25 de jan. de 2021

Humano, demasiadamente humano

Por Rafael Gobbo


Ele estava sentado na cadeira, amarrado. A corda utilizada para imobilizá-lo estava levemente frouxa.  Seu corpo estava coberto de escoriações. O homem que o tinha encarcerado se aproximava com um bisturi na mão. Já utilizara o alicate, para arrancar suas unhas; já lhe esmurrara o rosto repetidas vezes; já lhe chicoteara as costas. Agora era a vez do bisturi.

Ao quase colar sua boca à orelha do aprisionado, o homem sussurrou:

— Nunca tive tanto prazer em machucar alguém como tenho agora. Obrigado por sofrer tão diligentemente. O medo que vejo em seus olhos me deixa cada vez mais excitado. Só para você saber, agora vou abrir sua coxa. Quero ver o quanto você aguenta antes de desmaiar, será só um pequeno cort…

O enlaçado cravou rapidamente seus dentes na jugular no algoz. O homem se contorceu desesperadamente, dando urros e mais urros de dor. Seu sangue começou a escorrer pela boca do prisioneiro. Quanto mais se contorcia, mais o enclausurado apertava os dentes. E não largava; não podia largar, sua vida dependia disso.

O homem começou a esmurrar a cabeça do amarrado para que o soltasse. Mesmo assim, ele não largava. Sentia as pancadas, achava que ia vacilar, mas retomava o esforço e não soltava o pescoço do outro. Enquanto mantinha os dentes bem fixados, pensava: “Não vou morrer aqui. Essa é minha única chance!”

Ao tentar se desvencilhar da mordida, o homem acabou perdendo o equilíbrio. Os dois caíram no chão. Mas o atado continuou com as presas cravadas no pescoço. Agora ele era o predador. Isso, apenas um animal lutando pela sobrevivência. Sentiu que o carcereiro perdia as forças; e o que tinha sido desespero, agonia, agora era calmaria. O homem mordido foi parando; sua respiração foi se esvaindo.

Ao cabo de alguns minutos (que pareceram intermináveis) o corpo do carrasco ainda se debateu fracamente, em pequenos espasmos, até tornar-se inerte de vez. Com a corda já menos apertada, conseguiu se soltar da cadeira e deixou o corpo do outro como estava: estirado no chão e com uma poça de sangue a escorrer da garganta.

Correu em direção à sala contígua, onde estavam sua esposa e filhos. Ufa, estavam bem; ele fora o primeiro e o único a ser torturado da família. Quem imaginaria que seriam sequestrados por um maníaco, um serial killer, e ficariam em cárcere privado por dias a fio? Quando saíram à rua, o sol feriu os olhos de todos, já desacostumados com a claridade, mas foi bom. Estavam vivos.

O sequestro e a fuga foram noticiados por dias — meses até — como os episódios mais importantes da cidade. O pai foi considerado herói e exemplo. No entanto, ele não se reconhecia assim. A mídia reclamava entrevistas, fotografias e mais informações sobre o que sucedera à família, mas ele se recusava a ceder. Continuar a existir era o suficiente.

Contudo, não havia mais alegria; pelo menos não para ele. Aos olhos dos outros, ele era um forte; aos seus, um ser aleijado, amputado; faltava uma parte. Em dias frios, a melancolia era quase insuportável. Sabia que tinha ultrapassado um limite. Tinha sangue alheio em suas mãos. Os flashes daquele dia fatídico causavam-lhe crises de choro.

 Quando se apartava dos filhos e evitava a esposa para ficar só — o que se tornou cada vez mais frequente —, no alto de sua dor, bradava em desespero:

 — Perdi minha humanidade. Sou apenas um bicho que matou para sobreviver e virou notícia, mas queria mais. Queria retornar a ser o que era!

 

Só o conseguiu anos depois, quando, um dia, ao olhar para o céu estrelado, entendeu que há coisas muito maiores que si mesmo: não era mais o mesmo — nunca mais o poderia ser —, mas voltou a ser humano, demasiadamente humano.


Rafael Gobbo é jornalista, escritor e músico amador. Com dois livros publicados: um de contos, Pancadas (Viseu, 2017), e outro de crônicas, A paixão de Vincent van Gogh (Coralina, 2020), o autor vem se dedicando atualmente à poesia. 

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