14 de dez. de 2020

Peixes

Por Mário Baggio

“Aprenda a pescar e será um homem”, assim dizia o pai, pescador de quatro costados, rígido e disciplinado, ao filho Raul, de dezoito anos, indolente e preguiçoso. O pai falava e não admitia retruque. Raul não aprendeu, não se interessou, não quis se interessar.

Numa manhã de fome, Raul pediu peixes ao pai, o sábio pescador. “Os fracos e sem talento têm que desenvolver nobre virtude: a paciência”, disse o filho à meia-voz, mas claro o suficiente para que o pai o escutasse. E continuou rogando: “Dê-me um peixe desses tantos que você pescou”. “Esses são para venda, já têm comprador. Estão frescos e serão entregues daqui a pouco. É o nosso sustento”, respondeu o pai, sem dar chance para esticar a conversa.

No final da lida, as redes já dobradas, os balaios cheios de peixes limpos e cortados em filé, o velho pescador, antes de se dirigir ao armazém para fumar um charuto com os amigos e aguardar a hora de abrir o mercado, deu ao filho uma serpente. Disse “Se vire” e foi embora. Raul agarrou o réptil, cortou-lhe a cabeça e o rabo e devorou a carne fria, crua e de sabor inclassificável. Comeu a víbora inteira e matou a fome. Também se intoxicou, a barriga inchou de imediato feito bola de capotão e uma alergia vermelha pipocou e se alastrou feito rojão em todo o corpo. Vomitou tudo o que comera, os olhos reviraram nas órbitas, perdeu os sentidos, desequilibrou-se e caiu no mar, a dois passos de onde estava com os outros caiçaras. Morreu afogado no final da manhã, atrapalhando os ajudantes do pai, que já se preparavam para suprir a freguesia que logo estaria ali à procura das novidades trazidas do mar. Jogaram rapidamente a rede na água e capturaram o corpo de Raul. Estava enfeitado de algas coloridas como um folião de Carnaval, o sargaço preto lhe cobria o rosto à guisa de máscara.

Os caiçaras puseram o corpo do rapaz na madeira do chão, livraram-no das algas e sargaços e das roupas e calçados. Rasparam-lhe os pelos todos.

Começaram a retalhá-lo com os facões afiados. Abriram-no de ponta a ponta, jogaram as vísceras para as piranhas, realizaram na carne branca os cortes que, sabiam, eram do agrado dos clientes mais sofisticados e exigentes. Embalaram as postas de carne fresca em folhas plásticas e dispuseram-nas na bancada junto aos demais peixes já cortados — tubarões, peixes-espada, anchovas, badejos, atuns — para apreciação pela freguesia. Os clientes elogiaram os cortes e a aparência tenra das carnes. Tudo foi vendido num piscar de olhos e os caiçaras foram todos almoçar num restaurante ali pertinho do cais.


Paranaense de Ribeirão Claro, Mário Baggio é jornalista, descobriu muito cedo que gostava de lidar com palavras. Houve quem dissesse que tinha algum talento para isso, e ele acreditou. Escreve contos curtos, outros nem tanto. Também um pouco de poesia, outro pouco de prosa poética. Sua matéria-prima é a vida real, o drama humano, com tudo o que ele tem de ridículo, patético, sublime, trágico, grandioso, maravilhoso. Escreve porque precisa respirar.

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