21 de abr. de 2021

De como contar histórias sem mentir...

Por Krishnamurti Góes dos Anjos

O escritor Mário Baggio escreveu e publicou desde o ano de 2016 três livros de contos. Li e resenhei todos. Sobre o primeiro livro, A extra(ordinária) vida real, escrevi: “O autor não dita significados, antes os sugere, e o leitor atento, dada a extrema sensibilidade com que Baggio o faz, é apanhado em cheio e sente o choque. Louve-se o seu poder de fogo. Sua ironia corrosiva, seu sarcasmo demolidor”. (...) “Realmente diminutos os textos (somente dois ultrapassam duas páginas), se afiguram como ficções de um realismo sem disfarces, um realismo cegante na glorificação do real em sua maior crueza. À medida que a leitura avança assistimos ao desfile impiedoso e impenitente de personagens premidas por circunstâncias existenciais adversas. Em alguns a emoção é insinuada mediante um curto diálogo ou movimentação das personagens, noutros a fração de uma ideia vem à tona e noutros, ainda, não se descreve a emoção, sequer há a preocupação em sugeri-la. O simples acontecimento é a emoção.”

Já em A mãe e o filho da mãe, de 2017, registramos que “encontramos a mesma técnica de ver e fotografar flagrantes íntimos. Entretanto, o autor experimenta outros recursos narrativos, envereda pelo fantástico, volta ao realismo, subverte o corriqueiro, tudo dentro de um apurado senso estético.  Sem dúvida, autor mais amadurecido e mais “antenado” com o mundo em que vive. Explico-me ao tempo em que aprofundo o pensamento: É que as ficções que Mário vem produzindo servem em boa medida de ampliação dos horizontes de expectativas porque estimulam o senso crítico do leitor e servem como espaço de reflexão por representar os conflitos humanos dentro da perspectiva macro em que a humanidade vai afundando. A literatura de nossa era é marcada pelo esfacelamento, pela fragmentação, pela compressão de culturas, pela velocidade e intensidade. E temos no gênero conto um excelente instrumento, por assim dizer, devido à sua ampla capacidade de transformação.

No ano de 2019, em resenha do livro Espantos para uso diário acrescentamos ainda que Baggio enveredava então, dentro daquela técnica de ver e fotografar, em  ambiências distópicas “que bem caracterizam o individualismo pós-social da contemporaneidade para descrever o  niilismo pós-moderno que abriga um tipo de homem que renuncia à continuidade por meio da procriação e da transmissão de heranças culturais, em nome de seus próprios privilégios, numa espiral de egoísmo e autossatisfação que nada mais são que a perfeita tradução de uma civilização que lança mão da barbárie para a própria manutenção”.

Temos agora um novo volume de contos do autor, já não tão curtos como os anteriores: Verás que tudo é mentira. Antes de entrarmos na obra propriamente dita, vale tecer algumas considerações preliminares sobre o conto curto, ou o microconto, aquela peça ficcional de reduzidas linhas a partir da qual o autor produz a maioria de suas ficções. Importa salientar duas verificações. Primeira, há escritores que parecem encontrar uma fórmula nas histórias curtas que escrevem, assemelhadas, todas elas, com o crivo da mesma técnica, como se o escritor tivesse inventado um software e lhe bastasse digitar um atalho. Uma marca que os identifica facilmente à primeira vista. Este o mal das fórmulas demasiadamente pessoais que, ao invés de se diversificarem, se apuram até um limite extremo a firmar a impressão de que o escritor está se repetindo. Corre-se o sério risco de cansar o leitor e esgotar-se. Isso pode significar o levantar um muro em torno das obras. Porque restringe-as pela segunda verificação. 

A maior parte das peças ficcionais termina se alinhando aos quadros da novelística de teor urbano. O universo ficcional tende então a se manter restrito, ressoando em circuito fechado. Habitam-no personagens guiados por fatalismos cegos de vida em estado de brutalidade ou minados por legados atávicos, sobretudo em relação ao sexo. São criaturas armadas contra si próprias e contra o seu semelhante. Aqui o cerne da segunda verificação. Os temas, por serem fortes e engrossarem o pesadelo cotidiano, falam por si mesmos. Suficientemente expressivos para que o ficcionista se empenhe em justificá-los literariamente, em explicar-se com todas as letras e todos os verbos. Levar sempre as narrativas a abordagens diretas e francas (que por vezes desce a detalhes grotescos), pode ocasionar a perda da oportunidade de uma maior e melhor composição literária. Os textos acabam se parecendo com fichas cadastrais. Lembramos que a criação de “atmosferas ficcionais” são sempre bem-vindas. O aspecto atroz de certas ficções tende, quando batidas e rebatidas nesta visada, a se impor como verdades filtradas pela ficção. E acaba que encontramos pouquíssimos registros de solidariedade entre aquelas criaturas ficcionais. Vivem suas vidas mesquinhas dando a entender que elegeram o sofrimento e a miséria física e moral como uma fatalidade. Como se as emoções ou os sentimentos considerados “saudáveis” não passassem de utopia humana ou ficassem catalogados na categoria de literatura romântica de água com açúcar.

Um escritor que deseja permanecer além das modas e das circunstâncias deve ter a inquietação como impulso interior, a descoberta de novas vertentes ficcionais como uma necessidade a que mais cedo ou mais tarde terá de apelar. Se não sentir essa necessidade de mudança que traduz, afinal, o impulso de desvendar o desconhecido, deve desconfiar da obra que vem construindo. Por isso, lemos na quarta capa do mais novo livro do escritor um trecho do texto que ele mesmo escreveu à guisa de apresentação da obra: afirma ele quanto aos livros anteriores, que havia se detido “nos pequenos acontecimentos cotidianos, nas situações comezinhas desta vida, sem destacar tanto os personagens desses acontecimentos, no presente volume são eles – os personagens – que assumem o protagonismo.” Muito bom. Baggio sabe muito bem onde pisa e que direções quer dar à sua obra como um todo. Embora haja resquícios daquela forma dominante e exclusiva que abordamos acima em algumas composições, é nos textos em que o autor abre mais o leque ficcional – sobretudo quanto ao aspecto imprescindível de revelar o que as personagens estão pensando – que reconhecemos o grande ficcionista que ele efetivamente é.

A eleição da mentira como um dos temas principais (não o único) desse novo livro de Baggio nos leva automaticamente às searas de cunho moral e ético, tendo como fundo o binômio mentira versus verdade. O autor examina os vários tipos de mentiras, essa contingência humana indissociável das práticas sociais, como identificou Hannah Arendt. Fernando Pessoa inclusive teria acrescentado que a mentira seria condição necessária do espaço social, a moeda de todas as emoções. E Nietzsche, como sempre, bagunça ainda mais nosso entendimento sobre a mentira ao afirmar que ela está muito distante do erro e da ignorância. Seja como for, todo mundo sabe muito bem o que é uma mentirinha, básica que seja, sabe sim.

O autor ‘pega pesado’ nessas abordagens sobre a mentira. Começa suas investigações com um belo exemplo de solidariedade humana que questiona o valor do caminhar lado a lado da mentira com a ilusão. O conto “A felicidade nem sempre é divertida” vai da mentira que omite informação verdadeira, àquela outra de apresentar informação falsa como verdadeira, envereda por situações onde se admite uma emoção dando uma origem falsa para sua causa, passeia por aquela que conta a verdade falseando-a, e entra até naquelas em que se fala apenas parte da verdade, ou dizem a verdade de forma a parecer o oposto do que é dito. Tudo isto sem esquecer ainda aquelas mentiras cabeludas sociopolíticas utilizadas por governantes e/ou religiosos para favorecer suas ações interesseiras. As antiquíssimas mentiras coletivas como mecanismos de defesa contra consequências insuportáveis ou não toleráveis de uma desgraça social, ou ainda para não se admitir o motivo ou a responsabilidade do fato. Alouu, negacionistas de plantão!

Como sabemos, Pinóquio (em italiano Pinocchio), que ilustra a capa do livro de Baggio, é uma personagem de ficção cuja primeira aparição se deu em 1883, no romance As Aventuras de Pinóquio, escrita pelo italiano Carlo Collodi, e que desde então teve muitas adaptações. Esculpido a partir do tronco de uma árvore por um entalhador chamado Geppetto de uma pequena aldeia italiana, Pinóquio nasceu como um boneco de madeira, mas sonhava em ser um menino de verdade. Ele fala, pensa e age como uma criança e toda vez que inventa uma mentira, seu nariz cresce. Essa mais nova obra de Baggio reúne contos – os maiores são os melhor elaborados, a começar pelo já citado “A felicidade nem sempre é divertida”, um primor de inventiva e de sondagem psicológica. Outros ainda que tangenciam os aspectos e formas que a mentira, consciente ou não, pode assumir na vida humana, lemos “A mariquinha”, “O coxo”, “Cecília, Paulo e Lucas”, Negra Lili Marlene”, “As quatro bestas de Daniel”, “A grande mentira” e “Pela perspectiva da pedra”. Há outros, vários outros textos de extrema qualidade no volume, que poderiam ser citados, a atestar que o autor é, sem ‘mentiras’, uma das vozes mais expressivas da contística brasileira contemporânea.

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