7 de out. de 2020

Sobre o tédio de sorrir

Por Milton Rezende


Um sorriso

Um dia ainda vou sorrir

mostrar meus dentes

para aqueles que me acham sem eles.

 

Será um sorriso assim

sem sorriso

sem graça

como o próprio ato de sorrir.

 

Mas será um sorriso

ainda que

pálido-amarelado-mofado.

 

Virá do acaso

do asco

de existir.

 

Um sorriso amofinado

para ser rido talvez

no dia de finados.

 

Um sorriso sarcástico

irônico e crônico

como o tédio de sorrir.

 

Virá do inesperado

pode ser numa festa

numa mesa de bar

numa missa ou

num velório de um amigo.

 

Não haverá contração do rosto

e muito menos

sinais de rugas nos olhos.

 

Será assim

como uma contração de parto,

nascido suado.

Expressão do estômago ao vomitar.  

Luzes noturnas

Com algumas luzes

que roubei do dia,

edifico um palco

e nele instalo minha alquimia.

 

Expliquei,

com meu silêncio,

a descendência do erro

e continuei sendo uma incógnita

para mim mesmo.

 

Observei,

com minha ausência,

a natureza mesma das coisas

e na aparência em que elas se apoiam

sem contudo deixarem de ser neutras.

 

Passei despercebido

pelos camarotes

e toquei fogo

na indumentária

dos figurantes.

 

Depois deixei o palco,

circunspeto com as luzes

que teciam o óbvio de seu lume

para uma plateia inexistente.

 

E quando o dia incorporou

as poucas luzes que dele roubei

com sua claridade geral,

eu percebi o equívoco

de minha mágica noturna

ao acordar sozinho no vestiário.

 

Do livro O acaso das manhãs (Edicon, 1986). Pedidos de exemplares pelo e-mail coisasprobule@gmail.com. Preço: R$ 20,00 + R$ 10,00 frete = R$ 30,00.

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