19 de out. de 2020

As dicas e as memórias de Stephen King

Por Rogers Silva

Stephen King é aquele tipo de escritor que, acredito eu, é melhor no cinema do que na própria literatura. Ou seja, as adaptações de seus livros (O iluminado (1980), Um sonho de liberdade (1994), Eclipse total (1995), À espera de um milagre (1999), Janela secreta (2004), entre outras), uma vez assistidos, dispensam a pessoa de ler suas obras. Por pensar assim (embora tenha lido dois livros seus – dos quais gostei – há muuuuitos anos), eu nunca tenha, até então, pegado um dos seis livros do autor que lá estão em minha biblioteca particular. Só até alguns dias atrás, quando peguei seu Sobre a escrita, um livro não-ficcional.

Sobre a escrita – a arte em memórias (On writing), uma espécie de memória profissional e manual para escritores, foi publicado nos EUA em 2000 e, no Brasil, em 2015, pela Suma de Letras. Possui 256 páginas. Sua tradução ficou sob a responsabilidade de Michel Teixeira. Ganhou algumas novas edições e reimpressões (no Brasil), alguns prêmios e muitas críticas elogiosas de críticos norte-americanos e – claro – sempre está entre os mais vendidos na categoria “Biografias e memórias”.

Podemos não gostar de sua literatura (particularmente, não tenho uma opinião formada), mas não podemos fingir que o cara não seja um fenômeno mundial: escreveu mais de 65 livros (59 romances), possui mais de 60 filmes adaptados de suas histórias (alguns clássicos do cinema como os já citados O iluminado, Um sonho de liberdade e À espera de um milagre), vendeu mais de 400 milhões de exemplares em 40 países e recebeu diversos prêmios, dentre os quais o Bram Stoker Award, o World Fantasy Award, a Medalha Nacional das Artes e a Medalha por Contribuição de Destaque à Literatura dos Estados Unidos.

Sobre a escrita está dividido em quatro capítulos (Currículo, Caixa de Ferramentas, Sobre a Escrita e Sobre a Vida: Um Postscriptum) que, na verdade, poderiam ser divididos em dois grandes temas: memórias pessoais/profissionais; dicas de escrita e publicação. O primeiro capítulo é um amontoado de breves cenas sobre sua infância, adolescência, juventude e início da fase adulta que nem sempre seguem uma lógica cronológica, assim como em um livro de memórias tradicional, onde o tempo recua e avança, de maneira que o leitor é quem deve juntar os fatos e formar um todo com unidade.

Esse primeiro capítulo funciona para sanar a curiosidade do leitor sobre um autor com tanto sucesso e, claro, como uma fotografia (fotografias não são a realidade, nunca esqueça) do Steve King criança/adolescente, antes de se tornar no autor Stephen King. De acordo com suas memórias, sua vida não foi nada fácil: cuidado apenas pela mãe (seu pai abandonou a família), com um irmão pouco mais velho, eles passaram por muitas cidades e casas. Para piorar, Steve passou por uns bons bocados, sobretudo quanto a questões financeiras e de saúde. Não teve uma vida fácil até, claro, começar a receber quantias que – podem parecer absurdas, mesmo hoje, para os escritores e o mercado editorial brasileiros – contribuíram para melhorar sua vida financeira.

 

“...achei que tinha o início de uma boa história para a Cavalier, e em algum lugar de minha cabeça a esperança de chegar à Playboy acenava discretamente. A Playboy pagava até 2 mil dólares por contos de ficção” (p. 70).


Isso na década de 1960. Ademais, é importante não esquecer que 2 mil dólares nessa época, lá nos EUA, equivalem a bem mais do que 2 mil dólares hoje. Eis outro exemplo (agora referente ao adiantamento de uma publicação pequena de Carrie, a estranha, seu primeiro livro), que pode assustar e frustrar o (aspirante a) escritor brasileiro, que normalmente precisa mendigar para ter seus escritos publicados (ganhar com eles, então, é quase um milagre por aqui):

 

“Um adiantamento de 2.500 dólares para a edição de capa dura (normalmente lançada antes da edição brochura, a principal e maior) era bem pequeno, mesmo para o início da década de 1970, mas eu não sabia disso e não tinha agente literário para me dizer” (p. 76).

No entanto, pouco tempo depois Stephen King receberia uma ligação do seu editor dizendo que os direitos da edição brochura de Carrie tinham sido vendidos para a Signet Books por 400 mil dólares, dos quais a metade (aqui cabe um negrito) era do autor. Isso em 1973. A fim de comparação, à época ele pagava 90 dólares por mês em um aluguel de uma casa. Quatrocentos mil dólares! É muito irreal para a realidade editorial brasileira? É.

Este primeiro capítulo, embora também trate de literatura e de escrita, foca mais em questões da vida do autor, como a relação com sua mãe, irmão, familiares; seus problemas com drogas e bebidas; sua experiência como professor, etc. Algumas das poucas dicas que surgem aí, já antecipando os dois capítulos posteriores, são: “a percepção original do escritor sobre um personagem ou personagens pode ser tão equivocada quanto a do leitor” (p. 71) e “parar uma história só porque ela é emocional ou criativamente custosa é uma péssima ideia” (p. 71).


Uma característica que acho interessante nos filmes e séries norte-americanos, mas me irrita profundamente quando me deparo com livros de ficção e não-ficção daquele país é a necessidade de, a todo o momento, fazer referências a nomes próprios, seja de jornais, ruas, praças, escolas, supermercados, lojas, hotéis, rios, cidades, estados, bairros, pessoas famosas, personagens, jogos, times, seriados, etc. Em geral, são referências dispensáveis, pois: 1) são conhecidas apenas pelos moradores do país (quiçá nem isso); 2) não acrescentam informações valiosas à narrativa e; 3) comprometem a fluidez do texto. Isso ocorre com bastante frequência no primeiro capítulo do livro, o que destoa da linguagem clara e direta do autor. Para não ser injusto, uma ou outra referência é de conhecimento público/mundial, como Edgar Allan Poe, Tom Swift, Charles Dickens, Mickey Mouse, Pato Donald, New York Times, filmes como A noite dos mortos-vivos, Jack, o estripador, entre outros. Essas, sim, fazem sentido para praticamente qualquer leitor dos 40 países onde Stephen King está traduzido.

No segundo capítulo de Sobre a escrita – a arte em memórias, “Caixa de ferramentas”, Stephen King enfim começa a dar dicas práticas sobre a escrita, como propõe em seu título:

  • “Coloque seu vocabulário na primeira bandeja de sua caixa de ferramentas e não faça qualquer esforço consciente para melhorá-lo” (p. 104). Ou seja, sem se preocupar com enfeitar a escrita com um vocabulário que não possui, o escritor deve, ao contrário, utilizar as palavras que conhece: “gorjeta” ao invés de “gratificação”; “cagar” ao invés de “ato de excreção”, etc. Por que, afinal, tornar as coisas piores escolhendo palavras que sejam parentes distantes daquelas que você sabe/quer usar?
  • “Uma construção gramatical ruim produz frases ruins” (p. 107), por exemplo: “Como mãe de cinco, com outro a caminho, minha tábua de passar está sempre aberta”. Estranho, não?
  • “A simplicidade da construção substantivo-verbo é útil – na pior das hipóteses, pode fornecer uma rede de segurança para sua escrita” (p. 108). Junte qualquer substantivo com qualquer verbo e, pimba!, o escritor terá uma oração: “Rochas explodem”; “Jane transmite”; “Montanhas flutuam”. Embora algumas ideias sejam estranhas, todas as orações são perfeitas.
  • Evite a voz passiva. Segundo o autor, escritores tímidos gostam dela pela mesma razão que pessoas tímidas buscam parceiros passivos. A voz passiva é segura porque não exige o enfrentamento de uma ação problemática: “A reunião será realizada às sete horas”. O escritor precisa, na verdade, tomar a rédea da situação (da reunião), o que exigiria um “A reunião será às sete”.
  • Divida o pensamento em dois porque fica muito mais simples. Fica mais fácil para o leitor, e é ele que deve ser a preocupação de qualquer escritor. Não é tão simples ser o “cara do lado receptor”, de acordo com Stephen King, então não complique sem necessidade.
  • O advérbio não é seu amigo. Palavras que modificam o verbo, adjetivo ou outro advérbio, geralmente terminam em “mente”. Com os advérbios, o escritor parece demonstrar que não consegue se expressar com clareza, de não conseguir passar a mensagem: “Ele fechou a porta firmemente”. O termo “firmemente” precisa de fato estar aí? Ou a partir do próprio contexto não subentende que o personagem fechou a porta de maneira firme? Reflita. O problema do uso de advérbio é que ele é igual erva daninha: quando o escritor menos espera, os advérbios se proliferam e ocupam todo o texto.

O segundo capítulo, “Sobre a escrita”, que dá título à obra em sua versão brasileira, é – teoricamente – o mais importante do livro: é aí que surgem as principais dicas para os que pensam em enveredar pelo caminho da escrita/publicação de literatura. Stephen King começa com a dica mais básica: “Se você não tem tempo de ler, não tem tempo (nem ferramentas) para escrever. Simples assim” (p. 128). Mas não para por aí, óbvio. Veja outras:

  • Trabalhe (sim, para o autor escrever é um trabalho como qualquer outro, mas um trabalho prazeroso) em um local com atmosfera serena, pois é difícil trabalhar em um ambiente onde sustos e intromissões são a regra, não a exceção. Tenha um lugar só seu; uma porta que você possa fechar, pois a porta fechada é um modo de dizer ao mundo e a si mesmo que o assunto é sério quando você está lá dentro.
  • Estabeleça uma meta diária (número de palavras) e deixe a porta fechada até que a meta seja cumprida. Três mil palavras? Mil palavras? Cinco mil palavras? Aí é com você.
  • Não tenha, em seu local de trabalho, telefone, televisão, videogames ou qualquer outra distração. Feche as cortinas ou baixe as persianas.
  • “As pessoas adoram ler sobre trabalho. Sabe-se lá por quê, mas adoram” (p. 139).
  • “A descrição é o que transforma o leitor em um participante sensorial da história” (p. 149). No entanto, a descrição pobre deixa o leitor confuso e míope, enquanto a descrição exagerada o enterra em detalhes e imagens. Saiba o que descrever e o que deixar de lado, pois o trabalho principal é contar uma história (pode parecer contraditório essa afirmação, mas para Stephen King a história é algo que surge do enredo e, portanto, mais importante que este, que é mecânico e anticriativo).
  • O cenário e a textura são muito mais importantes para que o leitor se sinta dentro da história do que qualquer descrição física dos personagens.
  • O diálogo é crucial para definir o caráter de cada personagem, mas as suas ações dizem muito mais sobre ele. Para o autor, o diálogo é uma habilidade que aprendem melhor aquelas pessoas que gostam de conversar e ouvir os outros, de forma a perceber os sotaques, o ritmo, os dialetos e as gírias de vários grupos.
  • As melhores histórias são sobre personagens (pessoas), e não sobre acontecimentos. Prestar atenção ao comportamento das pessoas reais pode ser uma boa.
  • Após escrever a primeira versão da história (conto, novela ou romance), revise/crie a segunda e, por fim, dê um polimento final (Fórmula: 2ª versão = 1ª versão – 10%). Você deve cortar alguns trechos se quiser aumentar o ritmo da história.
  • Pesquisas são inevitáveis (sobretudo quando se escreve sobre o que não se sabe); no entanto, é no pano de fundo que elas devem ficar.
  • Cursos e seminários sobre escrita, embora não formem escritores, oferecem um benefício inegável: o desejo de escrever ficção ou poesia é levado a sério. Sem falar que é uma solução para muitos escritores criativos e veteranos, que ganham pouco, de ensinar o que sabem para escritores iniciantes.
  • Se você está ansioso demais para ser publicado, deixe de lado a busca por agentes literários (prática que é muito comum nos EUA) e banque a edição do próprio bolso.

Segundo Stephen King, os leitores não são atraídos pelos méritos literários de um romance, mas sim por uma boa história que possam levar consigo no avião, por exemplo, de forma que ela mantenha o leitor virando as páginas. Isso se dá, sobretudo, quando os leitores reconhecem as pessoas (personagens) que estão no livro, seus comportamentos, seu ambiente, seu jeito de falar. É uma questão de identificação.

Sobre a escrita – A arte em memórias, de Stephen King, é um misto de memórias de fatos que foram cruciais para ele se tornar escritor e manual para escritores iniciantes. Embora se trate de um autor bestseller, sua motivação para escrever não é – nunca foi – o dinheiro. Ele escreve porque é algo que o completa. Porque o alegra. E se você escreve porque também sente alegria, vai escrever para sempre – essa é uma bela lição de Stephen King, para o qual escrever é mágico, é a água da vida. E a água é de graça – então beba até ficar saciado.

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