2 de mai. de 2021

Equilíbrio na pandemia

Por Ricardo Novais

Não eram dez horas ainda, mas a noite parecia acabada. Ah!, leitor, uma noite encerrada precocemente é como o amor sem o gozo. A cidade é feita para se apreciar, sair de casa, andar a pé pelo bairro, parar em um bar. Preencher a vida com rostos desconhecidos de todas as cores e idades.

Parei em frente ao bar do Juarez, não entrei. Fiquei a olhar com insegurança as ruas ao redor, cheias de bares apinhados de gente, sem máscaras, homens e mulheres desconhecidos fumando nas calçadas, copos tilintando beijados pelas mesmas bocas, bocas transmitindo o mesmo vírus das mesmas conversas. Não eram dez da noite.

Entrei no bar. Tirei a máscara. Pode, leitor, dizer-me ambíguo. Fui direto ao balcão, bebi uma dose e chegou Cristina. Fomos para uma mesa nos fundos do bar, a única que vagou rápido. Em cinco minutos, eu olhava para uma mulher em prantos acusando-me de crápula; não julgue à toa, dona leitora; a coisa pareceu-me triste, a noite terminando precoce...

Há muito tempo, um velho bruxo dizia que existem pessoas que choram pelos espinhos da rosa, mas há outras que sorriem porque entre os espinhos colhem-se as rosas. Possível que o pensamento não seja deste jeito tão rude, mas é que não tenho a elegância daquele bruxo, e também porque a paciência da escrita deste tempo de pandemia é mais curta do que outrora.

Sim, a acusação eventual se confirmou verdadeira. Fui um crápula. Coloquei a máscara. Saí do bar. Sozinho. Cristina ficou lá, solitária, bebendo à espera de alguma boa companhia.

Andei pelas mesmas ruas entre os mesmos bares apinhados de gente de todas as idades; todas sem máscaras. Entre todos os desencontros, encontrei Cecília na taverna de vinhos. Tirei a máscara novamente. Bebemos, rimos, cantamos; bebemos outra vez... A noite precoce estendeu-se um pouco mais; e mais, até que virou dia.

__ O que você está pensando, mocinho?

__ Em você!

__ É tão simples...

Há coisas que me fascinam demasiadamente. Os sorrisos fracos entre os goles de cerveja e a névoa do cigarro que não se fuma pesam às costas daqueles que se conhecem bem. Entretanto, entre aqueles que tenham se visto pela primeira vez há tão poucos instantes, e todo momento é único e futuro.

__ É tão simples...

Enquanto um ser humano chora, caro leitor e querida leitora, outro ri. O mundo é perfeito! Seria um tédio só se tudo fosse lágrima, mas também sorriso o tempo todo seria fútil e débil. Não acha? O equilíbrio é a felicidade da vida, em sua variedade humana, entre lamúria e dança, máscara e ressaca, vacina e bolo de cenoura com chocolate.

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