1 de dez. de 2020

Algumas mulheres na minha vida II

Por Adrianna Alberti

Contadora de histórias

A primeira palavra foi uma crítica ao meu gosto sobre seriados. Crua, como se tivesse intimidade para ser sincera. Devíamos nos conhecer há cinco anos, minha veterana, mas não, nunca fui capaz de sequer saber seu nome naqueles anos. Absurdo. Como fui parar na sua casa, sequer recordo. Então, inconscientemente, se tornou um prazer pessoal passar a madrugada inteira em sua varanda, entre colheres do melhor brigadeiro da minha vida, contando para ela as histórias que eu lia, como se pudesse convencê-la de que minhas falhas de caráter não são tudo em mim. Há um tipo de amor específico ouvi-la xingar me mandando calar a boca na menor afronta possível.


A pisciana

Ela veio em botas de combate e motocicleta, roupas pretas e um sorriso amplo. Falava de música, de energia e viagens, como se fossem o ar que respirava. Era a única em meio a muitos homens, poderosa. Não cito a traição, o gosto amargo, ambas enganadas. Então, um vinho à noite, sentadas em um deck no parque, e éramos tudo o que nascemos para ser. Ela tinha estrelas nos olhos, penas nos cabelos, uma miríade de cores nas roupas e a mente de quem não era desse mundo. Um dia, como previsto por toda a existência, ela se despediu e partiu, coberta de tatuagens, roupas e certezas. Sua alma era grande demais para aquela cidade.


Às sombras dos ipês

Seria lindo narrar um primeiro encontro embaixo das sombras das árvores, envolvido com o calor amoroso do inverno quase entrando na primavera, em meio a sorrisos delicados e conversas inteligentes. Mas a primeira vez que a vi, bem, ela me viu primeiro. O ônibus estava lotado, o calor fazia grudar a camiseta nas costas, sol a pino da cidade, no calor de pleno inverno inclemente e seco. Sorriu sem graça, chamando minha atenção, enquanto eu a julgava da cabeças aos pés, tentando descobrir quem era a dona daquela face: Você é mais baixinha do que eu esperava, foi minha primeira reação. A onça brava riu, depois fez piada e eu ganhei minha alma poética.

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