14 de out. de 2020

Ponto final

Por Glênio Cabral

__ Está decidido! Vou por um ponto final nessa relação!

E lá vai ele, o fatigado ponto final, saindo da gramática normativa e caindo direto na realidade árida das relações humanas. Que fardo pesado para um pobre ponto! Seu trabalho é finalizar uma frase, um período, uma narrativa, mas uma relação?! É justo exigir isso de um ponto?  

Ah, mas nós, seres não pertencentes à gramática, apreciamos fazer isso. Basta o desejo de dar um fim a alguma coisa, a qualquer coisa, e pronto, já vamos arrancando, com violência, o pobre ponto do seu habitat natural. 

“Deixem-me na gramática!”, quase ouço o ponto, desesperado, gritar. “Não me metam em suas complexidades!”

E de forma filosoficamente cínica, lhe respondemos que, infelizmente, pra tudo nessa vida há um ponto final correspondente. Tem ponto final pra casamento, pra namoro, pra noivado, pra paciência, pra segurança, pra convivência, pra harmonia, pro exercício do poder... É só chegar o limite, o auge das forças, o desgaste, o desencanto, e arrancamos o ponto do seu mundinho gráfico pra encerrar alguma coisa do lado de cá. 

Não se sabe se um ponto tem sentimentos. Talvez tenha. Talvez fique triste por finalizar, vez por outra, uma amizade, uma história de sucesso. Talvez.

Mas o fato é que tudo nessa vida tem um fim. E, conforme uma vez me confidenciou um desses sinais que finalizam períodos, não é pelo fim que se deve chorar, mas pela forma como a coisa toda acaba.

Alguns finais surgem de repente, o ponto pingando do nada, dando a impressão que a narrativa se estenderia por parágrafos a fio. É quando fica aquele gosto de quero mais, aquela saudade das frases, dos períodos, das narrativas, da ficção que de tão fascinante se mistura ao nosso mundo, nos arrancando dessa realidade patética, arrebatando-nos por inteiro. 

Mas também há finais decadentes. Frases que ficam soltas, sem nenhum sentido, desesperadas por desejarem continuar na escrita da vida, mas impedidas pelo ponto que se impõe, aliás, que foi imposto. E quando ele pinga na vida, a história encerra do jeito que estiver sendo escrita. E aí, você sabe, a última impressão, ou a última escrita, é a que fica.

Dura sina essa do ponto final. Finalizar na gramática e na vida. 

E ponto final.

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