26 de set. de 2020

'Mignonnes' (Lindinhas): quando ser mulher? - Malagueta #36




Por Allyne Fiorentino

Os adultos se lhe afiguram deuses: têm o poder de lhe conferir o ser. Sente a magia do olhar que a metamorfoseia ora em delicioso anjinho, ora em monstro (Simone de BEAUVOIR, O segundo sexo II, p.11).

Em que momento deixamos de ser meninas e passamos a ser mulheres? Com a primeira menstruação? Quando saímos de casa? Quando resolvemos iniciar a nossa vida sexual? Quando temos o primeiro filho? Vê-se que nenhum desses parâmetros é real, pois ocorrem para cada mulher em idades diferentes e alguns deles podem nunca ocorrer.

É provável, portanto, que aquilo que norteará a nossa reflexão, ao fim e ao cabo, não será o tempo cronológico em que passamos a ser mulheres, mas, sim, o que significa ser mulher na sociedade hoje. Há algo que nos une como mulheres, cis e trans, em todas as idades, em todas os países, em todas as culturas: o abuso.

No filme Mignonnes (2020), Maïmouna Doucouré estreia como diretora promovendo a reflexão de um daqueles assuntos que não gostamos de abordar devido às contradições que engendram. Apesar da temática polêmica, a maneira delicada com que o assunto é tratado e a ingenuidade das personagens principais garantem momentos divertidos ao filme. Nada fica pesado ou dramático demais.   

A trama gira em torno de Amy, garota senegalesa cuja família muda-se pra um bairro pobre de Paris. Já nas primeiras cenas, quando ela encontra outra garota de sua idade, Angelica, dançando na lavanderia, percebemos que o choque cultural será uma das premissas do roteiro. Essa diferença entre culturas nos ajudará a refletir o tema pelo viés da comparação do que é ser mulher na cultura tradicional senegalesa e o que é ser mulher em países com forte influência da cultura pop virtual.

A protagonista passa por um momento conturbado do amadurecimento sexual enquanto vive, também, um momento conturbado em casa. Na idade de 11 anos, Amy passa pela transição da infância para a adolescência, essa etapa da vida de uma menina em que ainda existe uma ingenuidade tipicamente infantil, mas há o desejo de ser uma moça, uma mulher. Isso fica claro quando ela encontra um grupo de meninas na escola que estão em busca de um prêmio em um concurso de dança, as Mignonnes. As atitudes e as roupas usadas por elas (curtas e justas), bem como a dança impactam e encantam Amy, que parece desabrochar para fora do mundo infantil e perceber que talvez já pudesse ser uma moça.

Paralelamente a isso, a família, que segue a religião muçulmana, está se mobilizando em torno de um evento que irá mudar as perspectivas do padrão familiar. O pai irá se casar com a segunda esposa e se unirá ao restante da família em Paris. Essa prática de poligamia, embora comum, nem sempre agrada as mulheres muçulmanas, mesmo que elas estejam inseridas nessas tradições, porque, assim como quaisquer outras mulheres do mundo, também sentem ciúme, desvalorização, inveja, sentimento de abandono...

 A invisibilidade da figura paterna

A mãe, apesar de estar desolada com o segundo casamento do marido, tenta se mostrar forte e resignada à sua condição perante os filhos, é somente por um acaso (estar se escondendo debaixo da cama da mãe e ouvir a conversa ao telefone) que Amy descobre que, afinal, sua mãe está muito triste com essa situação, o que a faz também ter raiva do pai.

Em nenhum momento o pai aparece no filme, o que nos remete a essa ausência da figura paterna na vida dos filhos de quase todas as sociedades do mundo, principalmente aquelas bastante conservadoras: o patriarca provedor deixa a cargo da mãe a educação dos filhos e os cuidados da casa enquanto ele segue apenas como uma figura secundária. Essa “sugestão de existência” ocorre em dois momentos do filme: na cena em que o pai deseja falar com Amy e ela, com raiva, joga o telefone pela janela; e a cena em que, já estando em casa, o pai e a noiva, Amy vê os chinelos dele na entrada do quarto. Mesmo nesse momento o pai não é revelado, assim como a noiva, que aparece toda coberta de branco, como um fantasma, como já havia sido narrado pela tia sobre os casamentos senegaleses. Amy se assusta com a noiva/fantasma ou com a personificação da tradição?


Contradições, paradoxos e afins

As contradições e paradoxos são essenciais na construção da lógica do filme. O já mencionado desejo das meninas em se tornarem moças deixa as cenas divertidas, pois mescla a vontade de crescer em paralelo à ingenuidade que possuem. Por exemplo, na cena em que elas estão em um chat na internet com um rapaz mais velho e uma delas abre a webcam sem querer, revelando o rosto de Angelica, e o rapaz se assusta dizendo: “é apenas uma menina”. Isso a deixa irritada. Ser chamada de “menina” é uma ofensa, é um xingamento para elas que desejam tanto crescer. Em outra cena, elas estão no banheiro da escola e veem vídeos na internet e discutem como seria uma relação sexual. Os comentários imaturos e inexperientes conferem humor à cena, mas também atestam a pureza que a roteirista teve o cuidado em representar. 

As coreografias que o grupo Mignonnes ensaiavam poderiam até ser consideradas sensuais para garotas de 11 anos, entretanto o interesse de Amy em começar a dançar junto ao grupo faz com que ela veja vídeos na internet de cantoras dançando de maneira considerada extremamente sexualizada. É pela influência desses vídeo que Amy tem a ideia de sexualizar ainda mais a coreografia ensaiada para o concurso. Colocando-nos no lugar de tantas crianças, adolescentes e, inclusive, adultos, poderíamos imaginar o que se passa na cabeça dessas pessoas consumindo qualquer tipo de conteúdo livre na internet: se é livre e público, por que seria errado?

 Nas cenas dos ensaios, não nos é revelada a coreografia completa delas, mas ao vermos meninas com corpos franzinos e ainda não desenvolvidos tentando rebolar e remexer as nádegas, fica-nos também a impressão do quão ridícula é essa maneira com que encaramos a sensualidade hoje. O primeiro impulso é sempre pensar: “Essa dança é extremamente sexualizada para meninas dessa idade”. Podemos ir além: por que ao vermos crianças fazendo isso achamos inadequado, mas por que não achamos piegas (ou em bom português moderno, ridículo) uma mulher adulta fazendo isso? Será que isso é o que realmente achamos sensual ou é apenas uma prática imposta em algum momento e que as mulheres seguem reproduzindo como sendo um padrão de sensualidade.

A “ridicularização do sexy” nos mostra que até mesmo essas atitudes completamente pessoais podem ser manipuladas pela sociedade, que nos dita o que deve ser sexy e como uma mulher deve explorar a sua sensualidade: seja nos remelexos do corpo, seja na depilação do corpo, seja nas cirurgias plásticas para manter os seios sempre tenros, a barriga sempre chapada, as curvas normalmente inalcançáveis etc. Tudo isso foi rotulado como sexy. E eu pergunto: nós nos achamos sexy fazendo essas coisas? Será mesmo que remexer o corpo é um ato sensual ou é apenas um corpo remexendo? Uma dança e nada mais...

Nesse aspecto, a percepção de cada um será o juiz, pois a sensualidade, na maioria das vezes, está nos olhos de quem vê. É por isso que ao ver meninas dançando, homens adultos têm a escolha de enxergarem-nas apenas como meninas tentando imitar atitudes de mulheres adultas ou como mulheres que suscitam algum desejo sexual. Novamente, são os olhos dos homens que matam a ingenuidade contida nas meninas, é nos olhos deles que está a impureza, e, não, nas atitudes delas.

Isso tudo nos remete à cultura do estupro. A culpa recai nas roupas e nas atitudes das mulheres, e, não, no crime cometido pelo homem. A cena em que um colega de classe dá um tapa no bumbum de Amy alegando que se ela queria mostrar seu corpo, também poderia ser tocada por ele. Ora, sabemos que esses conceitos são passados de geração para geração, perpetuando a cultura que normaliza esse tratamento para com as mulheres.  

No palco do concurso, ao verem a coreografia “sensual” que as Mignonnes apresentam, os adultos da plateia vaiam, julgam e recriminam as garotas. O paradoxo da situação está criado: os adultos vaiam porque acham que a coreografia das meninas é muito sensual para a idade delas, ou seja, elas não são consideradas maduras o suficiente para ter essas atitudes. Entretanto, sendo elas apenas meninas de 11 anos, é justo que adultos as vaiem sem nenhuma consideração pela imaturidade dos seus atos? Ora, se justamente apontam a imaturidade por um lado, por outro esperam que tenham o discernimento e a responsabilidade para entender as vaias. Se elas são novas demais pra dançarem assim, por que não são novas demais para serem vaiadas sem piedade? Você vaiaria uma criança em um palco?

 A simbologia das roupas e da menarca

A tia de Amy, uma senegalesa idosa, uma matriarca que tenta preservar e ensinar aos mais novos as tradições do país, é uma figura muito importante, pois é o elo desse passado conservador e o mundo em que Amy vive agora. Ela é a voz de todos os antepassados que viveram e preservaram as tradições. E como rejeitar a sabedoria de uma senhora idosa e simpática? Eis aí mais uma contradição que não gostamos de mencionar: até que ponto devemos respeitar a tradição?

 Em uma das cenas, a tia diz a ela: “Hoje eu vou te ensinar a ser mulher: vamos fazer a comida para o casamento do seu pai”. Ser mulher para a tia é isso: cozinhar para os convidados de um casamento de um pai que está ferindo a mãe e provocando raiva na filha. A tradição, muitas vezes, nos ensina a aceitar a opressão, a resignar-se com aquilo que denominam “destino”. 

Para a cerimônia, Amy ganha um vestido tradicional senegalês. Esse vestido carrega uma simbologia especial, pois ele contrasta diretamente com as roupas curtas e sensuais das colegas de Amy.

Quando as flores do vestido sangram, Amy tem a sua primeira menstruação. Após a menarca, a mãe profere a sentença: “Você, agora, é uma mulher”. Mas o que é ser mulher, afinal? E ainda: o que é ser mulher aos 11 anos de idade? Com um corpo de criança e a imaturidade mental e emocional, querem que eu pense que já sou uma mulher? Pois se já sou uma mulher, porque a coreografia considerada “sensual” pareceu inadequada aos olhos de tantos pais que estavam na plateia do concurso? Se sou uma mulher, não posso mais ter atitudes imaturas? Não posso mais brincar? O que esperam que eu seja? O que eu sou, afinal? 

Esses paradoxos que reproduzimos sem pensar são frutos de uma sociedade que quer manter algumas de suas tradições, mas que não sabe como agir diante de aspectos tradicionais que remetem a abusos contra mulheres e crianças.

Essa mesma sociedade cobra de suas crianças, cada vez mais cedo, responsabilidades de adultos, mas ao mesmo tempo esperam que elas mantenham a moral e a ingenuidade de crianças... Roubam a infância das crianças de várias maneiras. A infância das meninas é roubada quando são transformadas em mães de seus irmãos mais novos ou responsáveis por todos os afazeres domésticos de uma casa, quando lhes proíbem o estudo, quando são expostas a uma sexualização precoce, quando são vendidas para se casarem, quando são violadas. O que nos une como mulheres no mundo todo são esses abusos que todas nós já sofremos.

No fim do filme, desobrigada pela mãe de comparecer ao casamento do pai e depois de ter sido vaiada no concurso de dança, Amy simbolicamente deixa a roupa tradicional e a roupa do concurso de dança sobre a cama e sai de jeans e camiseta para brincar de pular corda na rua com outras crianças. Simbolicamente, Amy não é nem aquela mulher que a tradição senegalesa espera que ela seja, nem a mulher que a cultura pop espera que ela seja: ela é apenas uma criança. Deixem-na ser apenas uma criança.

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