26 de abr. de 2021

A poesia é tudo aquilo que ela não quer dizer (parte 2)

Por Ramon Carlos

 

O enredo da porta ao lado

A tampa da panela que cai

Dando voltas sobre a mancha

No azulejo frio e úmido do dia vinte

O forno do fogão inutilizado 

Pela válvula protetora de gás para crianças

Mas nunca houve criança, nem costela assada

O prato quebra

Como inimigo público número um

John, João, o rato suplica um martelo na ratoeira

O vestido foi tingido pela empregada

Que misturou uma camiseta laranja nas roupas brancas

John, João, o rato ainda se debate com os dentes cravados no queijo

E eu ainda estou acordado

Porque minha toalha de banho 100% algodão

Esteve molhada desde ontem

Por que separar o garfo da faca?

Era sopa

O guardanapo terminou

Por limpar marcas de sangue nas frutas

Tem uma batata podre embaixo da pia

Eu ouvi, mas não falei

Os banhos são maravilhosos

Até gosto daquela música

Mas nunca cantaram até o final

Ou será que fui interrompido pelo carteiro sem botas?

John, João, Joana, Jô, Jó

Eu recolhi a batata

Terminei com o sofrimento do rato

E imaginei vocês

Em um transatlântico

Durante a manhã

Falando sobre o vizinho

Que nunca estava

 

Sobre nada

Mesmo que o grão disseminado

Conteste a singularidade do plantio

E a terra em desuso

Combata o florescer obscuro

Delírios ácidos acentuarão

Debalde, a irrigação nos poros

Latentes em cada movimento

Mesmo que imortalizar os vícios

Signifique simpatizar a paranoia

Ramas plácidas infinitas

Ainda codificarão o instinto

E os pressupostos doutrinarão a culpa

Se os sapos tivessem asas

Não bateriam com o traseiro no chão

Sempre que pulam

Mesmo que as pupilas dilacerem o razoável

E as bigornas sirvam de peso para papel

Alguma coerência ainda restará

E vibrará como uma víbora

No forno aceso

Jogar fora a própria vida

Significa usá-la da melhor forma

Mesmo que confrontar medo com medo

Seja um blefe da consciência

A confusão enrijece o apetite

Por tudo que se ganha sem razão

Admita que sempre foi hipócrita!

Sendo hipócrita, como posso admitir?

Ousar ou usar

Se em qualquer momento da minha vida

Eu depositar toda minha esperança em alguém

Então podem ter certeza

De que perdi a esperança

Mesmo que nada seja atributo de tudo

Tudo que se escreve sobre nada

Sobretudo

Sobre nada, esse poema

Não quer dizer tudo

Um peixe de sobretudo

Nada nada

Em seu aquário

 

Plano cartesiano

A luz da lâmpada cobriu meus temperos

Já não encontro minha doença dentro do pote

Procuro em vão, um dia sóbrio na geladeira

Comprei bolo de formiga, chá de astronauta

Um chiqueiro novo, ferraduras de anjos

Uniformes despejados, cinzeiros desbotados

Alqui mia, cheia de bigode e pose

Está tão gorda e peluda quanto seu dono

Encontrei alguns remédios contra-indicação

Quando bisbilhotava a construção ao lado

“Ei” gritou-me o proprietário lá da rua

“Se acabar com minhas pílulas

Sou bem capaz de comprar um pato e um tapete”

Já não encontro minha doença dentro do pote

A luz da lâmpada, a luz da lâmpada

Alqui não veio mais aqui

Procuro em vão, um dia sóbrio na geladeira

Comprei molho de algodão, rocambole de eutanásia

Fissuras cerebrais acrobáticas, miúdos elétricos

Ultrajes simbólicos, medo do escuro

Encontrei um pato e um tapete

Quando bisbilhotava a construção ao lado

“Ei” gritou-me o proprietário lá da rua

“Se acabar com minhas pílulas

Sou bem capaz de comprar um pato e um tapete”

Já não encontro minha doença dentro da lâmpada

Procuro em vão, um dia sóbrio no pote

Alqui mia, algo dão

Alqui mia, algo dão

Alqui mia, algo dão

Alqui não veio mais aqui

Se Alqui mia

Algo dão


Ramon Carlos é coautor do livro estrAbismo (Editora Viseu, 2018). Escreve no site: www.estrAbismo.net. Tem materiais diversos espalhados em revistas como: Mallarmargens, LiteraturaBr, Acrobata, Philos, Amaité Poesias & Cia, InComunidade, LiteraLivre, Subversa, Ruído Manifesto, Literatura & Fechadura, Jornal Plástico Bolha, A Bacana e Cidadão Cultura.

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