8 de nov. de 2021

A solidão do poema & outros poemas solitários

Por Milton Rezende 

Tecno-poema

- Fala o poeta de vanguarda:
A estrutura do verso
está invertida
em meu caleidoscópio.
Preciso de uma máquina
rápida e perfeita para
fazer uma circuncisão mental:
      “Quero que a estrofe
      gravada ao jeito
      do vídeo cassete
      saia nítida,
      sem um defeito”.
 
- Fala a crítica especializada:
A infra-estrutura do verso
está evoluída
em meu laboratório.
Preciso de um computador
rarefeito e sem defeito
para efeito de análise poética:
“O crítico é um digitador,
digita tão completamente
que chega a digitar a dor,
a dor que sua mãe sente”.
 
- Fala o homem pensante:
A superestrutura dos acima
está equivocada
em minha concepção histórica.
Preciso de uma filosofia
autêntica e própria agora
para escrever um poema-amostra:
“A sombra projetada de um homem
exclui o mecanismo da repetição alheia,
pois a condição intrínseca dele mesmo
exige que seu poema se faça de ideias
e despreze a vida enquanto justificativa
para o erro de se caminhar junto ao tempo”. 
 
- Fala um observador imparcial:
Poesia significa
abrir caminho para o abismo
e pedir que nos devolvam
o nosso sonho antiatômico. 


A solidão do poema

O poema
necessita de um outro
poema
assim como o poeta
necessita
de uma con/vivência poética.
Os versos
não nascem do nada
assim, exclusivamente,
inspiração.
A noite
precede o sopro lírico
e ambos se integram
ao poema acabado.
O poeta,
este ser solitário,
desce das montanhas
de seus sonhos
para recolher os fragmentos
da realidade dos homens,
e com eles constrói no poema
uma unidade hipotética.

Do livro O Acaso das Manhãs (Edicon, 1986). Pedidos de exemplares pelo e-mail coisasprobule@gmail.com. Preço R$ 20,00 + R$ 10,00 frete = R$ 30,00.

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