10 de out. de 2020

Poemas de Carlos Eduardo Marcos Bonfá

No escuro

O corpo faz uma espécie

De contorcionismo

Para se livrar do fascismo.

Um balé da morte,

Um extravagante comporcionismo.

É preciso ser versátil.

É preciso ser switch,

Witch, bitch.

Mas o fascismo

Também se contorce,

O fascismo também dança.

O fascismo ronda

Seus órgãos

Desde a mais macia infância.

O fascismo aprende o giro, a rotação;

Não perde o trejeito

E a esperança.

O fascismo beija a pele

Na qual você tatua a #hashtag.

Criar o corpo sem órgãos

Seria uma dança possível?

Desapropriar o gesto, torná-lo puro.

Talvez toda dança

Seja sempre dançar no escuro.

  


A cidade delira.

Delira sua população,

Todos os povos que a habitam.

Delira, lesbotransita

E transiciona todas as ruas,

Aflita.

Ouve e delira uma vox populi

Pansadomasoquista.

Ouve e delira de Nero a lira

Que incendeia com suas notas

Todas as notícias das cinzas

De um jornal virtual

De uma hora atrás.

Fake news e facials no Face

Deliram, na cidade,

Em sua dimensão ctônica,

Uma revolução sexual.

A cidade delira o corpo envitrinado.

O corpo envitrinado delira a cidade.

A lira, os povos, a população

Deliram a cidade.

O Subway delira,

Rápido como fast food

E como metrô,

Os subterrâneos da cidade.

A cidade delira o modelo urbano,

Seu corpo, suas trincheiras.

O modelo urbano perde sua origem.

O modelo delira.   

  


O fake do fake mimetiza a parrhêsia perdida,

A parúsia vendida, a verdade imiscuída

Em suas próteses, dispositivos, tecnologias.

Promiscuídas, as múltiplas faces

Tindérias, Tágides da rede,

Me prometem o Paraíso

Para o exercício de meu cinismo,

Sem que nenhum istmo ismo

Vanguardize ou preencha o abismo.

Parrhêsia, parúsia: paralisias.

 

Carlos Eduardo Marcos Bonfá, nascido em Socorro-SP em 09/02/1984, é doutor (com estágio de pós-doutoramento) em Estudos Literários pela UNESP. Também é colaborador (mallarmargo) da revista “Mallarmargens”, mantém o blog pessoal “Beleza Intrusa”, leciona as disciplinas de Literatura e Redação/Produção de Texto nos âmbitos de Ensino Fundamental II e de Ensino Médio e a disciplina de Leitura e Produção de Texto no âmbito de faculdade no setor privado.

2 comentários:

Drummond disse...

A airosa viceralidade de cada verso transcende o que se poderia esperar do próximo, em rítmica comoção, que interage com os mais íntimos tumultos do espírito do leitor provocando sérias cismas e produtivas reflexões. Parabéns por sua arte, Carlos Eduardo.

Carlos Eduardo Marcos Bonfá disse...

Muito obrigado, meu caro!