19 de mai. de 2021

Meus olhos verdes (folhetim romântico) – Parte 7

Por Rogers Silva

26 –

O tempo ia passando e a monotonia começava a entrar no namoro de Jéssica e Geisel. De um namoro totalmente prazeroso, em seis meses, passou para um relacionamento seguro e menos intenso. O sentimento ainda continua – achava ele. O que passou foi a exaltação da paixão. Mas Geisel sabia que a maioria das relações era assim mesma. Começava no alto, depois descia gradativamente. O importante era ter isso em mente – concluía.

27 –

“Tá acontecendo alguma coisa entre você e a Jéssica? – perguntou Marina, dentro da sala, no meio de uma aula de Geografia do Brasil Centro-Sul.” “Por quê? – estranhou Geisel.” “Não, é porque... Nada não, deixa pra lá...” “Por quê? Como assim?” “Vocês brigaram? Sei lá, terminaram o namoro?...” “Não... Quero dizer... Antes de ontem nós brigamos, mas foi coisa de nada, sem importância. Por quê?” “Não, é porque ela tá diferente.” “Diferente como?” “Ah, sei lá. Diferente...” “Como assim?...” Foram interrompidos pelo professor. Disse que estavam conversando demais. Antes de a aula terminar, Marina havia ido embora.

28 –

No sábado próximo, no começo de setembro, Geisel chamou a namorada para realizarem um programa diferente. Viajar durante o final de semana, sei lá... – e tentava dizer que queria alguma coisa incomum, algo que nunca tinham feito. A moça não pensou em nada, indiferente ante a proposta dele falou que neste final de semana não poderia ir. “Como está a faculdade? Está tudo bem lá? – perguntou ela.” Os dois estavam no shopping, sentados no meio da praça de alimentação, lanchando. Geisel estava em seu horário de almoço. Ele, então, chamou-a para irem ao cinema hoje à noite. “É... Talvez... Estou adorando o curso de Psicologia – disse Jéssica, que havia passado no vestibular de julho.” Começara o curso no começo de agosto. Também falou sobre minicursos, palestras, reposição de aula no sábado, entre outras coisas. Por estar perto do namorado (aproveitava a curta distância e) passava a mão direita nos seus cabelos e pescoço. Antes de se levantar e sair, disse que o amava e ligaria para ele mais tarde, após o serviço. Geisel, ciente de que precisava fazer algo ou o namoro esfriaria de vez, pensou em dizer que também a amava. Não disse. Jéssica, os característicos olhos castanhos, olhou-me tão carinhosamente (e nesse olhar percebi uma sutil ironia) e deu-me um beijo demorado. Estremeci.

29 –

Jéssica não ligou na noite combinada nem nos dias posteriores. Ficaram uma semana sem se falar. O namorado achou estranha sua atitude, porém também não fizera questão de tentar falar com ela durante esse tempo. Depois, quando se encontraram: “O que tá acontecendo? – ele perguntou.” “Como assim?” “Como assim? Sabe muito bem do que estou falando. Você anda desligada, estranha...” “Deve ser o curso, está meio apertado ultimamente. É, deve ser isso...” “O bom é que você age como se nada estivesse acontecendo.” “Ah, Geisel. Você se afastou de mim, diminuiu o carinho, a atenção... Você mudou...” “Como assim eu mudei? Eu não mudei nada. Não sei onde você acha que mudei – inquieto, ele.” “Ah, sei lá... Só sei que você mudou muito. Muito mesmo – indiferente, ela.” Silêncio. Jéssica continuou: “Sabe o que é engraçado? Por mais que se controle às vezes, você ataca para se defender. E nem percebe...” Novo silêncio. “Tá muito difícil conversar com você. Muito difícil mesmo. Sabe que gosto muito de você, que sempre te respeitei, fiz de tudo pra que estivéssemos bem, mas... Insiste em falar que mudei... Pelo jeito que as coisas vão, prefiro que a gente termine do que... – Geisel disse e desviou o olhar.” Estavam na casa dele, dentro do quarto, sentados na cama de casal. Só o espelho grande os olhava. Ela, depois da proposta, mudou bruscamente o semblante: de indiferença à preocupação. Após alguns segundos meditativa, sorriu e disse: “Larga de ser bobo... Que terminar o quê... – abraçou-o e deu-lhe um beijo no rosto. – Gostamos um do outro, pra quê terminar?” “Mas...” A namorada interrompeu-o dando-lhe um beijo e deitando seus corpos na cama. Fizeram amor como poucas vezes tinham feito até então.

Depois disso, tudo pareceu voltar ao normal no relacionamento do casal. Saíram mais vezes: shopping, bares, restaurantes, parques, motel, viagens etc. Tentavam, assim, não deixar o namoro entrar na apatia. Por meio de olhares, presentes, atitudes, Jéssica transmitia o ar apaixonado do início do relacionamento. Geisel também: tudo ao seu alcance era feito para prolongar o mesmo sentimento de oito meses atrás. Assim, os acontecimentos mundanos, de novembro de 2000, lhes passavam despercebidos.

30 –

“Você vai vir no seminário amanhã à noite? – perguntou um rapaz da sala de Geisel ao saírem do bloco de Geografia, terminada a aula de sexta-feira.” “Vou sim, e você?” “Vou também. Acha que vou perder um seminário de Geografia Econômica? É a minha área, pô.” Os colegas já tinham descido a escada e, agora, se encontravam em frente ao carro de Geisel. O outro despediu-se e foi em direção ao seu carro. Geisel: “Nos encontramos amanhã, até mais – despediu-se também.” Ao ir embora para casa, o vento frio, a velocidade baixa, Geisel reparava por onde passava. Num muro branco leu, negra, a pichação:

ninguém é inocente

ass: eu, O Fera

 E se lembrou, algum dia, remoto talvez, ter escutado o mesmo.

 

* Publicado originalmente no livro Manicômio (2012).

** Continua no dia 24 de maio.

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