27 de out. de 2020

A arte de escrever narrativas #5

Módulo 5: Comece o seu texto pelo final


Por Rogers Silva

Este é um módulo controverso. Nem todos concordam e seguem a lógica do “uma vez pronto o final, você sabe exatamente onde quer chegar”, porque nem todos acreditam que toda narrativa exige um enredo. Mas... como assim? Calma! Listemos alguns motivos de muitos escritores não concordarem com a afirmação do título deste texto:

1)      Nem todos os escritores se preocupam com a construção do enredo[1]. Ou seja, nem todos criam suas narrativas (sejam elas um conto, um romance, um longa-metragem) com a ideia de inserir nelas uma apresentação, conflitos, desenvolvimento, clímax e desfechos bem definidos.

2)     Nem todos os escritores se baseiam em enredos para começarem a escrever. Para alguns, basta uma ideia vaga e, daí, sentar em uma cadeira em frente ao computador e escrever escrever escrever até saber aonde tudo aquilo vai dar. Muitas obras-primas foram escritas a partir, por exemplo, de uma frase de efeito ou de uma ideia básica inicial. José Saramago, em suas entrevistas, discorre bastante sobre essa questão.

3)     Seguindo a lógica do item 2, nem todos os escritores planejam suas narrativas (na literatura, especialmente, isso é bastante comum). Há obras (algumas obras-primas) que foram escritas em um mês, dois meses, sem nenhum tipo de planejamento prévio.

4)    Alguns escritores preferem criar narrativas com foco em personagens, tanto em suas características físicas, mas principalmente em seu cotidiano e em suas características psicológicas. Um bom exemplo disso é nossa Clarice Lispector. Há narrativas, inclusive, que passam integralmente na mente do personagem.

5)     Alguns escritores fazem de suas obras (tanto poéticas quanto narrativas) um grande experimento com a linguagem e, nem sempre, se preocupam com outros aspectos como personagens, espaços, enredo. Aqui, o objetivo é demonstrar todo o potencial da linguagem verbal como meio de experimentalismos e, por que não?, comunicação.

Se você não faz parte de nenhum desses grupos acima, dentre outros, talvez este módulo sirva para algo, pois saber onde chegar em uma narrativa (cuja uma das preocupações seja o enredo) é de suma importância, porque normalmente é lá que estão o clímax (o ponto máximo) e o desfecho (a conclusão). Ou seja, é sobretudo no final que está centrada a expectativa do leitor.

A ideia de começar um texto literário e/ou uma narrativa pelo final não é nova nem é minha. Particularmente, conheci-a em A filosofia da composição (1846), de Edgar Allan Poe, sobre o qual já comentei e sugeri nesta web-oficina. Tudo indica, a partir do seu próprio ensaio, que Poe conheceu-a de outro autor. Para Edgar Allan Poe, nada mais claro que todas as intrigas serem elaboradas em relação ao epílogo (desenlace/conclusão), porque só tendo o epílogo constantemente em vista é possível dar a um enredo um aspecto indispensável de causalidade.

Ao discutir a construção do seu poema mais famoso, “O corvo”, Poe afirma que a obra em questão teve seu começo pelo fim, porque é aí que devem começar todas as obras de arte. O autor compôs, primeiro, aquela que seria a estrofe (equivalente ao clímax em uma narrativa tradicional) mais importante do seu poema narrativo[2]. Assim, estabelecido o ponto culminante (a estrofe clímax), ele melhor poderia variar e graduar a importância e a seriedade das outras partes e poderia, ademais, assentar o ritmo, o metro, a extensão e o arranjo geral do poema a partir dessa estrofe. Tudo, no poema, deveria levar a um lugar que o autor sabia exatamente o que/como era.

“O corvo”, embora se trate de um poema narrativo, é em essência um poema que, por sua vez, possui suas próprias características (ritmo, métrica, rima, verso, estrofe, musicalidade, etc.). O foco maior desta web-oficina, no entanto, é o texto essencialmente narrativo, como a micronarrativa, o conto, a novela e o romance. E o texto narrativo – como já discutimos – exige outros elementos (narrador, personagens, tempo, espaço e enredo). Tendo em vista, em especial, o enredo, o final de um conto – por exemplo – equivale: a) ao clímax e ao desfecho, ao mesmo tempo; ou b) ao desfecho.

É possível escrever o final antes do começo e do meio? Sim. É possível escrever o clímax antes de qualquer outra parte de uma narrativa? Sim. É a estratégia mais adequada? Depende (para Poe, com certeza). É o único processo possível para a escrita de um texto narrativo? Óbvio que não. Há dezenas, centenas, talvez milhares de processos diferentes. Cada escritor, com o tempo e a experiência, vai encontrar aquele processo que mais se adequa ao seu perfil, aos seus objetivos, ao seu estilo literário e ao seu ritmo de trabalho. Mas para isso é preciso tentar. 


[1] Não confunda narrativa (como) com enredo (o quê). Nem toda narrativa possui um enredo claro e definido. Em algumas, inclusive, é até difícil detectar o enredo.

[2] Um poema narrativo conta uma história por meio de versos e estrofes, entre outros recursos próprios do gênero lírico. Por outro lado, por ser – adjetivamente – uma narrativa, possui elementos como personagem, tempo, espaço, etc. “O corvo”, de Edgar Allan Poe, é um belíssimo exemplo de poema narrativo.


* Para aprofundar nessas e em outras questões, realize o curso completo (imagem abaixo). Para ter acesso ao programa, é só pedir pelo e-mail coisasprobule@gmail.com (Assunto: Web-oficina) ou clicar na imagem abaixo.

Um comentário:

Evelyn Postali disse...

Confesso que nunca começo pelo fim, mas não seria nada mal fazer uma tentativa. Eu gostei do texto. Obrigada.