5 de out. de 2020

Lima Barreto e 'O destino da literatura'

Por Krishnamurti Góes dos Anjos

Parece-nos que certo texto de Lima Barreto (1881-1922) não é ainda muito conhecido pelo chamado “grande público”, por incrível que possa parecer. Em 1921, o autor de Triste fim de Policarpo Quaresma escreveu uma conferência com o título de “O destino da Literatura”, que seria lida na pequena cidade de Mirassol, no interior paulista. A conferência acabou não se realizando, mas foi publicada na revista Souza Cruz nos números 58 e 59 dos meses de outubro/novembro de 1921. Tal texto foi incluído em uma edição do livro Marginália, edição póstuma, de 1953, e depois publicado pela editora Brasiliense quando da edição completa (em 17 volumes) da obra de Lima Barreto, em 1956.  Atualmente a conferência pode ser lida no livro Um Longo Sonho do Futuro: Diários, Cartas, Entrevistas e Confissões Dispersas, da Graphia Editorial, e no estudo de Robert John Oakley Lima Barreto e o destino da literatura, editado pela Unesp em 2011. Dessa breve retrospectiva de impressões e reimpressões se pode inferir que o texto é mesmo pouco conhecido. Escrito em 1921, teve impressões em 1953, 1956, 2011 e sei lá mais quantas. Muito bem, vamos ao que verdadeiramente interessa.

O fato é que Lima Barreto é um autor que sofreu, ao longo do tempo, perseguições veladas e teve nuances de sua vida pessoal enfatizadas com objetivos muito definidos. Primeiro a marginalização ostensiva via indiferença de sua obra, depois a ênfase em seu alcoolismo e nas internações psiquiátricas. E quem nos diz o porquê é Nicolau Sevcenko em artigo de jornal: “Lima Barreto, ao produzir uma das mais raras e profundas percepções da realidade social brasileira vista de baixo para cima, julgando os poderosos pela indignação dos injustiçados, pagou um preço alto por isso naquela época, pois a elite letrada cercou a força de sua obra com uma muralha de silêncio por um longo tempo” (Folha de São Paulo de 04/01/2003).

Muito bem, mas nada disso conseguiu retirar a marca potente de sua literatura. Entretanto, o que nos interessa aqui é saber, ainda que em medida mínima, quais as possíveis e prováveis influências que Lima Barreto sofreu de outros escritores. Da leitura de Marginália, que é uma alentado volume de 320 páginas (Editora Mérito do Rio de Janeiro de 1953), encontramos inúmeras referências a vários autores: de Tolstói a Thomas Carlyle, de Eça de Queiroz a Dostoiévski, dentre outros. Este último nos interessa sobremodo.

O escritor russo Fiódor Dostoiévski nasceu em 1821. Além de escritor, era filósofo e jornalista do Império Russo. É considerado um dos maiores romancistas e pensadores da história, bem como um dos maiores "psicólogos" que já existiram (na acepção mais ampla do termo, como investigadores da psique). Legou à humanidade obras importantíssimas como Gente Pobre, Recordações da Casa dos Mortos, Notas do Subterrâneo, O Idiota e Os Irmãos Karamazov, dentre outras. Mas uma em particular, Crime e castigo, de 1866, é justamente a que Lima Barreto (nasceu no ano da morte de Dostoiévski, 1881) comenta em sua conferência “O destino da literatura”.

Este detalhe interessa-nos para sabermos de que forma a arte literária pode se apresentar “como um verdadeiro poder de contágio que a faz facilmente passar de simples capricho individual, em traço de união, em força de ligação entre os homens”. Lima Barreto abre sua conferência falando de estética e de beleza. Em dado momento podemos ler:

Sendo assim, a importância da obra literária que se quer bela sem desprezar os atributos externos de perfeição de forma, de estilo, de correção gramatical, de ritmo vocabular, de jogo e equilíbrio das partes em vista de um fim, de obter unidade na variedade; uma tal importância, dizia eu, deve residir na exteriorização de um certo e determinado pensamento de interesse humano, que fale do problema angustioso do nosso destino em face do Infinito e do Mistério que nos cerca, e aluda às questões de nossa conduta na vida. É, em outras palavras, o parecer de Brunetière. Tomo como exemplo, a fim de esclarecer esse pensamento, um livro famoso, hoje universal – Crime e Castigo, de Dostoiévsky – que deveis conhecer.

Ele segue em apenas duas páginas dando notícia do enredo de Crime e castigo com uma fidelidade e síntese espantosas e conclui:

Depois de consumado o crime, é em vão que procura fugir dele. O testemunho da consciência o persegue sempre e Raskolnikoff se torna, por assim dizer, o remorso dele mesmo. Quer o castigo; não pode sentir-se bem na vida sem o sofrer, porque as suas relações com o resto da humanidade já são outras e ele se sente perfeitamente fora da comunhão humana, cujos laços ele mesmo rompera.

Nisso tudo que é, resumida e palidamente, a obra do grande escritor russo, não há nada de comum com o que os escritores mais ou menos helenizantes chamam belo; mas, se assim é, onde está a beleza dessa estranha obra? – pergunto eu.

Está na manifestação sem auxílio dos processos habituais do romance, do caráter saliente da ideia. Não há lógica nem rigor de raciocínio que justifiquem perante a nossa consciência o assassinato, nem mesmo quando é perpetrado no mais ínfimo e repugnante dos nossos semelhantes e tem por destino facilitar a execução de um nobre ideal; e ainda mais no ressumar de toda a obra que quem o pratica, embora obedecendo a generalizações aparentemente verdadeiras, executado que seja o crime, logo se sente outro - não é ele mesmo.

Mas esta pura ideia, só como ideia, tem fraco poder sobre a nossa conduta, assim expressa sob essa forma seca que os antigos chamavam de argumentos e os nossos Camões escolares dessa forma ainda chamam aos resumos, em prosa ou verso, dos cantos dos Lusíadas. É preciso que esse argumento se transforme em sentimento; e a arte, a literatura salutar tem o poder de fazê-lo, de transformar a ideia, o preceito, a regra, em sentimento; e, mais do que isso, torná-lo assimilável à memória, incorporá-lo ao leitor, com auxílio dos seus recursos próprios, com auxílio de sua técnica.

Além. É verificado por todos nós que quando acabamos de ler um livro verdadeiramente artístico, convencemo-nos de que já havíamos sentido a sensação que o outro nos transmitiu, e pensado no assunto.

(...) Passemos além: mais do que nenhuma outra arte, mais fortemente possuindo essa capacidade de sugerir em nós o sentimento que agitou o autor ou que ele simplesmente descreve, a arte literária se apresenta com um verdadeiro poder de contágio que a faz facilmente passar de simples capricho individual, em traço de união, em força de ligação entre os homens, sendo capaz, portanto, de concorrer para o estabelecimento de uma harmonia entre eles, orientada para um ideal imenso em que se soldem as almas, aparentemente mais diferentes, reveladas, porém, por elas, como semelhantes no sofrimento da imensa dor de serem humanos.

Lima Barreto segue o texto com mais algumas considerações, até que o conclui com as palavras a seguir:

Mais do que qualquer outra atividade espiritual da nossa espécie, a Arte, especialmente a Literatura, a que me dediquei e com que me casei; mais do que ela nenhum outro qualquer meio de comunicação entre os homens, em virtude mesmo do seu poder de contágio, teve, tem e terá um grande destino na nossa triste Humanidade.

Os homens só dominam os outros animais e conseguem em seu proveito ir captando as forças naturais porque são inteligentes. A sua verdadeira força é a inteligência; e o progresso e o desenvolvimento desta decorrem do fato de sermos nós animais sociáveis, dispondo de um meio quase perfeito de comunicação, que é a linguagem, com a qual nos é permitido somar e multiplicar a força de pensamento do indivíduo, da família, das nações e das raças, e, até, mesmo, das gerações passadas, graças à escrita e à tradição oral que guardam as cogitações e conquistas mentais delas e as ligam às subsequentes.

Portanto, meus senhores, quanto mais perfeito for esse poder de associação; quanto mais compreendermos os outros que nos parecem, à primeira vista, mais diferentes, mais intensa será a ligação entre os homens, e mais nos amaremos mutuamente, ganhando com isso a nossa inteligência, não só a coletiva como a individual. A arte, tendo o poder de transmitir sentimentos e ideias, sob a forma de sentimentos, trabalha pela união da espécie; assim trabalhando, concorre, portanto, para o seu acréscimo de inteligência e de felicidade.

Ela sempre fez baixar das altas regiões, das abstrações da Filosofia e das inacessíveis revelações da Fé, para torná-las sensíveis a todos, as verdades que interessavam e interessam à perfeição da nossa sociedade; ela explicou e explica a dor dos humildes aos poderosos e as angustiosas dúvidas destes, àqueles; ela faz compreender, umas às outras, as almas dos homens dos mais desencontrados nascimentos, das mais diversas épocas, das mais divergentes raças; ela se apieda tanto do criminoso, do vagabundo, quanto de Napoleão prisioneiro ou de Maria Antonieta subindo à guilhotina; ela, não cansada de ligar as nossas almas, umas às outras, ainda nos liga à árvore, à flor, ao cão, ao rio, ao mar e à estrela inacessível; ela nos faz compreender o Universo, a Terra, Deus e o Mistério que nos cerca e para o qual abre perspectivas infinitas de sonhos e de altos desejos.

Fazendo-nos assim tudo compreender; entrando no segredo das vidas e das coisas, a Literatura reforça o nosso natural sentimento de solidariedade com os nossos semelhantes, explicando-lhes os defeitos, realçando-lhes as qualidades e zombando dos fúteis motivos que nos separam uns dos outros. Ela tende a obrigar a todos nós a nos tolerarmos e a nos compreendermos; e, por aí, nós nos chegaremos a amar mais perfeitamente na superfície do planeta que rola pelos espaços sem fim. O Amor sabe governar com sabedoria e acerto, e não é à toa que Dante diz que ele move o Céu e a alta Estrela.

Atualmente, nesta hora de tristes apreensões para o mundo inteiro, não devemos deixar de pregar, seja como for, o ideal de fraternidade, e de justiça entre os homens e um sincero entendimento entre eles.

E querem afinal saber o que autor de obras como Recordações do Escrivão Isaías Caminha, Triste Fim de Policarpo Quaresma, Numa e a Ninfa, Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá, Os Bruzundangas e Clara dos Anjos pensava sobre qual deve ser o destino da literatura?

E o destino da Literatura é tornar sensível, assimilável, vulgar esse grande ideal de poucos a todos, para que ela cumpra ainda uma vez a sua missão quase divina.

Conquanto não se saiba quando ele será vencedor; conquanto a opinião externada em contrário cubra-nos de ridículo, de chufas e baldões, o heroísmo dos homens de letras, tendo diante dos olhos o exemplo de seus antecessores, pede que todos os que manejam uma pena não esmoreçam no propósito de pregar esse ideal. . A literatura é um sacerdócio, dizia Carlyle.

Que me importa o presente! No futuro é que está a existência dos verdadeiros homens. Guyau, a quem não me canso de citar, disse em uma de suas obras, estas palavras que ouso fazê-las minhas:

"Porventura sei eu se viverei amanhã, se viverei mais uma hora, se a minha mão poderá terminar esta linha que começo? A vida está, por todos os lados, cercada pelo Desconhecido. Todavia executo, trabalho, empreendo; e em todos os meus atos, em todos os meus pensamentos, eu pressuponho este futuro com o qual nada me autoriza a contar. A minha atividade excede em cada minuto o instante presente, estende-se ao futuro. Eu consumo a minha energia sem recear que este consumo seja uma perda estéril, imponho-me privações, contando que o futuro as resgatará - e sigo o meu caminho. Esta incerteza que me comprime de todos os lados equivale, para mim, a uma certeza e torna possível a minha liberdade - é o fundamento da moral especulativa com todos os risos. O meu pensamento vai adiante dela, com a minha atividade; ele prepara o mundo, dispõe do futuro. Parece-me que sou senhor do infinito, porque o meu poder não é equivalente a nenhuma quantidade determinada; quanto mais trabalho mais espero."

Possam estas palavras de grande fé; possam elas na sua imensa beleza de força e de esperança atenuar o mau efeito que vos possa ter causado as minhas palavras desenxavidas. É que eu não soube dizer com clareza e brilho o que pretendi; mas uma coisa garanto-vos: pronunciei-as com toda a sinceridade e com toda a honestidade de pensar.

Em tempo: Marginália é obra que se encontra em domínio publico e pode ser lida a custo zero, simplesmente clicando AQUI


Krishnamurti Góes dos Anjos é escritor, pesquisador e crítico literário. Autor de Il Crime dei Caminho Novo (romance histórico), Gato de Telhado (contos), Um Novo Século (contos), Embriagado Intelecto e outros contosDoze Contos & meio Poema e À flor da pele (contos).  Tem participação em 28 coletâneas e antologias, algumas resultantes de prêmios literários. Possui textos publicados em revistas no Brasil, Argentina, Chile, Peru, Venezuela, Panamá, México e Espanha. Seu último livro publicado pela editora portuguesa Chiado, O Touro do rebanho (romance histórico), obteve o primeiro lugar no Concurso Internacional - Prêmio José de Alencar, da União Brasileira de Escritores UBE/RJ em 2014, na categoria Romance. Colabora regularmente com resenhas, contos e ensaios em diversos sites e publicações.

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