30 de nov. de 2021

Um mergulho nas camadas do filme ‘Honeyland’

Por Keyme Lourenço

Honeyland é um filme do gênero documentário ficcional, gravado no norte da Macedônia por três anos. A obra registra enquanto ficcionaliza a história de vida de moradores que vivem praticamente isolados em vilarejos em ruínas. A relação dos seres humanos com os seres não-humanos é o principal ponto tocado pela história, que registra como os contratos entre seres são construídos e cumpridos, e também os riscos que suas quebras podem ocasionar para a vida de todos.

Os dois codiretores[1] do filme realizaram uma pesquisa para construção de um documentário ambiental e encontraram uma moradora quase solitária e decidiram registrar sua vida e seu modo de vida. A equipe do filme passou três anos no local para os registros. O filme ganhou o prêmio Sundance World Cinema e é o primeiro filme da história indicado ao Oscar de melhor documentário e melhor filme estrangeiro simultaneamente.

Tudo acontece graças a Hatidze, uma personagem real que mantém cuidadosamente colmeias de abelhas, coexistindo com elas, com a mãe, com o meio rural, com as montanhas e com a vegetação. Hatidze e a mãe vivem em uma pequena casa sem água corrente ou eletricidade, em uma aldeia aparentemente abandonada. Em visitas episódicas à maior cidade da região, Skopje, se constituem os raros momentos em que ela vê outras pessoas, pega ônibus, observa cabelo punk, taxis, usa faixa de pedestre, escuta buzinaço e sirene e vai à feira. Seus olhos brilham entre as barraquinhas, pode vender o mel que extrai e compra com o dinheiro da venda coisas para a sobrevivência e consumo, como tinta de cabelo, leque preto e banana.

De volta ao campo, a calmaria de Hatidze tem uma pausa com a chegada de novos vizinhos. Eles parecem ser nômades, e durante a sua chegada e instalação, outros agenciamentos para aquele território são desencadeados em busca de novas expressões para o próprio território. É um reterritorializar no próprio processo de desterritorialização.

Os nômades são aqueles que se espalham, aqueles que se distribuem no próprio ato de colocar-se no mundo. A distribuição nômade é rizomática. Os modos como percorrem os pontos num mapa não são prévios e transcendentes, mas se fazem na própria ação de vaguear. A territorialização dos vizinhos na terra, as intensidades se definindo através de certas matérias de expressão e o nascimento de mundos nesse processo provoca em Hatidze uma desterritorialização da sua relação com a terra: os territórios vão perdendo forças de encantamento, há mundos que se acabam e partículas de afeto são expatriadas, sem forma e sem rumo.

E é justamente por sentirmos tão facilmente a simplicidade da personagem que vemos um contraste em Honeyland tão duro e denso. Apesar de se tratar de um documentário, os dois diretores delineiam o filme com uma narrativa poética, que nos faz desperceber, durante a cinecartografia, que se trata de um documentário de cenas reais. A presença dos diretores e das filmadoras é discreta e neutra, não percebida: não há sombras da câmera, nem de quem grava, invadindo as imagens; os personagens nunca conversam com a câmera ou olham para ela.

De que maneira quem filma observa seus personagens e o seu local? De perto, adentrando a intimidade, possivelmente interferindo no cotidiano e interagindo com o espaço filmado? Mesmo em momentos mais tensos, como quando o patrão propõe ao pai da família tirar mais mel do que deve, a câmera e a presença dos diretores não interferem no tom do pedido. Sem se impor, ou até mesmo expor, como quando a mãe mentiu dizendo à Hatidze, logo após perder todas suas abelhas, que o filho mais velho extraiu mais do que devia do mel, sendo que quem o fez foi o pai.

De longe, como se não fosse percebido, e quem sabe até espiando?  Fazendo-se presente ou buscando a invisibilidade? Com a quantidade de materiais coletados em três anos de captura, eles poderiam construir e criar infinitas narrativas sobre a vida de Hatidze, das abelhas, da mãe, das crianças, das rochas, das colmeias, das vacas, dos ferrões.

O tempo é algo integrante do cinema, não apenas no sentido da duração do tempo dos takes, mas no sentido de espera, no sentido da captura das imagens, da filmagem. As fronteiras entre os territórios, dos personagens, dos diretores e dos seres que atuam no filme, vão se desfazendo nesses entres: elas se ultrapassam, se atravessam, delimitam e redelimitam os limites dos territórios, vão fugindo umas das outras.

Estes questionamentos se tornam pertinentes durante os caminhos percorridos na cinecartografia de Honeyland, há algo muito singular na obra, fertilizada pela questão do posicionamento do olhar. A câmera segue a personagem por penhascos íngremes em plano médio, quando ela sai em busca das colmeias ou de lenha no campo. Também se faz presente dentro da casa de pedra em primeiro plano e ao lado da cama da mãe doente, ou captando os olhares suspeitos da personagem, em primeiríssimo plano. Seja de dia, seja de noite, tanto no vilarejo em ruínas, quanto na cidade.


[1] A direção do documentário Honeyland é de Tamara Kotevska e Ljubomir Stefanov. Este é o segundo trabalho em conjunto entre os diretores, que captaram as filmagens do filme durante três anos, atingindo um total de 400 horas de filmagem. O filme foi originalmente planejado como um curta-documentário financiado pelo governo Macedônico, com o objetivo de ser um relatório sobre o rio Bregalnica e a preservação ambiental da região circundante no município de Lozovo, ao Norte da Macedônia. Mas o foco da obra mudou quando os diretores conheceram Hatidže, mudando assim a ideia, reunindo outros investimentos e apoios para a finalização como longa-metragem. Uma entrevista online com os dois diretores e Hatidze comentando sobre o processo de criação do filme está disponível em: https://www.slobodenpecat.mk/medena-zemja-snimaneto-na-filmot-gi-promeni-nashite-zhivoti/.

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