16 de abr. de 2021

O lugar delas

Por Adrianna Alberti

 

Caixa de Pandora

A porta não foi aberta por um convite delicado e sincero, não, foi metido o pé em uma bicuda, com um cheiro forte de álcool envolvendo o ambiente, tropeçante em dois pés iguais. A despeito dos sorrisos largos e abraços amigáveis, havia um grito sendo ecoado, lá no fundo do quintal – entre as sombras e o calor escaldante. Abrir as janelas foi mais difícil, porque se julgavam escancaradas aos olhos vizinhos, como se tornasse todos íntimos com um olhar só, mas o metal estava enferrujado, a tinta brilhante escorria nos cantos, apodrecendo o reboco. Mas já estava sentada ali, naquele sofá cinza aconchegante, olhar terno esperando as lágrimas escorrerem e as palavras saírem. Estou aqui, ele disse, ela acreditou.

 

A matriarca em vermelho

O olhar era severo, vinda de mulher nordestina acostumada a tempestades e estrada esburacada. Mãe de todos os tipos de filhos, figura que exalava um quê de inquestionável, poderosa entre seus tecidos e costuras, filha de Oyá. As unhas compridas vermelhas sempre enroscadas no copo de café preto e forte. Ainda mora na memória uma noite de sábado qualquer, eu aos 14 anos, o peito se encontrava vazio e a mente em branco. O colo parecia ser o lugar certo, ajoelhei-me, abraçando as pernas cobertas pelo vestido de renda vermelho e chorei até secar, a mão no meu cabelo não se mexia, mas a voz era suave, carinhosa: É assim mesmo, Tica.


No lugar certo

Era uma universidade, mas estava encravada no final de um bairro na puta que o pariu, no prédio de uma escola minúscula. Desconfiou, estranhou, sentiu saudades do terreno amplo da outra. Nem era aula, era só uma apresentação, o professor vinha com a camiseta amarela, cabelo cacheado e todo despenteado, barba cheia, olhos cansados apesar de ser início do semestre. Mas a cadência era perfeita – na cabeça dela a perfeição vinha de palavras bem pronunciadas e colocadas. Ela estrelou os olhos nem bem a primeira meia hora, sorvendo a menor das informações, o coração disparado. Era tudo o que estava sendo dito.  Era ali, jurado, cimentado, seu lugar, em meio às letras.

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