dialogava sobre música clássica e usava uma capa de plástico para proteger seu terno do sangue jorrado. 

Nos momentos seguintes, o desaparecimento de um homem influente como Paul Allen passa a ser investigado por um detetive contratado por sua namorada. O detetive suspeita principalmente das contradições na linha cronológica que Patrick usa para se esquivar, mas ele não possui fácil acesso a Patrick para fazer seu trabalho adequadamente. 

Conforme se entrega à vontade de matar, Patrick esconde os corpos destroçados de suas vítimas, majoritariamente prostitutas, no armário do apartamento sofisticado de Paul Allen. O personagem principal comete execuções em uma sequência descontrolada até que um erro o leva a ser perseguido pela polícia; admitindo ser um homem doente, Patrick confessa em prantos seus crimes à caixa postal de seu advogado. Cortando para o dia seguinte, em que Patrick acorda confuso por não ter sido capturado, ele retorna ao apartamento de Paul Allen e encontra uma surpresa: o lugar, limpo, sendo apresentado por uma corretora para uma família interessada em comprá-lo.  

O Psicopata Americano, preocupado consigo mesmo, encontra seu advogado em uma confraternização junto aos homens da empresa, já que nesta as mulheres eram apenas secretárias. O advogado acreditava que a mensagem de voz fora apenas uma brincadeira, considerando que almoçou com Paul Allen em uma viagem a Londres, onde Paul estava morando. O advogado confunde a identidade de Bateman com o próprio em sua frente, chamando-o de covarde, incapaz de ser um assassino. 

É dessa forma que o espectador capta a fantasia criada pelo enlouquecido Patrick Bateman. O filme termina assim como começou, com seus desejos violentos e desenhos macabros em seu diário. A confissão do psicopata nunca provocou uma catarse.

Um comentário:

Carol Perdigão disse...

Incrível, Iasmin!
Continue brilhando?! :)