14 de mai. de 2021

Meus olhos verdes (folhetim romântico) – Parte 6

Por Rogers Silva

22 –

A noite, após uma breve chuva à tarde que atrapalhara o casal, pois combinara de passar o dia todo juntos ao ar livre, estava fria. No som, a música Total eclipse of the heart. Geisel fizera questão de colocá-la num momento tão especial. E ao colocá-la, primeiro, e depois programar, no aparelho de som, a execução dela uma hora depois, pensava em começar a beijar e acariciar o corpo da sua namorada no instante da repetição de Total eclipse of the heart. Dos cinco que introduzira no aparelho, o rapaz fizera questão de escolher dois da coleção de CDs presenteada por Jéssica. Primeiro, o modesto, elaborado e leve jantar feito por ele. Jantavam, conversavam, ouviam-se com satisfação. O pensamento dos namorados, onde estaria? Na cama, no corpo alheio? Ou no corpo e prazer próprios? Geisel pensava em dar e receber prazer. E Jéssica? Ao abrigo de Because you loved me (Celine Dion), os dois foram se beijando para o quarto. Lá, deixaram-se cair na cama de casal. Nenhum pudor, nenhuma tradição, nada parecia atrapalhá-los. Já no quarto, e agora (quanta perspicácia!) Total eclipse of the heart tocando novamente, Geisel se encarregava de beijar-lhe o rosto, o pescoço e, após tirar-lhe (caía, poética e pateticamente) o vestido de seda dourado, beijar-lhe os seios tão lindos, a barriga, as pernas, entre outras coisas. Com suavidade e experiência, ele virava a namorada a fim de também lhe beijar o pescoço, a nuca, as costas, a bunda. Aproveitava o momento e deslizava, com vigor, sua língua sobre todo o corpo de Jéssica. A música parecia aumentar a excitação e o prazer dela, embora ainda não tivessem ultrapassado as carícias e os beijos. A luz acesa, a cama, o quarto, e tudo que nele havia parecia submergir ante o ato do amor. Somente o espelho – um grande espelho, obra rica e majestosa – sobressaía. Encontrava-se a uma certa distância da lateral da cama de casal. Um antigo objeto, obra do século XVIII ou XIX, muito desgastado, no qual se viam uns delfins modelados nos ângulos superiores da moldura, uns enfeites de madrepérola (substância nacarada da concha dos moluscos) e outros caprichos do artífice feitor. Pelo reflexo, ora Jéssica via o corpo nu de Geisel, ora este via o corpo despido dela. Depois, já deitados na cama, também pelo espelho às vezes ele reparava no ato sexual, seu corpo envolvendo o corpo da outra. Gostava dessa primeira vez em que era invadida. Ao gozar ela não sabia se ria ou chorava. Sentiu algo tão estranho e tão inexplicável em suas entranhas, que chorou. Lá fora, apenas uma noite fria.

23 –

Geisel, pelo fato de morar sozinho, podia a qualquer momento levar a namorada para a sua casa a fim de ficarem sozinhos, livres. Os pais dele moravam em Araguari, cidade vizinha. Há dois anos e meio deram todo o apoio para que viesse para Uberlândia estudar. Às vezes sorria, sozinho em casa, na sala de aula ou na loja em que trabalhava, só de pensar em algum momento passado com Jéssica. Alguma graça contada, algum ciúme, algumas frases de carinho, alguma manifestação de prazer: todo o momento passado junto à namorada era motivo para Geisel sorrir um sorriso desconexo. Passaram-se seis meses desde que ele, na praça Tubal Vilela, junto com Marina, vira Jéssica pela primeira vez. A princípio não dera importância à moça mediana, cabelos negros, crespos, meio anelados, olhos castanhos e pele morena embaçada. Hoje, quatro meses de namoro. Agora, em junho, quase no final do semestre, Geisel conseguia equilibrar otimamente as tarefas do curso de Geografia, o emprego, a vida com os pouquíssimos amigos (só Andressa talvez) e o namoro. Dos ciúmes que Jéssica às vezes deixava transparecer, sobretudo de Andressa, ele ora achava graça, ora não gostava, pois não queria que nada comprometesse sua relação com a amiga, embora Geisel e Andressa fossem maduros o suficiente para não deixarem nada atrapalhar nem o namoro (que, aliás, não era muito do agrado dela), nem a amizade. Independente disso, Jéssica insistia em sentir-se insegura em relação a outras moças e, principalmente, a Andressa, por esta ser tão próxima do seu namorado.

24 –

Durante todas as férias o casal de namorados se aproveitou. Amaram-se quase todos os dias, cada dia que passava com mais intimidade, experiência e prazer. Geisel, às vezes, ia à casa de Jéssica, conversava com seus pais, brincava com sua irmã. Jéssica perguntava-lhe sobre o dia que iria conhecer seus sogros. Ele disse que, no final de semana próximo, iria à casa deles e perguntou se não queria ir também. Ela não poderia ir, pois já tinha compromisso. O rapaz foi a Araguari ver os pais. Em quatro meses de namoro, os dois, pela primeira vez, se separaram. Uma saudadezinha de vez em quando é bom – se confortava Jéssica, cuja insistência para não deixá-la sozinha quase o fizera desistir. No entanto, depois da explicação de Geisel (fazia um bom tempo que não via os pais), ela cedera.

25 –

Já em Uberlândia: “Você já percebeu a mania que Jéssica tem de desviar do assunto? Mania de digressão? – perguntou Andressa a Geisel.” Os dois estavam na casa da moça, assistindo a uma comédia. “Você não gosta dela de jeito nenhum, né?” “Que isso. Não tenho nada contra ela não, sô.” “Não... – ironizou.” “Se ela souber que nós dois estamos assim sozinhos, o que faria?” “Ishi... Sei lá... Ela tem um ciúme de você – enfatizou.” “De mim? De todo mundo! Só que disfarça até bem.” “Ha-ha-ha – Geisel riu ao ver uma cena engraçada do filme.” “Ha-ha-ha-ha – a amiga também riu, achando graça na paródia.” “Como eu sou besta, né.” “Por quê?” “Estou sozinha com você e não faço nada.” “Larga de ser boba, sô – brincou Geisel, demonstrando certo carinho irônico em seu olhar.” Estavam na sala, cada um num sofá. Não deixaram de ser amigos, como dito, mas diminuíram um pouco a intimidade de antes. “Eu poderia ir muito bem aí onde você está e te dar um beijo, não acha?” Geisel a olhava, numa posição meio desconfortável, e se deleitava com a brincadeira. Andressa, com seu charme, beleza, pele amarronzada e inteligência sedutora, foi até ele, que esperava. Era impossível olhar para Andressa e não enxergar uma figura de mulher fatal, objeto sexual por conveniência (gostava de se sentir desejada) que ela encarnava. A verdade é que, se quisesse, conseguia desestabilizar qualquer homem. Mas Geisel era resistente. Era? O rapaz tinha, sim, um carinho enorme por essa jovem bonita, simpática e madura. De forma inteligente, ela sabia fundir a seriedade e o charme à graça e às brincadeiras que fazia. Além do mais, possuía um corpo lindíssimo, que já fora visto nu por Geisel.

* Publicado originalmente no livro Manicômio (2012).

** Continua no dia 19 de maio.

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