3 de dez. de 2020

Beatles forever

Por Milton Rezende

Estamos no ano de 1967, mais precisamente em junho de 1967, e o mundo acaba de ser abalado por um cataclismo poético-sonoro cujos efeitos ainda hoje não foram totalmente rastreados ou compreendidos. Sabe-se, no entanto, que o efeito imediato foi devastador e que os efeitos secundários se estenderão ao longo do tempo enquanto o tempo tiver essa denominação.

Este abalo musical tinha um nome comprido como longa e tortuosa e trabalhada foi sua elaboração. Era um objeto de vinil envolto por uma capa repleta de personalidades e flores e que se chamava Sgtº Peppers Lonely Hearts Club Band. O Lp em questão havia sido gravado por um grupo de rock (não por acaso o mais famoso) conhecido como Beatles ou The Beatles ou The Silver Beatles ou Long John and the Silver Beatles ou Johnny and the Moondogs ou, ainda e finalmente, The Quarryman. Este último nome foi na verdade a primeira denominação do grupo, em 1957, portanto dez anos antes do divisor-de-águas ocasionado pelo Sgtº Peppers. Naquela época a formação dos Beatles trazia Pete Best na bateria (somente em 1962 Ringo Starr veio se juntar a John Lennon, Paul McCartney e George Harrison, formando então o famoso Fab(ulous) Four de Liverpool, cidade natal de todos eles, situada no noroeste da Inglaterra, às margens do rio Mersey).

O que se seguiu ao encontro destes quatro rapazes já é história. Primeiro foram as importantes presenças do empresário Brian Epstein (que chegou a ser chamado de “o quinto Beatle”) e do produtor George Martin. Depois vieram os inúmeros shows por toda a Europa, as turnês americanas, a instalação da beatlemania em todo o mundo e, paralelamente a toda essa loucura, as gravações em estúdio.

A estreia se dá com o Lp Please Please Me (1963), logo depois aparece With The Beatles (1963), seguido por A Hard Day’s Night (1964) – também transformado em filme por Richard Lester, e Beatles For Sale (1964). Em 1965 é gravado o disco Help! com um filme homônimo também dirigido por Lester. A partir de 1966, com o Lp Revolver, os Beatles começam a consolidar uma nova e forte tendência musical-evolutiva delineada no Lp anterior Rubber Soul (1965) e que iria culminar, em 1967, com a exuberância sonora & poética do Lp Sgtº Peppers Lonely Hearts Club Band, que significou uma ruptura definitiva com a música que eles mesmos faziam até então e com a própria música, tomada como um todo, que era feita na época pelos conjuntos de rock (daí sua importância como um marco deflagrador de todo um processo rico em criatividade que se seguiu).

Ainda em 1967 sai o Lp Magical Mystery Tour (trilha sonora de um filme a cores realizado especialmente para a televisão). No ano seguinte foram lançados dois Lps: Hey Jude e o álbum duplo The Beatles ou White Álbum (álbum branco, como ficou conhecido no Brasil). Em 1969, já com todos os problemas se agravando e com um prenúncio de dissolução do grupo, os Beatles voltam aos estúdios da Apple e destilam seus talentos em mais dois Lps de excelente qualidade: Abbey Road e Yellow Submarine, este último transformado em um desenho animado para o cinema com trilha sonora composta e orquestrada por George Martin (lado 2 do disco). Em 1970, ano da separação oficial do grupo, foi lançado o Lp Let it Be juntamente com o filme que levava o mesmo nome. Foi, na verdade, um lançamento patrocinado pela gravadora EMI e produzido por Phil Spector sem o conhecimento e a aprovação formal dos Beatles e, inclusive, com críticas destes quanto ao resultado final. Mas os Beatles já não existiam mais como conjunto e o disco acabou saindo. Apesar de tudo, Let it Be é muito bom e digno de constar com igualdade de condições na discografia oficial.

Depois disso veio o fim do grupo, o fim do sonho (“the dream is over”), mas com o direito de ainda prolongar a noite em que se sonhava por mais um Lp: Beatles Forever (1972), lançado somente no Brasil, Argentina e Espanha, contendo algumas das suas melhores músicas.

Mesmo para alguém que não tenha vivido aquela época (aquela mágica década de 1960 e seus desdobramentos nos anos 1970), basta uma simples audição das músicas dos Beatles para compreender que o legado deste conjunto é permanente e imune à corrosão do tempo (este elemento que realmente define o “quem é quem” nas artes).

Mais de meio século depois da explosão do grupo, percebemos ainda hoje sinais evidentes da permanência e, até mesmo, de um novo ressurgimento (“eterno retorno”) do fenômeno Beatles. Aquele final da música A Day in the Life, idealizado por Lennon nos estúdios de gravação, pode ser estendido e aplicado aos próprios Beatles, ou seja, a idéia de “um som evoluindo do nada até o fim do mundo”. Esta frase diz bem da trajetória e é uma síntese musical do grupo. Os Beatles serão sempre este som evoluindo do nada até o fim do mundo, até o fim de tudo. Sempre.

Do livro Textos e Ensaios (Multifoco, 2012), esgotado.

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