23 de out. de 2020

À noite o sono é vigília

Por Milton Rezende


Pânico da avenida I

Somos pessoas cansadas

e imóveis à sombra de

um abrigo sem folhas,

e o que nos caracteriza

e ao mesmo tempo nos

diferencia das outras

espécies aprisionadas,

é a nossa dificuldade

quase absoluta em sermos

felizes – como se

a felicidade fosse um

passaporte para a morte.  

Pânico da avenida II 

As situações de vida

em minha ex-cidade

são como fantasmas

no espelho nostálgico

da minha memória.

 

É o mesmo que ausente

percorrer um casarão

tombado pelo patrimônio

e tombar realmente, numa

queda surda e repleta

do pó da história.

 

Em minha antiga rua

havia ao menos rostos

antigos a andar na rua.

 

E eu era um deles

hoje sou incógnita

e não me reconheço

na paisagem insólita.

 

À noite o sono é vigília

nas figuras das paredes

do meu escritório.

Drummond, Beatles e Lula

fixam-me de suas molduras

enquanto eu sonho estar longe.

 

Fora isso a vida transcorre

inexorável rumo ao seu desfecho.


 Do livro Inventário de sombras (Editora Multifoco). Exemplares esgotados

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