28 de nov. de 2021

Três micronarrativas de Adrianna Alberti

Meia-noite

Havia essa história na família, tirava risos da maioria, mas dela em particular, sempre um arrepio de medo. Naquele dia houve uma limpeza, daquelas que arreia a energia de todo mundo ao redor e faz necessário banhos, velas e pelo menos dez dias de sossego. Tinha que acabar no cemitério, como esse tipo de coisa exige. Lá, na hora H, a mulher se acovardou. O clima era denso, talvez pelo som silencioso que percorria as tumbas, mas ela xingou, virou de costas e disse que ia esperar no carro. Disse, mas não chegou a dar três passos, seu moço a tombou, gargalhando no portão de ferro, tremendo o corpo inteiro. Pois, que catou o que precisava e num salto digno pulou o muro, caindo com graça do outro lado. Foi-se ouvindo a risada até as velas acenderem no cruzeiro.


O aviso ignorado

Era noite quando o rapaz voltava para casa, vinha da escola. E não é que ele fosse inocente, mas sua cara era arredondada o suficiente para ser entendido como gente que não tinha crescido ainda. Ele conhecia os avisos, em tese. As luzes que piscavam, ou a risada suave no fundo da mente, às vezes era um cheiro ruim de cachaça, outras, uma sombra rasteira de canto do olho. Naquela noite ele, cagado de medo, entendeu errado. Lá longe, na esquina tinha um homem agachado no muro sujo, a fisionomia nada visível na intermitência da lâmpada fraca. Ao invés de voltar, ele seguiu, rápido. Nem sete minutos depois, uma dupla chinfrim, magricela e de bicicleta o parou, foi-se o celular que nem pago tinha sido. A gargalhada ecoou. Mas já era tarde para entender o aviso.


À imagem dela

Aquele bar era sempre cheio, mas naquela noite de quarta-feira e fria, só tinha meia dúzia de gato pingado, só uns velhos todos barriga e careca e álcool, e os dois. O bêbado veio em sua direção, sorrindo tímido, pedindo licença. Você parece uma daquelas deusas, sabe? Desculpa falar isso assim, mas seu cabelo todo vermelho, sabe? Toda primavera. Ela agradeceu sem graça, enfiando as mexas castanhas escuras atrás das orelhas, mas o amigo ao lado parecia encantado. Quando o homem saiu, o sorriso dela surgiu. É engraçado, porque não fui eu quem ele viu. O amigo a olhava em dúvida, sem questionar, ela era uma garota estranha. Naquela noite, quando a observava ir embora, ele jurou que ali tinha uma mulher com vestido vermelho ao vento, cabelos rebeldes soltos e uma gargalhada ecoando na rua vazia.

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