6 de nov. de 2020

O cego do metrô

Por Ricardo Novais 

 Gente, peço uma ajuda para poder comer. Estou passando por necessidades e sou cego. Quem puder me ajudar... Que Deus o abençoe! Mas quem não puder ajudar, eu agradeço da mesma forma...”.

Pareceu-me ouvir estas palavras dentro do metrô, mas devido ao horário, ao cansaço dos ouvidos e aos olhos grudados no celular, pode ser que as palavras ditas pelo cego que entrou no vagão não tenham sido exatamente estas; mas, como bem sabe o amigo leitor, nem toda boca diz o que quer e nem todo ouvido escuta o que precisa.

Eram dez e dezessete da noite, acusava o relógio do celular. As estações iam passando junto com os minutos e o cego ia pedindo. Uns davam moedas, outras notas miúdas e a maioria não doava nada para iluminar a vida daquele pobre desgraçado. Eu nada dei por dois motivos: nenhuma luz clareou meu coração e os meus bolsos estavam vazios.

Em determinado momento, entre uma estação e outra, o cego parou e ficou segurando o balaústre de metal próximo à porta. Um passageiro levantou para ceder-lhe o lugar.

__ Sente-se aqui, senhor!

__ Não, obrigado! Sou cego, mas não estou aleijado.

O cego, então, continuou segurando-se próximo à porta, uma mão no balaústre e outra a postos sobre uma bengala metálica que trazia consigo para orientá-lo sob os objetos ao redor. Nisto, outro passageiro, a cerca de três ou quatro fileiras à frente, falava alto ao telefone. O ceguinho resmungou algo incompreensível e deu um passo em diagonal. O vagão estava cheio, a bengala encostou na perna de uma mulher; ela reclamou.

__ O senhor me desculpe, mas esta sua bengala está me machucando. Sei que precisa dela, mas pode, por favor, apontá-la para outro lado, né?

 __ Ah, o quê? VAGABUNDA! Vai se foder, VAGABUNDA! Não quer dar dinheiro e ainda fica reclamando? Vai tomar no c...

Não digo aqui todas as palavras que aquele homem disse para não vexar a dona leitora, que é moça elegante e refinada. Também não escrevo todo o diálogo com letras em caixa alta para não incomodar os leitores, pois que este conto é para jogar alguma luz às ideias e não para nos levarmos às trevas. No entanto, caro amigo e queridíssima amiga que me leem, sou obrigado por ofício de autor a contar que aquele homem cego se esqueceu por completo que entrou naquela composição para que algum filantropo o ajudasse por nobreza e iniciou um tumulto dos diabos. À medida que o metrô locomovia-se, mais irritado e agressivo ficavam o cego e seus opositores; sim, ainda não contei, mas conto agora: muitos passageiros jogavam o olhar de julgamento para o cego, incluindo a mulher que reclamou da bengala, o homem que tentou ceder-lhe o assento e o outro que falava alto ao telefone. Eu apenas observava, numa mistura de desconforto pela nova atração atrapalhar a velha distração e por uma piedade autoprojetora por todos que ali estavam; sim, leitor, pois ter piedade pelo próximo também é uma forma de manter a integridade física e moral.

Quando o metrô parou na quinta estação antes da linha final, cuspiram o cego para fora do vagão. A aflição coletiva se espalhou, o cego prendeu a perna entre o vão e a plataforma. Um homem ameaçou chutá-lo, outro impediu. A mulher que, praticamente, iniciou a briga, gritava chamando os seguranças ferroviários:

__ Guarda! Guarda! Ô, guarda filho da puta, corre aqui!

Os guardas vieram devagar, pareciam entediados e sem interesse pelo espetáculo às escuras. Mas chegaram, gritaram e dispersaram parte da pequenina multidão. Os apitos do trem soaram estridentes sinalizando que a locomotiva ia partir em poucos instantes; um passageiro, talvez por caridade ou por chacota, segurava a porta para que esta não se fechasse e o trem partisse abandonando os brigões. Mas a mesma mulher do início da confusão, agora reclamava que o trem não partia e olhava feio para o homem que impedia o fechamento da porta, embora continuasse a condenar o cego. Já o cego, por sua vez, estava imobilizado; verdade que estava imobilizado por vários guardas da estação e que resistia bravamente na tentativa de regressar à escuridão daquele vagão da discórdia. Mas, como toda atração do mundo, seja divertida ou pesarosa, acaba-se, aquela também tinha o seu desfecho; e aqueles que haviam chutado o cego para fora do trem, agora corriam para retornar a ele que, com a pressa própria das máquinas, fechou as portas e finalmente partiu.

O conto poderia muito bem acabar aqui, sem mais alarde, mas então eu estaria faltando com a verdade dos fatos; e prezo pelo conhecimento dos que aqui estão acompanhando a história, sou-lhes fiel. Não me agradeça, leitor; como disse há pouco, apenas cumpro com meu ofício de autor transmitindo o vírus do legado de Adão e Eva e do primeiro micróbio descrente que povoou a Terra.

Eis que aqui, neste último parágrafo, começa outro conto dentro deste. Verdade que conto mais enxuto, pois que cabe mesmo neste único parágrafo. De tudo digo apenas que o cego ficou abandonado pelo trem na estação, que partiu com seu coração de máquina levando os seus passageiros no restante da viagem, mas não em paz. Começou um julgamento sumário, sem réu presente. Logo, emitiu-se a sentença. Por um lado, rápido porque a pena já havia sido aplicada antes mesmo do julgamento; e também porque os magistrados daquele foro eram muitos e pouco se entendiam, uma vez que a justiça feita foi incapaz de compreender as mágoas do homem que não enxerga, se ele tinha esposa, se tinha algum parente morto ou moléstia grave, sequer ficou-se sabendo se ele tinha filhos e se estes torciam por algum time de futebol ou se havia alguma queixa ao governo. De modo que resumo o acórdão na última frase que ouvi, antes de descer na estação central:

Só porque ele é cego se acha no direito de se fazer de vítima, de ser mal educado? Ora, não! Todo mundo aqui viu a bengalada que aquele filho da puta me deu, né?! Essa gente deve se colocar no lugar dela, ser humilde e saber pedir as coisas, né?! Só Deus mesmo!”.

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