11 de jun. de 2021

O casamento

Por Krishnamurti Góes dos Anjos 

Como havia chegado antes do horário previsto para a cerimônia, deixei-me estar ali, à porta da chácara que fora estilizada para eventos, junto com o pai da noiva, que, radiante, ia recebendo os convidados. O bom homem não se continha de felicidade ao ver mais uma de suas filhas principiar nova etapa de vida e ia também apresentando-me. E assim conheci, e apertei mãos, e ganhei beijinhos e abraços inúmeras vezes. Diante de mim desfilou toda uma galeria de personagens. Havia desde o pequenino pajem, sobrinho da noiva, até um tio-avô. Crianças, adolescentes, casais, colegas de trabalho, tios, primas, amigos de amigos de fulano e fulana, de todas as cores, alturas e idades. Um verdadeiro filme ia se desenrolando dentro de mim com aquela pequena amostra dos mais variados tipos humanos. 

Era um sábado chuvoso, e como a cerimônia seria realizada ao ar livre, em um gramado muito florido, havia o temor dos transtornos do tempo. Os minutos iam se sucedendo sem que a noiva desse o ar da graça. Em dado momento, naquela balbúrdia que os convidados fazem questão absoluta de fazer, surge do nada um senhor já bastante idoso dizendo-se pai do noivo. Pai adotivo do noivo, afirmou ele ao tempo em que me apertava a mão. Uma voz feminina pouco mais atrás de mim perguntou a outrem: Mas e o pai do noivo? O verdadeiro morreu? Outra lhe responde: Não, menina, não é morto, não. Dizem que... E não pude mais ouvir porque uma terceira voz, também feminina, as interrompeu quase a gritar: Amélia, como você está linda! Está um arraso! Fashion! Isso durou segundos, pois logo outra criatura, creio que do cerimonial, começou a juntar casais e mais casais a formar uma espécie de fila de padrinhos. Minutos e minutos intermináveis se passaram, nos quais a gravata torturava-me ao pescoço. O terno, algo que não estou habituado a usar, me oprimia os ombros, e, para piorar a situação, o noivo em pessoa aproximou-se de mim e abraçou-me tão forte que pensei que me partiria os ossos. Disse-me: Estou muito feliz que tenhas vindo. Sabe? Chegar até aqui não foi fácil, uma luta terrível. Respondi-lhe: Pois bem, aí tens a merecida vitória que é o dia de hoje. Sorrimos afetuosamente, mas fomos interrompidos pela mestra de cerimônias, ou seja lá qual nome tenha, que implantou um raminho de flores no bolso do meu paletó, ao tempo em que ia juntando os casais de padrinhos — atualmente, são muitas as testemunhas — e eu no meio daquilo, sem par, sem ninguém, até que me chamaram pelo nome, e lá me fui ao ponto em que estavam três moças, aparentemente sem par — ou porque o gênero masculino está escasso, ou porque o número de mulheres supera o de homens, não sei. O certo é que me foi destinada como par alguém que me disse ter trabalhado com a noiva em tal lugar assim assim, e que eram muito amigas etc. Isso dito com a fila em movimento, que se postaria em determinado ponto até que se desse início à cerimônia. Na rabeira da fila ficaram de braços dados as outras duas moças. Todos ali eram amigos entre si, e eu pensava cá com meus botões se poderia perguntar a minha dama de companhia o que ela sabia sobre o pai do noivo, o verdadeiro. A moça à nossa frente começou um diálogo misterioso entremeado de sinais e risinhos com as duas moças do fundo. A que estava ao meu lado participava também, e a gravata a me apertar o pescoço, as orelhas a queimar, meu Deus! Que aflição! E nada da noiva. Até acontecer um fato insólito. A moça que estava com o braço metido no meu, em determinado momento, disse para a organizadora do evento: olhe, vou trocar de lugar com minha amiga aqui de trás e vou com a outra amiga. Assim a vida às vezes nos prega peças, inverte papéis no último instante, embaralha os dados do acaso. Seja como for, depois de tantos e tantos anos vividos não consigo entender as mulheres. Francamente. Ela de modo muito delicado retirou o braço do meu: Minha amiga aqui vai com você. E foi então que outro braço meteu-se no meu, e vi uma menina linda, bem ao meu lado, e que sorria e lançava olhares insistentes para os fios grisalhos de meus cabelos. A gravata se me afigurava como a corda de um enforcado. Começou a tocar a música de entrada dos padrinhos, seguidos pelo noivo e respectiva mãe, depois entrou o pai adotivo do noivo com a mãe da noiva, e todos a esperar. Nesse ínterim, pouco me foi possível falar com Mara — este o nome do novo par —, a não ser da minha preocupação com o horário do retorno. Estava em outro estado, a cinco horas de viagem, e se aproximava a hora marcada com o motorista que me levaria de volta até a rodoviária. Quando sentamos em cadeiras próximas ao altar, pedi a Mara que, no momento oportuno, explicasse à noiva minha ausência na festa. Por fim surge a noiva, caminhando com o pai até o altar. O noivo lhe estende a mão, e, nesse exato momento, ante um olhar ao relógio, aflijo-me mais ainda: era a exata hora marcada com o motorista. Era preciso uma atitude. Como retirar-me sem ser notado? A isso poderia contornar de modo satisfatório pois os olhares estavam voltados para os noivos. Mas como abandonar uma companhia tão linda e de modo tão repentino? Retirei com cuidado o raminho de flores de meu paletó e disse: Para você, obrigado pela companhia. Ela, depois de olhar muito séria para o raminho disse: Obrigado, boa viagem.

*

Sentado no escuro do ônibus, folguei a gravata e recordei-me de tudo e de tanto que havia se passado há pouco e ao longo do tempo. Estive a pensar em todas aquelas pessoas que certamente fariam parte de um passado que ia se esfumaçar no tempo de minha memória. Alguns, sim; outros, não. Só o tempo, senhor dos destinos, dirá. Fiquei a pensar no rumo que aguarda os noivos, a torcer que se entendam, que se compreendam e, sobretudo, se amem da maneira mais ampla possível, transformando a atração e o desejo da juventude em uma grande, madura e duradoura amizade. Difícil, bem sei, nesse tempo que atravessamos, em que tudo anda conspirando contra uniões. A tônica tem sido a desunião, a dissensão, a dissolução. Inopinadamente recordei-me da linda menina que estivera ao meu lado por poucos minutos a me fazer companhia, que mal sei quem é. Revi os pais da noiva de pé naquele altar e imaginei quantas e quantas dificuldades e tropeços passaram em suas escolhas e decisões até chegarem ali, a empurrar a roda furiosa da vida no sentido da continuidade da espécie, afinal, é também para isso que estamos aqui. Recordei-me afinal do pai do noivo, o tal ausente, o que será que dizem dele? Que destino terá tomado dentro da cabeça das pessoas? Quais estradas espinhosas terá ele seguido?

*

Na rodoviária, estou exausto depois de mais de dez horas sentado entre idas e vindas. Meia-noite. Um enigmático dia se anuncia. Ajusto o maldito paletó e lembro-me mais uma vez de Mara, desejando muito que ela também um dia se case e seja feliz para sempre como nos contos de fadas, que nada mais são que belas metáforas (ou sonhos vãos, que seja, mas ainda assim sonhos) de nosso eterno anseio. É quase uma da manhã quando entro finalmente em casa. Jogo o paletó sobre o sofá e, antes de estirar-me na cama, olho na estante dos livros um porta-retratos amarelecido pelo tempo. Nele a fotografia do homem que se casou hoje quando tinha quatro anos. Penso comigo: os olhos dele me pareceram um pouco mais escuros que no dia em que ele saiu da sala de parto.

2 comentários:

Milton Rezende disse...

excelente este conto!

Unknown disse...

Góes, excelente conto e muito envolvente a história.
Parabéns!