19 de out. de 2021

Certos casais – as variantes da intimidade

Por Whisner Fraga

Hugo Almeida (1952) é um escritor mineiro, desde 1984 radicado na capital paulista. É autor do romance Mil corações solitários, ganhador do Prêmio Nestlé de Literatura Brasileira em 1988. Este foi o maior prêmio literário do país nos anos 1980 e 1990. Também são de sua autoria os contos de Cinquenta metros para esquecer, o infantojuvenil Meu nome é fogo, entre outras obras.

Certos casais (Laranja Original, 2021) é uma coletânea de contos dividida em duas partes. O Livro I contém oito narrativas e o Livro II, apenas uma. Logo nas primeiras páginas notamos a influência de Dalton Trevisan: frases rápidas, curtas, flashes, que mais insinuam do que revelam. Claro que um autor do porte de Almeida não tem apenas uma influência, mas é a mais óbvia para o leitor. Ao mesmo tempo, as palavras são encadeadas de modo a favorecer a musicalidade, a poética, o lirismo.

Hugo é um escritor refinado, de maneira que é preciso mantermos a atenção ao que escreve, isso nos é exigido claramente. Nada mais justo do que dedicarmos nosso tempo a uma obra de arte, que certamente levou tempo para ser elaborada. Percebemos um trabalho apurado para conciliar forma e conteúdo e isso é raro em um escritor.

O primeiro conto, “O sono do vulcão”, é uma paulada. Já a primeira frase nos causa espanto: “Deus fez o mundo à toa?”, provoca o narrador. Pronto, já basta para ficarmos presos à trama. Numa narrativa curta, as primeiras frases são fundamentais, é ali que decidimos se continuamos a leitura ou não. Almeida sabe muito bem disso e domina a arte das histórias breves. Nesta narrativa, o professor Gilberto está casado, há um tempo razoável, com Tâmara. Como o título sugere, o desejo está inativo (não extinto). É real, portanto, a possibilidade de que um dia venha a apresentar algum tipo de operação. Gilberto parece fantasiar que massageia os pés de uma jovem e atraente companheira de viagem. É impressionante a construção da trama – tudo atua num limite entre a fantasia e a realidade, ou, de outro modo, a fantasia como suporte da realidade. Nós temos a visão de Gilberto sobre os fatos. Uma perspectiva evidentemente distorcida, parcial. É esta névoa que nos envolve: acreditamos? Duvidamos? Qual a interseção entre realidade e ficção? O quanto o narrador se afasta do autor?

O segundo conto, intitulado “Outra vida para dona Olímpia”, é tão bom quanto o primeiro. Nele, o autor narra o feriado de Olímpia em Diamantina. É Semana Santa. Esta senhora, recém-viúva, vai para Minas Gerais, porque a nora sugere o passeio. Alguns personagens de “O sono do vulcão” ressurgem, mas não são o foco da nova história. Olímpia observa o padre ministrar o sacramento da confissão a fieis e vê tudo com um olhar crítico. Aos poucos vamos descobrindo mais sobre a vida da mulher. Explicitadas por parênteses, há intervenções contínuas dos narradores. Aliás, é muito interessante o casamento também de elementos gráficos com a narrativa – parênteses, letras menores quando acontece algum sussurro, e assim por diante. Essas ousadias gráficas convivem em harmonia com um texto concebido e executado em cada detalhe.

Nos próximos contos vamos conhecendo um pouco mais das famílias de Gilberto e de Tâmara, dos filhos do casal, dos pais do casal: nos são apresentadas outras perspectivas sobre os mesmos fatos. Desde Mil corações solitários (e talvez até antes), Almeida conduz um projeto literário e, nele, está clara essa ideia das múltiplas vozes. Em “Fogo baixo, labareda”, última narrativa desta primeira parte, conhecemos as opiniões de Tâmara acerca dos eventos do primeiro conto. Tudo nos é, de certo modo, esclarecido e chegamos a aceitar como verdadeira (ou plausível?) esta última interpretação. Nós, leitores, tomamos inevitavelmente um lado, esta é a grande armadilha da obra e só um mestre poderia nos levar até este ponto.

As frases nem sempre estão completas, como na oralidade. Nós temos de extrair delas o significado faltante, temos de ser parte da construção de interpretações. Nós somos o interlocutor explícito, que preenche lacunas. Sonhos, desejos, ilusões, mentiras, fantasias se mesclando à realidade, tudo servindo a uma versão mais bonita dos fatos, como se todos os personagens estivessem em uma rede social e quisessem mostrar um mundo de devaneios, uma miragem, uma alucinação.

No segundo livro, continuando com este tema de casais e relacionamentos, está a história dos Curie, Marie e Pierre, igualmente romanceada. A vida em comum dos dois nos é apresentada de maneira idealizada, fugindo um pouco ao que aconteceu, segundo biografias publicadas, dando um verniz de idealismo e de sonhos, nos lembrando que mesmo a história pode ser (re)interpretada segundo um tempo e uma cultura. Sem citar que o objetivo da ficção é um tanto diverso.

Hugo Almeida resgata alguns personagens e temas de Mil corações solitários, trazendo-os a este novo livro. Isso nos mostra algo importante, ao que devemos, como leitores, estar sempre atentos: o grande escritor tem um projeto literário – a obsessão desfila sempre nas obras de um bom ficcionista. Não é apenas o estilo, é uma concepção, é um programa.


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