16 de dez. de 2020

O inesquecível em memórias apagadas

Por Adrianna Alberti

O inesquecível em memórias apagadas

Não tinha 18 anos ainda, foi o primeiro salário, atendente de uma loja de produtos naturais. A blusa laranja foi a primeira coisa que comprou, a segunda foi o ingresso do show do Capital Inicial. Se ela disser que lembra do show, é mentira. Inesquecível, principalmente porque a única bebida que se lembrou de tomar foi uma tal de Capeta. Um copo de cocada marrom para regular o sangue. Com o dinheiro que foi no bolso, voltou. Agarrando-se às paredes da cozinha da amiga fingindo sobriedade. Quatro horas depois, a incredulidade no rosto dos pais e dois litros de soro em um posto de saúde, ela ouvia no bom dia dos clientes o eco do show em sua ressaca.


Aos 20 anos

Sete pessoas cabem em um golzinho emaranhadas. O motorista dirigia desde os 15. O passageiro era o dono do carro, um desconhecido disposto, amigo de algum amigo. O lugar não era grande, o som fazia um chiado ruim entre a guitarra e a voz do vocalista, um cover qualquer que ninguém mais recordaria no dia seguinte, depois uma banda local cujas músicas os acompanhariam por anos. As luzes refletiam sorrisos, a dança desajeitada e também o político de camisa meio aberta, parecendo bêbado demais. Não era uma grande noite, era só mais uma, mas as memórias valeriam a nostalgia.


O postinho no final do parque

Cidade pequena tem disso, faz voar as novidades de boca em boca e o posto de gasolina, que era só o ponto de encontro do moto clube, virou atração turística do domingo à noite. Afastado como o diabo. A cerveja não era barata, mas havia o fundo gramado, bancos e cadeiras insuficientes e a banda que tocava uma música entre o rock dos anos 80 e algo que os fazia lembrar dos indígenas bolivianos e suas flautas. Havia o amigo para quebrar o gelo, os sorrisos sem graça. Ela ia de saia longa e colorida, ele de calça jeans e polo, era o terceiro encontro que resultaria em cinco anos de memórias marcadas.

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