10 de nov. de 2021

A escuta do feminino

Por Krishnamurti Góes dos Anjos

A caixa de Pandora é um mito grego muito antigo, no qual a existência da mulher e dos vários males do mundo são explicados. Tudo começa quando Zeus, o deus de todos os deuses, resolveu arquitetar um plano para se voltar contra a ousadia de Prometeu – que entregara aos homens a capacidade de controlar o fogo. Para tanto, Zeus decide criar uma mulher repleta de dotes oferecidos pelos deuses e a oferece a Epimeteu, irmão de Prometeu. Ao aceitar Pandora, Epimeteu também ganhou uma caixa onde estavam contidos vários males físicos e espirituais que poderiam acometer o mundo. Desconhecedor do conteúdo, ele foi alertado de que aquela caixa não poderia ser aberta em nenhuma hipótese. Com isso, o artefato era mantido em segurança. Após uma relação sexual entre os dois, ele caiu em um sono profundo. Nesse instante, não suportando a própria curiosidade, Pandora abriu a caixa proibida para espiar o seu conteúdo. Naquele momento, ela acabou libertando várias doenças e sentimentos que atormentariam a existência do Homem no mundo. Zeus concluía assim o seu plano de vingança contra Prometeu. Daí o imaginário humano ter atribuído à expressão "abrir a caixa de Pandora" o significado de "a origem de todos os males".

Muito bem, agora imagine você leitor, que vens caminhando ao longo de uma calçada e vê dentro de uma lixeira, um pacote vistoso, muito arrumadinho e bem lacrado com fita crepe. É mesmo um pacote singular. Aquilo espicaça sua curiosidade. Ainda mais se soubesse que naquele pacote há uma pasta plástica preta cheinha de papeis. Está dentro de uma sacola de palha, que por sua vez foi colocada cuidadosamente em duas outras sacolas de loja, tudo isso lacrado com fita crepe larga, gasta sem dó! Que haverá ali dentro prestes a desaparecer em um lixão? Registros de uma vida? Um folhetim, um novelón mexicano? Ou quem sabe até um guia de sobrevivência? Deve conter nitroglicerina pura!!! Você pode até, por recatos de higiene em tempos de pandemia, ou discrição, não abrir o pacote. Mas como Pandora... fica com uma vontade...

Uma mulher, 30 anos, atriz sem fama e sequer contrato, resolve escrever sobre suas vivências e personagens que habitam a região do Baixo Augusta - centro de São Paulo -, de inícios do século XXI. Pretende começar vida nova e reúne cartas, confissões, telegrama e fotos antigos. Tudo na lata do lixo e nas condições descritas. Esse parece ser o móbile – ficcional, ressalte-se – que impulsiona a atriz e escritora Cecília de Aguirre Carvalho – que assina Cica Aguirre –, em seu livro de estreia na literatura: Não quero escutar que me ama. 

No primeiro texto da obra, uma prosa poética à guisa de abertura e que traz o título de “Eu me arrependi tanto quanto aquele beijo que dei...!” E começamos a divisar o estilo da autora dentro do que observamos na literatura brasileira contemporânea, isto em linhas gerais. No aspecto específico dessa obra em si, somos impulsionados a abordar dois aspectos mais particulares que nos parecem importante ressaltar na obra, mais do que meros pressupostos teóricos e enquadramentos críticos de forma.

Quem acompanha a literatura produzida no Brasil nos últimos anos sente que – sobretudo em se falando de literatura produzida por mulheres (eu não escrevi literatura feminista), há uma nítida e legítima rejeição ao papel infringido historicamente às mulheres. Sente também o caráter de denúncia que certos textos comportam. E sente mais ainda, ao lado de motivos sociais, a ressignificação de elementos comumente associados à submissão da mulher em signos de sua libertação. E o uso de uma mescla de técnicas que não se enquadram em cânones clássicos (daí cada vez mais prosa poética e/ou poesia em prosa). Observamos adicionalmente – e não poderia ser diferente dentro do caldeirão infernal em que transformamos o mundo – que por ser uma construção social, por mais óbvio que pareça, reflete a sociedade, o tempo e a circunstância de sua produção. Percebe-se nitidamente o caráter reflexivo da relação literatura e sociedade nas molduras que têm sido construídas.

De há muito a mulher deixou de ser representada pelo discurso masculino. Passa a representar, ela mesma, seus próprios personagens e ideologias. E temos afinal a presença ativa – não mais cheia de subterfúgios – do eu que escreve e narra, portador de um ponto de vista próprio, que revela uma perspectiva feminina. Vozes com posição consciente acerca de seu papel social e do seu direito de expressão.  Parece estar mesmo em curso um processo de reconstrução da categoria “mulher” enquanto questão de sentido e lugar privilegiado para a atuação do feminino e para a recuperação de experiências emudecidas pela tradição cultural milenarmente dominante.

Dessa conjunção de sociedade e sentir feminino, parece-nos, se alimenta o vigor literário de Cecília Aguirre: uma literatura que em certa medida tateia em encontrar um estilo próprio na oscilação formal entre prosa e poesia, mas que tem o que dizer, percebe-se em larga medida. E não é pouco.  Em meio às explosões poéticas de uma sensibilidade muito antenada com sua época e seu meio, é quando a autora se inclina mais  para o campo da prosa que, positivamente, sentimos seu poder de criação, sua inventiva ao imaginar situações em que o humano se encontra a mercê de um  vazio existencial, de que é exemplo pungente o texto “Catarina”; quando o foco narrativo recai na falta de solidez nas relações humanas, como ocorre em “Cela forte” e “Estela”; ou quando desnuda a busca incansável de uma identidade não aceita pela sociedade, como é o caso de “Scarlet”, história de dor e sofrimento de alguém que durante o dia é um menino tímido, funcionário de um supermercado da rua Frei Caneca e à noite torna-se a Scarlet solitária das ruas. E, finalmente, quando nos encontramos em solidão irremediável, como lemos em “Alzira”, e na tragicômica vida de Dona Ondina.

Em outros textos a autora utiliza diferentes focos narrativos e, assim, consegue estabelecer um dialogismo entre a voz narrativa, as personagens e o leitor, porque não lança mão de uma prosa de vertente realista e brutal. Atinge efeitos tão ou mais eficientes na denúncia da violência circundante, como ocorre em “A pintora” e “Roteiro para cinema”. Resta-nos aguardar que a personagem que encarna um dos últimos textos, “Para saber quem eu sou”, venha mais vezes nos visitar. Há uma honestidade imensa ali da qual necessitamos sempre.

Voltemos finalmente ao mito de Pandora. Reza a lenda ainda que ela, logo que percebeu o erro que cometera, se apressou em fechar a caixa. Com isso, conseguiu preservar o único dom positivo que fora depositado naquele recipiente: a esperança. Dessa forma, o mito da Caixa de Pandora explica também como o humano é capaz de manter-se perseverante mesmo quando as situações se mostram bastante adversas.  Assim faz a autora de Não quero escutar que me ama. Transfundiu experiência em ficções e poesias que gotejam vida. Assim se pode, em proveito não somente de si, ouvir a nossa e tantas outras vozes criando força, repetindo, construindo, reconstruindo linha por linha, histórias que precisam mesmo ser contadas.

       

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