16 de out. de 2020

Quatro micronarrativas de Adrianna Alberti

O mais frágil dos reinos

Construiu suas atitudes em uma base sólida, cimentada em sua própria capacidade de resolver problemas e olhar atentamente os detalhes. Não soube dizer quando se perdeu, entre as funções do dia a dia e o acúmulo de coisas, estudos demais. Agora as cartas estão suspensas, delicadamente encostadas umas nas outras, parece que esperando um sopro para desmoronar. Suspira para os lados, evitando encostar no caos de um castelo frágil. Mais uma lâmina, repete, uma semana, um prazo. Só mais um, tenta dar conta, busca se convencer. Então tudo treme, sob o olhar rigoroso de superiores. Ainda se encontra em pé.


Não mudem os livros de lugar

Primeiro, um importante fato sobre mim: eu peço o mesmo sorvete há sete anos na sorveteria da cidade. Portanto, na noite em que, sem nenhuma sugestão, eu coloquei queijo ralado no meu miojo, considerei uma vitória. Apenas uni o pensamento de que sopa é excelente quando vai queijo ralado, miojo é quase uma sopa, então deveria ficar bem. Não ficou. Decepção. O queijo empelotou e o miojo ficou com cheiro esquisito e sabor estranho de queijo velho, quando deveria ter o sabor e o cheiro artificial de galinha caipira. Me senti orgulhosa, mas completamente decepcionada. E é por essas e outras que peço o mesmo sorvete há sete anos na mesma sorveteria da cidade.

 

Agridoce

Aqueles olhos, como um filhote fofo demais, mirando como se estivesse em uma loja de brinquedos. E quase esqueceria que aquela criatura não é um simples ser humano. Porque ali havia habilidades como se, ao invés de um jogo de dados de 20 faces ao acaso, tudo fosse escolhido a dedo: o máximo em constituição, força, destreza, inteligência, e o carisma? Ah o carisma. E outras habilidades exímias, cada dia uma nova descoberta. Mas em contrapartida era uma inocência humilde. Não me entenda mal, eu admirava profundamente, mas ainda assim fui embora. Dispensei todas as lembranças, como se pudesse. Era coisa boa demais para coexistir na minha pouca significância.

 

O capeta não é vermelho

Não é possível que ela tenha me impedindo de alcançar meus objetivos. Não, realmente não. Ela sabe como eu gosto das coisas: desafiada! Não há altura suficiente, nem compromisso urgente. Não há madrugada tranquila e nem mesmo o mais singelo presente. Ela deve me amar na mesma proporção que a amo, pois me nega tudo diariamente, desafiando. Eu sinto, em meus bigodes e nos meus pelos alaranjados, a sonora negativa imposta por sua voz. Agora, colocar essa barreira entre nós, enquanto diz: Não arranhe o sofá, já é demais. Desconfio, será que é possível que ela esteja me impedindo de fazê-la sorrir? Duvido.

4 comentários:

Milton Rezende disse...

sutil, muito sutil e eloquente. parabéns!

thaili. disse...

Seus textos sempre conseguir evocar muitas memórias e tirar aquele sorrisinho da boca enquanto lê <3

Jaqueline Mendes disse...

Posso reler várias vezes e ainda assim as micronarrativas vão me pegar de jeito de alguma forma, especialmente "O mais frágil dos reinos", embora "Agridoce" tenha um lugar especial no meu coração 🥺
Obrigada por me proporcionar o prazer de ler a sua escrita!

Adrianna Alberti disse...

Obrigada pelos comentários, esses feedbakcks me incentivam sempre a continuar evocando sentimentos...