22 de jan. de 2021

O meu lar não existe sequer em mim

Por Milton Rezende

 

Ódio

Ódio de tudo:

de ti, de

mim, da

sombra no

asfalto, das

conversas

dos vizinhos

comendo

churrasco e

arrotando

bobagens,

dos barulhos

no telhado,

da televisão

ligada em

programas

de auditório,

dos ruídos que

vem das ruas,

do ambiente

de trabalho, das

necessidades

fisiológicas dos

governantes, da

inteligência

pedindo

esmolas

aos agiotas,

dos restaurantes

abarrotados

(que raiva das

pessoas perfi-

ladas mastigando

qualquer carne),

ódio de tudo

e de todos,

neste momento

em que faço

uma análise

antes de deitar

o meu cansaço.

 

Home Sweet Home

Pensei enumerar aqui

todos os meus endereços:

as ruas, as casas, os bairros

o sítio e as cidades mineiras.

Prédios, altos e baixos, áreas

de escape, espaços, córner neutro;

as lojas, os quintais, os bares

e todos os locais de trabalho

que eu frequentei sem estar ali.

Mas já não me lembrava de

muitos deles – andei tanto e

não saí do estágio em que nasci.

Prefixos de telefones, mapas,

placas de carro, janelas, chaves,

portas, armários, quartos fechados,

as camas e os colchões onde dormi.

Vivi a minha vida sempre assim:

entre quatro paredes pintadas

ora de verde, de branco, de rosa

e infinidades de cores e situações.

Nunca me encontrei em nenhum

desses lugares e o meu lar

não existe sequer em mim.

 

Maria

O céu desaba sobre mim

com sua cara de fogo

e nuvens de cores,

num movimento frenético

no compasso do amor.

Quando terminarmos

e o sol e a lua e as estrelas

forem embora nas alturas,

eu voltarei a ser noite

ou terei incorporado luzes

suficientes para esperar

até a próxima vez?!


Do livro ‘Uma Escada que Deságua no Silêncio’ (Multifoco, 2009), esgotado.

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